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Consumo de antidepressivos dispara 82% em Portugal e atinge máximo da década

O consumo de psicofármacos em Portugal registou um aumento expressivo na última década, com os antidepressivos a liderarem a subida. Entre 2015 e 2025, a utilização desta classe de medicamentos cresceu 82%, atingindo um novo máximo histórico no país.

Os dados divulgados pelo Infarmed indicam que, no último ano analisado, foram dispensadas cerca de 80 mil embalagens de antidepressivos por dia nas farmácias comunitárias do continente, totalizando aproximadamente 29,4 milhões de unidades, o valor mais elevado dos últimos dez anos.

No mesmo período, a despesa do Serviço Nacional de Saúde com este tipo de medicamentos aumentou de forma significativa, refletindo tanto o maior volume de prescrições como a evolução dos custos, com encargos totais a aproximarem-se dos 156 milhões de euros.

Entre as várias classes de fármacos analisadas, os antidepressivos foram os que registaram o crescimento mais acentuado, passando de cerca de 7,6 milhões para 13,8 milhões de embalagens. Em paralelo, os antipsicóticos também aumentaram de forma relevante, enquanto as benzodiazepinas — usadas sobretudo como ansiolíticos e sedativos — apresentaram uma ligeira descida no consumo.

Especialistas em saúde mental apontam várias explicações para esta evolução, incluindo o maior número de diagnósticos, o reforço do acesso ao tratamento e a substituição progressiva de benzodiazepinas por antidepressivos em algumas patologias. Acresce ainda a dificuldade de acesso a psicoterapia, tanto no setor público como no privado, o que pode levar a uma maior dependência da abordagem farmacológica.

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Para a psiquiatra Ana Matos Pires, os números podem refletir simultaneamente um aumento de casos de sofrimento psicológico e uma melhoria no diagnóstico precoce. A especialista sublinha que os antidepressivos não são utilizados apenas na depressão, mas também em perturbações de ansiedade, obsessivo-compulsivas e dor crónica.

Já outros especialistas alertam para limitações estruturais no sistema de saúde mental, nomeadamente a escassez de respostas de psicoterapia acessíveis e atempadas. Essa fragilidade poderá estar a contribuir para a maior pressão sobre os cuidados médicos primários, onde a medicação continua a ser frequentemente a primeira linha de resposta.

Apesar do aumento do consumo de antidepressivos, os dados também mostram uma redução na utilização de benzodiazepinas, tendência que vários especialistas consideram positiva devido ao risco de dependência associado a estes fármacos.

O crescimento global dos psicofármacos, concluem os peritos, levanta desafios importantes para o sistema de saúde português, tanto na capacidade de resposta clínica como na necessidade de reforço das alternativas terapêuticas não farmacológicas.

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