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Médico local no topo da medicina mundial

Terence Sio, médico e professor de oncologia radioterápica na Mayo Clinic, nos Estados Unidos, tornou-se um dos mais jovens docentes a alcançar ‘tenure’ na história da instituição. O médico, nascido em Macau, pretende agora contribuir para o desenvolvimento de terapias inovadoras e reforçar o papel da cidade na medicina da região: “Podemos ligar a indústria da saúde ao turismo médico para servir toda a Grande Baía. Macau tem todas as condições para o fazer”

Inês Lei

Terence Sio, médico e professor altamente respeitado de oncologia radioterápica, tornou-se, aos 38 anos, num dos mais jovens professores a receber ‘tenure’ – um estatuto de nomeação permanente que assegura estabilidade e liberdade académica aos docentes de carreira – da história da Mayo Clinic – College of Medicine and Science, nos Estados Unidos. Com uma especialização em técnicas avançadas de terapia por protões, tem trazido esperança a inúmeros doentes oncológicos. No entanto, a luz orientadora que o conduziu ao topo da medicina está muito para lá do Pacífico; está nas suas “raízes”: Macau.

Aos 15 anos, Terence e a sua família emigraram para os Estados Unidos. Antes disso, todo o seu mundo era Macau. Cresceu numa família de classe média; o pai era gerente de uma fábrica de malhas e a mãe, dona de casa. Viviam juntos num apartamento na Rua do Padre António Roliz.

Os meus pais deixaram a terra natal por causa de nós, os filhos”, explica ao PLATAFORMA. A vida nos EUA foi dura no início: “Chegámos a viver quinze pessoas num apartamento de 90 metros quadrados, o que gerava muitas discussões”. Para o jovem de 15 anos, adaptar-se a uma nova realidade foi uma luta árdua. “O meu inglês era tão fraco que cheguei a chorar; sentia-me perdido e cínico”. Mas essa experiência despertou-lhe uma força interior: “Quero ter sucesso, quero ultrapassar este obstáculo!”. Com essa determinação, transformou o desespero em motivação e acabou por ser admitido numa das melhores universidades do mundo – o MIT.

Não salvo apenas uma vida; posso salvar a vida do cônjuge, dos filhos… dou-lhes mais tempo para viver e aproveitar a vida”

Terence Sio, médico e professor

Questionado sobre o motivo que o levou a seguir medicina, Terence recorda um momento decisivo durante o processo de imigração: “Lembro-me que, quando nos mudámos, encontrei os registos médicos do meu pai do Hospital Kiang Wu e descobri que ele sofria de hepatite B crónica”. Essa descoberta fê-lo perceber que poderia usar a sua mente analítica, voltada para a matemática e a ciência, para ajudar pessoas comuns a enfrentar a doença e a morte. “Percebi que podia usar a ciência para ajudar qualquer pessoa”, diz.

Depois de escolher Medicina, concentrou-se nos doentes oncológicos. Acredita que, desde o momento em que um paciente recebe o diagnóstico, já é um “sobrevivente do cancro. A minha missão é ter o conhecimento, as competências e o compromisso necessários para que os pacientes confiem em mim, para lhes poder dar a mão ao longo desta jornada”.

Não salvo apenas uma vida; posso salvar a vida do cônjuge, dos filhos… dou-lhes mais tempo para viver e aproveitar a vida”, explica.

Conjugar a saúde ao turismo

Quando lhe perguntam quão perto a humanidade está de vencer o cancro, a sua resposta é surpreendentemente otimista: “Na verdade, já o vencemos!” Graças ao avanço da terapia de precisão, mais de 70% dos doentes oncológicos podem hoje ser curados.

Atualmente, o Dr. Sio dedica-se ao tratamento de cancros gastrointestinais, pulmonares e cerebrais, incluindo o uso de radioterapia corporal estereotáxica (SBRT) e radiocirurgia estereotáxica (SRS) para tratar metástases cerebrais.

Enquanto especialista em terapia por protões, tem grandes esperanças de ver esta tecnologia introduzida em Macau. “O desenvolvimento da terapia por protões na Ásia é muito rápido – Taiwan, a China continental, o Japão, a Coreia do Sul e Singapura já a possuem”. E à medida que a tecnologia se torna mais comum, os custos diminuem: “No passado, construir um centro de protões custava cerca de 200 milhões de dólares (aproximadamente 160 milhões de patacas), mas agora, com equipamentos ‘mini-proton’ mais flexíveis, o investimento inicial pode rondar apenas 40 milhões de dólares (cerca de 30 milhões de patacas)”.

Perante dúvidas sobre se Macau teria mercado suficiente para essa tecnologia, dada a sua pequena população, responde com convicção: “Claro que há mercado, porque não estamos apenas a olhar para Macau. Com um equipamento de excelência, o público que serve vai muito além dos residentes locais”, explica ao PLATAFORMA. E acrescenta com uma visão mais ampla: “Podemos ligar a indústria da saúde ao turismo médico para servir toda a Grande Baía. Macau tem todas as condições para o fazer”.

Podemos ligar a indústria da saúde ao turismo médico para servir toda a Grande Baía. Macau tem todas as condições para o fazer

Se a população local e os turistas médicos somarem mais de um milhão de pessoas, é possível sustentar um centro de terapia por protões. Além disso, com o envelhecimento da população, haverá cada vez mais casos de cancro, o que exigirá mais oportunidades de tratamento”, conclui.

Formação de talentos locais

Um dos maiores orgulhos da carreira do Dr. Sio é ter liderado uma equipa na criação de um centro de investigação de protões em Hong Kong. “Foi um momento muito comovente; é, sem dúvida, o maior orgulho da minha vida – deixar uma marca na história da terapia por protões em Hong Kong”.

Além de introduzir tecnologia de ponta, o professor destaca a importância da formação de novos talentos, e apela à sociedade para refletir sobre como formar a próxima geração e levar o sistema de saúde de Macau “a um novo patamar”. Quanto à sua ambição de ver Macau tornar-se um centro médico de excelência, o Dr. Sio sublinha que as instituições de saúde devem ter capacidade para atrair os melhores profissionais, e que os líderes precisam de ter uma visão clara. Com base na sua experiência, enfatiza: “A gestão médica deve focar-se na qualidade. Cada etapa precisa de procedimentos operacionais padrão (SOP) e é essencial formar profissionais de saúde com espírito de serviço para Macau”.

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