Os Estados Unidos e o Irão trocaram ataques esta quinta-feira (9) pelo segundo dia consecutivo, enquanto Washington e Teerão continuam a disputar o controlo do estratégico Estreito de Ormuz.
Este corredor vital para o transporte mundial de petróleo e gás tornou-se um dos principais pontos de tensão na guerra no Médio Oriente. Teerão insiste em controlar o estreito, apesar de a passagem ter permanecido aberta à navegação internacional até ao início do conflito, desencadeado pelos ataques dos Estados Unidos e de Israel em fevereiro.
Depois das duas partes terem trocado ataques na quarta-feira, o Presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou que o cessar-fogo com o Irão estava “terminado”, embora tenha deixado em aberto a possibilidade de novas negociações e garantido que quaisquer ataques seriam de curta duração.
As forças norte-americanas indicaram que os mais recentes bombardeamentos tiveram como objetivo “a capacidade do Irão para ameaçar a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz”, apontando os recentes ataques contra navios comerciais naquela via marítima.
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O Comando Central dos Estados Unidos (CENTCOM) afirmou ter atingido cerca de 90 alvos militares, incluindo depósitos de mísseis e drones, bem como instalações logísticas ao longo da costa iraniana. Os ataques provocaram a morte de três pessoas e feriram várias outras nos arredores de Ahvaz, no sudoeste do Irão, informou a agência oficial iraniana IRNA, citando um responsável.
A resposta iraniana foi imediata. A Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) anunciou ter atacado “infra-estruturas e instalações essenciais” das bases norte-americanas de Arifjan e Ali Al Salem, no Kuwait, e de Juffair e Sheikh Isa, no Barém. Posteriormente, o Exército iraniano afirmou ter lançado drones de ataque unidirecionais contra alvos no Kuwait, Barém e Qatar, no âmbito da ofensiva contra bases militares dos Estados Unidos na região do Golfo, segundo a televisão estatal.
Um jornalista da AFP ouviu explosões na capital do Barém, Manama, enquanto o Kuwait informou ter intercetado “ataques hostis com mísseis e drones”. Entretanto, ataques norte-americanos atingiram uma ponte ferroviária no nordeste do Irão, segundo os meios de comunicação oficiais.
A IRNA noticiou também bombardeamentos contra uma base militar em Bushehr, cidade costeira onde se localiza a única central nuclear civil iraniana. Horas antes, tinham sido ouvidos aviões de combate sobre a ilha iraniana de Kish, enquanto explosões atingiram as cidades portuárias de Bandar Abbas, Konarak e Chabahar, onde parte da população ficou sem eletricidade, informou a IRNA.

Enlutados participam no cortejo fúnebre do falecido líder supremo do Irão, o aiatolá Ali Khamenei, no Santuário do Imã Hussein, em Karbala, na madrugada de 9 de julho de 2026. (Foto: Ahmad Al-Rubaye/AFP)
“Esta é uma retaliação pelo bombardeamento de navios levado a cabo pelo Irão ontem”, escreveu Trump na quarta-feira na rede social Truth Social. “Se voltar a acontecer, será muito pior!” Mais tarde, já a bordo do Air Force One, Trump disse aos jornalistas que o lado iraniano “telefonou há pouco” porque queria “muito chegar a um acordo”.
O Presidente norte-americano não revelou quem participou na chamada nem forneceu mais pormenores, mas acabou por colocar em causa o valor de um eventual entendimento, classificando os iranianos como “um pouco loucos”.
Controlo sobre o estreito
O principal negociador iraniano afirmou na quinta-feira que o Estreito de Ormuz só será reaberto “nos termos definidos pelo Irão”. “Os Estados Unidos ainda não aprenderam que a intimidação e o incumprimento das suas promessas já não ficam sem consequências”, escreveu Mohammad Bagher Ghalibaf na rede social X. “Que fique claro: se atacarem, serão atacados.”
Desde o início da guerra, Teerão tem insistido em controlar o estreito, anunciando a intenção de cobrar taxas pela passagem e ameaçando atingir embarcações que se desviem da rota autorizada pelas autoridades iranianas. Nos últimos dias, as forças iranianas atacaram pelo menos três navios, levando Washington a lançar uma vasta operação contra alvos iranianos na terça-feira.
Os ataques desta quinta-feira ocorreram poucas horas antes do funeral de Ali Khamenei, líder supremo iraniano, morto no início da guerra, a 28 de fevereiro. Entretanto, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, apelou “à máxima contenção de todas as partes”, posição igualmente defendida pelo Paquistão, um dos principais mediadores das conversações entre Washington e Teerão.
O Irão revelou que o ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, e o primeiro-ministro do Qatar falaram por telefone na quarta-feira e “sublinharam a importância de recorrer a meios diplomáticos para resolver as questões regionais”.
Tanto os Estados Unidos como o Irão afirmaram ter atingido dezenas de alvos na vaga inicial de ataques. A televisão estatal iraniana indicou que oito militares iranianos morreram nessa ofensiva. O CENTCOM informou que as suas forças atacaram mais de 80 alvos na terça-feira, enquanto a Guarda Revolucionária afirmou ter atingido dezenas de instalações militares norte-americanas no Kuwait e no Barém.
Marinheiros continuam retidos
Omã, que partilha com o Irão as margens do Estreito de Ormuz, condenou os ataques contra navios, mas sem atribuir responsabilidades a Teerão. O antigo mediador tem evitado responsabilizar o Irão pelos ataques ocorridos desde o início da guerra, procurando preservar a sua neutralidade, agora posta à prova pelas negociações com Teerão sobre a administração do estreito.
Washington defende a livre circulação de navios, enquanto o Irão insiste na cobrança de taxas de passagem e recusa autorizar embarcações a atravessarem águas territoriais de Omã.
Os três navios recentemente atacados navegavam junto à costa omanita, onde as autoridades tinham criado um corredor temporário de navegação.
O tráfego marítimo tinha começado a recuperar depois de Washington e Teerão terem assinado, no mês passado, um acordo para pôr termo às hostilidades. Ainda assim, cerca de 6.000 marítimos permanecem retidos na região, afirmou na quarta-feira o secretário-geral da Organização Marítima Internacional, Arsenio Dominguez.