“O número de detenções tende a aumentar (…), estamos na fasquia agora de 29 casos. Os distritos que tiveram maior incidência são os distritos de Namacurra e Mucubela. Em Mucubela, infelizmente, nós perdemos três cidadãos dos quais dois docentes”, disse o comandante da Polícia da República de Moçambique (PRM) na Zambézia, Marinho Muchanga.
Registou-se a morte de dois professores no posto administrativo de Bajone, tendo sido destacadas forças de segurança para conter a situação, de acordo com o responsável. Estas agressões já provocaram pelo menos 49 mortes, além de dezenas de feridos e detidos, segundo dados das autoridades, após o registo de novos óbitos nas províncias da Zambézia, com três, e Manica, outros três.
Na província de Sofala, as autoridades de saúde reportaram novos casos associados ao pânico coletivo, incluindo quatro mortes por linchamento registadas nas últimas semanas.
“Tivemos alguns casos de óbitos, quatro óbitos por linchamentos que aconteceram. E há também um realce de um linchamento de um professor, que aconteceu, por exemplo, no caso do Chiringoma. E temos cerca de oito casos também de agressão”, afirmou o médico psiquiatra do hospital da Beira, Vasco Cumbe.
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Segundo as autoridades, os episódios têm origem em crenças e desinformação, com relatos de suposto desaparecimento de órgãos genitais, que não têm fundamento científico. “Não há nenhum desaparecimento de órgão genital. É impossível do ponto de vista científico”, acrescentou o especialista, apontando o ‘stress’ e o medo como fatores que contribuem para a perceção errada.
Na província de Manica, a médica-chefe do Centro de Saúde de Gôndola relatou na segunda-feira (4) casos recentes de vítimas mortais. “Recebemos ontem dois corpos sem vida, vítima de linchamento, por parte da população, por conta do mito que está a acontecer acerca de atrofiamento genital. E hoje também recebemos mais um caso de linchamento, também pela população”, disse Vânia Monteiro.
Em 1 de maio, o ministro do Interior, Paulo Chachine, manifestou preocupação com a escalada de violência, sublinhando o impacto social dos boatos. “Estes dados preocupam-nos. São muitas vidas inocentes perdidas por causa de algo que não existe. Devemos unir-nos contra este mal que, a prevalecer, poderá pôr em causa a nossa harmonia social”, disse o governante.
Segundo o ministro, 74 pessoas ficaram feridas e 132 estão detidas por envolvimento em atos de agressão física e linchamento de “cidadãos inocentes”, em 93 casos até então registados, relacionados com boatos com maior incidência nas províncias de Cabo Delgado, Nampula, Niassa e Zambézia.
As superstições sobre o alegado atrofiamento, encolhimento e até desaparecimento de órgãos genitais, a partir de um toque, tiveram início em 18 de abril, na província de Cabo Delgado, tendo-se posteriormente espalhado para outras regiões do país e para as redes sociais.
As autoridades indicam que a situação continua a gerar insegurança em várias regiões, apesar de sinais de estabilização em algumas zonas, com reforço da presença policial e ações de sensibilização. A Comissão Nacional de Direitos Humanos já tinha denunciado anteriormente a escalada de violência associada a estas crenças, alertando para a necessidade de intervenção urgente para travar os linchamentos e proteger vidas.