Ainda novo, ouvia pela rádio os relatos do Grande Prémio – estava este nas suas primeiras edições. Mais tarde, com a família e amigos, subia para um terraço junto do Reservatório de Macau, onde conseguia ver um trecho do Circuito da Guia. “Isto não é para nós, só para pessoas com dinheiro”, dizia-lhe o pai. “Desde miúdo que gostava de ver as corridas. Por dentro, havia sempre algo a dizer-me que tinha de ir lá.” E em 1988 foi, pela primeira vez, conquistando o segundo lugar na corrida de iniciados.
“Já vivia sozinho”, mas foi “contra a vontade dos pais”, confessa o piloto de 63 anos, que vai agora para a sua 34.ª participação, tendo só falhado três edições do Grande Prémio de Macau desde a sua estreia. Estes números fazem de Rui Valente o piloto no ativo com mais participações no Grande Prémio de Macau.

Rui Valente aproxima-se de uma curva num Subaru BRZ, durante o Macau Roadsport Challenge do 71.º Grande Prémio de Macau. Instituto do Desporto de Macau
A resistência do pai depressa deu lugar ao orgulho. “No início, não me ia apoiar. Simplesmente não gostava que eu corresse”, lembra. Mas com o tempo e a persistência de figurar todos os anos na lista de participantes, lá cedeu. “Houve um ano em que um dos meus assistentes disse-me que tinha visto o meu pai. Achei estranho… o meu pai? E realmente estava lá; não nas boxes, mas do lado de fora, atrás das grades, a olhar para dentro. Foi a primeira vez que foi lá ver e isso marcou-me. A partir daí, vi-o lá todos os anos. Deixou de ser uma pessoa que não gostava que eu corresse e passou a ser o meu fã número um”, ri-se.
Essa ligação familiar ao Grande Prémio de Macau tenta agora incutir na sua filha, e também no seu sobrinho, que têm integrado as suas equipas, sobretudo para “fazer companhia”.
Rui Valente ponderou reformar-se do Circuito da Guia, em 2023, depois de um toque com outro carro forçá-lo a retirar-se prematuramente da corrida. “Levo o Grande Prémio muito a sério. Bateram-me num acidente estúpido e fiquei desmotivado e triste.” Porém, quando chega a altura de concorrer à grelha… “lá vamos nós outra vez”.

O facto de haver diferenças mínimas entre os carros no Macau Roadsport Challenge promove o tipo de acidentes que o retiraram da corrida em 2023. Como os carros são quase iguais, o piloto é o elemento diferenciador. “Quando acaba o Grande Prémio de Macau começo logo a preparar-me para a edição que vem. Treinos, testes… quase tudo gira à volta do Grande Prémio. Temos de estar física e mentalmente preparados. Tudo conta, e por isso mantenho uma vida muito ativa; levanto-me às 6 da manhã para fazer o meu treino”.
Rui Valente desvaloriza a experiência que acumulou no Circuito da Guia. “Hoje em dia há simuladores. Se todos os dias fizeres uma hora e memorizares a pista, chegas aqui e não tens problema nenhum”. Contudo, tem um hábito de décadas do qual não abdica. “Nas vésperas da corrida faço uma volta pelo circuito a pé, para ver como estão as curvas e se há ressaltos”, diz, aconselhando todos os pilotos a fazer o mesmo.
Este ano, a grelha do Macau Roadsport Challenge conta apenas com dois modelos: Toyota GR86 e Subaru BRZ. Rui Valente vai competir ao volante de um Subaru BRZ. Tendo como principal objetivo terminar a corrida, o pódio está sempre no seu horizonte.
O PLATAFORMA preparou uma reportagem especial sobre o 72.º Grande Prémio de Macau. Clique aqui para aceder às notícias.
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