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Dia Mundial da Obesidade: “A epidemia do século que desafia governos e sociedades”

Hoje, quando se celebra o Dia Mundial da Obesidade, a preocupação ultrapassa fronteiras. Não se trata apenas de um problema nacional ou de imagem: a obesidade tornou‑se numa epidemia global com consequências profundas para a saúde pública, economia e bem‑estar social.

Gonçalo Lopes

Dados recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que, em 2022, mais de 890 milhões de adultos tinham obesidade, e cerca de 2,5 mil milhões estavam com excesso de peso, o que significa que 43 % dos adultos no mundo estão acima do peso considerado saudável. Em crianças e adolescentes, os números também são alarmantes: mais de 390 milhões eram categorizados como com excesso de peso em 2022, incluindo cerca de 160 milhões com obesidade.

Ainda mais preocupante é a tendência a longo prazo: entre 1990 e 2022, a prevalência de obesidade mais do que dobrou nos adultos e quadruplicou nos jovens, de acordo com análises internacionais.

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Um relatório global publicado recentemente prevê que, sem intervenções eficazes, até 2050 mais de metade da população adulta mundial poderá estar com excesso de peso ou obesidade, correspondendo a cerca de 3,8 mil milhões de adultos, e quase um terço das crianças e jovens também será afetado.

Além disso, a World Obesity Atlas 2025 revela que a maioria dos países ainda não tem políticas adequadas para enfrentar a situação: dois terços não implementaram sequer medidas fundamentais de prevenção e controlo, deixando milhões de vidas em risco e os sistemas de saúde vulneráveis.

Por outro lado, em relatórios paralelos, projeções para 2035 estimam que 51 % da população mundial, cerca de 4 mil milhões de pessoas, poderá viver com excesso de peso ou obesidade se as tendências não forem revertidas, com impactos económicos de milhares de milhões de dólares por ano.

“Não é apenas uma questão individual, é um desafio coletivo”

Contactado nesta data pelo PLATAFORMA, o endocrinologista Miguel Sousa, que acompanha a epidemia de obesidade em Portugal e segue também as tendências internacionais, alerta que a dimensão global expõe falhas sistémicas na forma como governos, indústria e comunidades lidam com alimentação e estilo de vida.

“Estes números não são apenas estatísticas, representam vidas, futuros e pressões reais sobre saúde e economia em quase todos os países. A obesidade hoje ultrapassa a desnutrição como a forma mais prevalente de má nutrição em muitas regiões do mundo” diz.

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Miguel Sousa sublinha ainnda que a obesidade é uma doença crónica multifatorial, resultante não só de escolhas individuais, mas de ambientes alimentares obesogénicos, urbanização, marketing agressivo de alimentos ultraprocessados e falta de políticas de suporte à alimentação saudável e atividade física.

As desigualdades no impacto global

A prevalência de obesidade e excesso de peso não é uniforme. Regiões como as Américas e o Pacífico ocidental apresentam as taxas mais elevadas, enquanto partes da Ásia e África também registam aumentos rápidos à medida que mudam padrões de consumo e de vida.

No âmbito das crianças, um relatório internacional mostrou que a obesidade infantil agora supera a desnutrição em muitas partes do mundo, um sinal claro de que os desafios mudaram radicalmente nas últimas décadas.

O que precisa de ser feito globalmente segundo o especialista:

  1. Políticas públicas robustas: legislar para limitar o marketing de alimentos ultraprocessados, promover rotulagens alimentares claras, taxar bebidas açucaradas e apoiar alimentos frescos acessíveis.
  2. Educação e ambientes saudáveis: desde a infância, programas em escolas que tornem a alimentação saudável e a atividade física uma norma social e não uma escolha elitista.
  3. Combate às desigualdades: acesso equitativo a serviços de saúde, prevenção e tratamento, independentemente de ter ou não recursos.
  4. Resposta multisectorial: integrar saúde pública, educação, agricultura e planeamento urbano para enfrentar os determinantes sociais da obesidade.

“Sem uma ação clara, coordenada e sustentada, corremos o risco de condenar gerações a doenças crónicas evitáveis e a uma diminuição significativa da qualidade de vida”, conclui.

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