A crescente presença militar e naval dos Estados Unidos junto à Venezuela, acompanhada de ataques a alegadas embarcações de narcotráfico, marca um novo capítulo na velha prática de intervenção no Hemisfério Ocidental. O que se apresenta como mera “guerra às drogas” tem, na verdade, contornos muito mais profundos e inquietantes. A deslocação de porta-aviões, o uso de drones e as operações que resultaram na destruição de embarcações venezuelanas não podem ser lidas como simples policiamento marítimo. São demonstrações claras de força dirigidas a um país soberano e, por extensão, a uma região que tem vindo a afirmar-se como parte essencial de um Sul Global que já não aceita viver sob tutela.
A recente decisão de Trump autorizar operações encobertas da CIA dentro da Venezuela reforça essa lógica de escalada e projeção de poder. Quando operações clandestinas se somam a ataques navais e a uma presença militar inédita desde o fim da Guerra Fria, torna-se evidente que Washington olha para a Venezuela não como um parceiro difícil, mas como um peão numa batalha geopolítica maior. A retórica oficial insiste no combate ao narcotráfico, mas os alvos, a intensidade e o timing das operações mostram que o objetivo é outro: reafirmar hegemonia num momento em que essa está a ser contestada.
A militarização do Caribe, a escalada de ataques a embarcações e a ativação da máquina secreta da CIA apontam para uma tentativa de reverter a crescente autonomia do Sul Global
É precisamente aqui que surge o Sul Global como campo de disputa. A América Latina tem procurado diversificar parcerias, ganhar autonomia política e económica, e reduzir a dependência histórica dos EUA. Ao mesmo tempo, a China consolidou-se como principal parceiro comercial de grande parte da região, investindo em infraestruturas, tecnologia e energia. No caso da Venezuela, mantém uma relação estratégica que inclui financiamento, cooperação petrolífera e apoio diplomático. Para Washington, essa presença chinesa é mais do que um incómodo: é uma ameaça direta à sua influência. O que se passa agora no Caribe é um recado – não apenas para Caracas, mas para todos os países latino-americanos que ousam trilhar caminhos próprios ou aproximar-se de Pequim.
É superficial interpretar estas manobras apenas como uma resposta ao narcotráfico. A militarização do Caribe, a escalada de ataques a embarcações e a ativação da máquina secreta da CIA apontam para uma tentativa de reverter a crescente autonomia do Sul Global – travar a expansão de atores que desafiam a ordem unipolar que os EUA construíram e defendem. Trata-se, em última instância, de conter a China, limitar a soberania de governos considerados indesejáveis e reafirmar a ideia de que o Hemisfério Ocidental continua a ser um espaço onde Washington dita os limites do possível.
Mas esse mundo está a desaparecer. A América Latina mudou – o Sul Global também. A intervenção militar, disfarçada de operação antidrogas, já não encontra o mesmo silêncio cúmplice de outrora; encontra contestação, resistência e alternativas. É justamente essa transformação histórica que torna ainda mais perigosa a atual escalada norte-americana. Quando uma potência se sente desafiada no seu domínio, arrisca-se a agir com excesso e sem cálculo. O que está em causa na costa venezuelana não é apenas um barco abatido ou uma rota de narcotráfico interrompida. É a disputa pelo futuro da ordem mundial; o direito do Sul Global existir fora da sombra de um império.
*Editor-chefe do PLATAFORMA