Docentes da Universidade de Macau (UM) consideraram hoje que o interesse dos estudantes chineses pela língua portuguesa passa principalmente por procurar melhores oportunidades de emprego, mas também é motivado pela curiosidade em relação à cultura lusófona.
A universidade iniciou hoje a 40.ª edição do Curso de Verão de Língua Portuguesa, iniciativa reúne cerca de 400 participantes provenientes de Macau, Hong Kong, China continental, Malásia e Canadá, mantendo um dos números de inscritos mais elevados dos últimos anos.
Embora a maioria dos participantes seja constituída por estudantes universitários da China continental interessados em melhorar as perspetivas de carreira, os coordenadores do curso sublinham que uma parte significativa procura o português por razões pessoais e culturais.
“Os estudantes universitários querem aproveitar o português para terem um trabalho melhor no futuro, mas também temos estudantes que já estão no mercado de trabalho e que provavelmente não precisam de saber português pelo trabalho ou para ganhar mais, mas porque gostam. Querem sentir a língua e a cultura por detrás da língua”, disse à Lusa Lu Chunhui, professor e investigador do Departamento de Português da UM e coordenador do Curso de Verão.
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“Ainda me lembro de um estudante de cerca de 70 anos de Hong Kong, o mais velho que tive nas minhas turmas. Muitas pessoas como ele quiseram esta aprendizagem sem um objetivo prático, mas mostrando um empenho extraordinário, o que achei muito comovente”, afirmou.
A também coordenadora do curso, Tânia Ferreira, considera que a procura demonstra o interesse sustentado pela língua portuguesa na região. “Este ano foram registadas 407 inscrições, com todas as vagas preenchidas nas primeiras horas, um registo recorde. Para um curso intensivo, é de louvar”, afirmou a professora auxiliar da Faculdade de Letras da UM.
A docente reconheceu que, para muitos participantes, o domínio do português continua associado às oportunidades profissionais nos países lusófonos. “Tendo em conta o perfil dos inscritos nesta edição, que são maioritariamente universitários do interior da China, o interesse é melhorar as suas competências na língua para de facto trabalharem com a língua portuguesa em países como o Brasil, os PALOP e, claro, Portugal”, explicou.
Mas acrescentou que o programa pretende igualmente aprofundar o contacto com a cultura dos Países de Língua Portuguesa e com a identidade de Macau. “O curso também é uma oportunidade para aprofundarem o seu conhecimento da cultura portuguesa ou brasileira. Este ano incluímos também elementos sobre Macau, como o patuá, sendo importante mostrar um exemplo vivo da herança portuguesa em Macau”, disse.
O patuá é um sistema linguístico criado pela comunidade lusodescendente de Macau ao longo dos últimos quatrocentos anos, tendo o português como base, mas misturando-o com malaio, cantonense, inglês e espanhol.
Para o vice-reitor para os Assuntos Globais da UM, Rui Martins, a longevidade do curso demonstra o interesse contínuo pelo português na Ásia sendo o “curso mais antigo oferecido na Universidade de Macau”, instituição que faz também este ano 45 anos.
“Foi considerado a certa altura pelas autoridades da universidade terminar o curso por não dar lucro e custar muito dinheiro. Mas, sempre com o apoio dos colegas do Departamento de Português, foi possível mantê-lo em funcionamento e deixou de ser deficitário há já algumas décadas”, disse.
“Isso demonstra o interesse que há pelo curso, vendo a quantidade de alunos, não só da China mas também de países e regiões circundantes, o que nos deixa olhar para o futuro com esperança”, acrescentou.
O Departamento de Português da UM conta hoje com mais de 30 docentes, incluindo aqueles que trabalham a tempo parcial, e cerca de 400 alunos. Os cursos deste departamento chegam, no entanto, a mais de mil alunos em toda a UM, incluindo alunos da faculdade de Direito e outros que frequentam as disciplinas de língua oferecidas transversalmente em todos os cursos da instituição de ensino superior.