Durante décadas, a integração da China na economia mundial ajudou a manter baixos os preços de uma vasta gama de produtos consumidos na Europa, desde eletrónica e têxteis até equipamentos industriais e bens domésticos. Mas a crescente preocupação com dependências estratégicas, interrupções nas cadeias de abastecimento e rivalidades geopolíticas levou a União Europeia a procurar uma nova relação com Pequim: menos dependência, mas sem uma separação completa.
Não existe uma estimativa única para o aumento dos preços, porque o impacto dependerá do setor, do ritmo de substituição das importações chinesas e da capacidade da Europa para encontrar fornecedores alternativos. No entanto, vários estudos e análises apontam para um princípio comum: uma cadeia de produção mais segura e diversificada tende a ser também uma cadeia mais cara.
A China tornou-se competitiva não apenas devido aos custos laborais, mas também porque construiu, ao longo de décadas, uma rede industrial completa que reúne fornecedores de matérias-primas, componentes, fabricantes e infraestruturas logísticas. Substituir essa estrutura implica criar novas fábricas, desenvolver competências industriais e aceitar custos de produção inicialmente superiores.
A dependência europeia é particularmente visível em setores considerados estratégicos. A União Europeia continua fortemente dependente da China em áreas como baterias, painéis solares, equipamentos eletrónicos, minerais críticos e componentes utilizados na transição energética.
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A própria Agência Internacional de Energia tem alertado para a concentração geográfica das cadeias de fornecimento de tecnologias limpas, onde a China mantém uma posição dominante em várias etapas de produção.
Essa concentração ajudou, por outro lado, a manter preços mais baixos. Uma análise do Banco Central Europeu concluiu que os preços competitivos das importações chinesas contribuíram para moderar a inflação dos bens industriais não energéticos na zona euro, exercendo pressão descendente sobre os preços praticados por produtores europeus e outros fornecedores internacionais. Ou seja, reduzir a dependência da China poderá significar perder parte desse efeito deflacionista.
O setor automóvel é um dos exemplos mais claros. A produção de veículos elétricos depende de baterias, minerais críticos e componentes onde as empresas chinesas conquistaram uma posição dominante. A tentativa europeia de criar uma cadeia própria de baterias e aumentar a produção local poderá reforçar a autonomia industrial, mas implica investimentos elevados que poderão refletir-se no preço final dos veículos.
O mesmo acontece com a energia renovável. A Europa depende significativamente de fornecedores chineses para equipamentos como painéis solares e componentes associados ao armazenamento energético. Criar uma indústria europeia alternativa poderá aumentar a segurança do abastecimento, mas poderá também tornar a instalação de algumas tecnologias mais cara no curto prazo.
Um estudo da consultora EY-Parthenon, estima que a redução substancial da dependência ocidental da China em setores industriais e tecnológicos exigiria investimentos de vários biliões de dólares ao longo das próximas décadas.
Para a zona euro, o valor estimado ultrapassaria os 9 biliões de dólares (7,9 biliões de euros) até 2050, considerando a necessidade de reconstruir infraestruturas, capacidade produtiva, investigação e cadeias de fornecimento. Esse investimento não seria pago apenas pelos governos. Parte do custo acabaria por ser absorvida pelas empresas e pelos consumidores através de preços mais elevados.
Ainda assim, o aumento não deverá ser igual em todos os produtos. Bens simples, facilmente substituíveis e com muitos fornecedores alternativos poderão sofrer impactos limitados. Já produtos dependentes de tecnologias específicas, matérias-primas críticas ou grandes investimentos industriais poderão registar aumentos mais significativos.
A alternativa à dependência chinesa também não passa necessariamente por trazer toda a produção de volta para a Europa. Muitos economistas defendem uma estratégia de diversificação, conhecida como de-risking, em vez de uma rutura total. O objetivo seria reduzir riscos através de vários fornecedores – incluindo países asiáticos, América do Norte e parceiros europeus – mantendo parte dos benefícios do comércio global.
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) tem defendido precisamente esse equilíbrio: reforçar a resiliência das cadeias de abastecimento sem abandonar completamente as vantagens económicas dos mercados abertos. Segundo a organização, medidas como melhorar logística, reduzir obstáculos comerciais e diversificar fornecedores podem aumentar a segurança sem provocar aumentos excessivos de custos.
Para a Europa, o dilema é cada vez mais evidente. A dependência da China trouxe produtos mais baratos e cadeias industriais altamente eficientes, mas criou vulnerabilidades estratégicas. Reduzir essa exposição poderá proteger a economia europeia de futuras crises, mas terá um preço.
A questão não é apenas se os produtos europeus ficarão mais caros, mas quanto a sociedade europeia estará disposta a pagar por uma economia considerada mais segura e autónoma.