Com mais de 20 anos de experiência no setor, Sou Ian Kit, responsável por uma empresa de gestão de táxis, recorda o impacto da primeira chegada da Uber em 2015. A entrada súbita, diz, “apanhou toda a indústria desprevenida” e obrigou a “rever o modelo de negócio”. As rendas tiveram de ser reduzidas em pelo menos metade para atrair motoristas. “Para preservar relações de cooperação a longo prazo e a reputação, por vezes tive mesmo de pagar a renda dos táxis do meu próprio bolso”. Na sua leitura, a “abordagem disruptiva da plataforma alterou profundamente a estrutura tradicional do sector e afetou muitas famílias”.
Atualmente, a frota sob a sua gestão coopera com a Uber. A principal vantagem é o potencial aumento do rendimento dos condutores. No curto prazo, considera o regresso positivo, “porque atualmente Macau carece de sistemas de avaliação e de fiscalização. Eles podem ajudar a monitorizar e incentivar boas atitudes de serviço entre os taxistas e resolver dificuldades na chamada de veículos. Isto preenche uma lacuna que as dez empresas de táxis especialmente licenciadas ainda não conseguiram colmatar”. Ainda assim, prefere cautela quanto ao futuro, receando um cenário semelhante ao observado no mercado de entregas na China continental, “em que, depois de ganhar quota de mercado, passam a pressionar constantemente os motoristas e a aumentar as tarifas, ficando apenas o operador a beneficiar”. Por isso, defende “intervenção regulatória atempada”.
Entre os concessionários, a avaliação também é positiva nesta fase, de acordo com Sou: “Os seus serviços de software e estratégias incentivam os motoristas a prestar um serviço de qualidade, atraindo mais pessoas dispostas a trabalhar bem, aumentando os rendimentos e estabilizando o setor. Para os motoristas, ajuda a resolver o problema de encontrar passageiros ou carros e recompensa o bom serviço, algo que sempre foi uma preocupação”.
Eles [Uber] podem ajudar a monitorizar e incentivar boas atitudes de serviço entre os taxistas e resolver dificuldades na chamada de veículos. Isto preenche uma lacuna que as dez empresas de táxis especialmente licenciadas ainda não conseguiram colmatar
Sou Ian Kit, responsável por uma empresa de gestão de táxis
CK Lee, presidente da Associação dos Motoristas de Táxi de Nova Operação de Macau, acompanha atentamente o processo e reconhece que a “tecnologia traz conveniência e melhora a eficiência das deslocações”. No entanto, “qualquer novo modelo de serviço deve cumprir rigorosamente as leis e regulamentos, definir claramente responsabilidades e dar prioridade à proteção dos direitos de motoristas e passageiros”, explica ao PLATAFORMA. Entre as maiores preocupações está a eventual entrada de “táxis ilegais” na plataforma, criando concorrência desleal, pelo que pede uma “verificação rigorosa das qualificações”. Os motoristas temem ainda “cancelamentos sem responsabilidade, faltas de comparência e disputas tarifárias”, podendo ser necessário adoptar “mecanismos de penalização semelhantes aos de regiões vizinhas”. Ainda assim, admite uma “visão globalmente positiva, prevendo maior conveniência para passageiros e possível aceleração do processo legislativo”.
Entre passageiros, as expectativas são mais contidas. Jimmy (nome fictício) recorda a chegada inicial da plataforma com entusiasmo, já que na altura, “os motoristas tinham atitudes pouco adequadas, era muito difícil encontrar táxi e havia muitas recusas.” Contudo, considera que o modelo atual não resolve o problema estrutural: “Agora apenas acrescenta mais uma aplicação para chamar carro, mas isso não significa conseguir uma viagem nem um preço razoável. O essencial é aumentar a oferta, não criar outra aplicação”, explica ao PLATAFORMA.
Melhor mobilidade

Em resposta ao PLATAFORMA, a Uber diz ter mudado a estratégia desde a saída da cidade. “Desde que deixámos Macau há quase 10 anos percebemos que, para a Uber ter sucesso e criar valor a longo prazo, precisamos de um modelo assente em parcerias locais”. O regresso tornou-se possível através da cooperação com a operadora transfronteiriça licenciada Kwoon Chung Bus Holdings e da integração de motoristas de táxi locais, “um modelo que representa uma mudança significativa face à abordagem anterior e que está alinhado com os requisitos regulamentares locais, apoiando simultaneamente a indústria de transporte existente”.
A empresa acrescenta que opera “serviços totalmente licenciados em Macau” e sublinha o compromisso de “manter comunicação próxima com as partes interessadas”. Considera ainda que o contexto mudou com a abertura da ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau e com a aposta no turismo, “criando maior procura por viagens transfronteiriças de qualidade”.
Quanto ao funcionamento, a plataforma garante que trabalha apenas com motoristas licenciados: “os parceiros têm de apresentar documentos pessoais válidos, incluindo licença de motorista de táxi de Macau”. Sobre a remuneração, afirma que “os motoristas recebem a totalidade da tarifa paga pelos passageiros e, neste momento, não cobramos taxa de serviço aos taxistas que utilizam a plataforma”.
A empresa sublinha também a política de preços: “os passageiros que reservarem um táxi através da aplicação pagam o valor indicado no taxímetro” e “não existe tarifação dinâmica”. Cada viagem é acompanhada por GPS e pode ser partilhada em tempo real com familiares ou amigos, havendo ainda avaliação mútua entre motorista e passageiro após cada trajeto.
A Uber afirma querer oferecer uma nova opção de mobilidade a residentes e visitantes. “Estamos entusiasmados por proporcionar uma forma conveniente de viajar entre Hong Kong e Macau e dentro da cidade. O nosso objetivo é um crescimento sustentável que apoie o turismo e crie oportunidades de rendimento para motoristas licenciados, melhorando a mobilidade diária dos residentes.” O maior desafio, acrescenta a empresa, será responder aos períodos de maior procura: “Macau regista grandes variações na procura durante feriados, eventos e épocas turísticas, e construir uma rede de motoristas capaz de acompanhar essa procura mantendo a qualidade do serviço é fundamental para o nosso sucesso”.

