Início » Ouro ganha novo fôlego

Ouro ganha novo fôlego

Com os preços do ouro em máximos históricos, Macau prepara nova legislação para modernizar o setor e reforçar a confiança dos consumidores. “Foi durante a governação de Trump que o ouro voltou a afirmar-se como refúgio financeiro”, lembra Lei Cheok Kuan, vice-presidente da Associação das Ourivesarias de Macau, sublinhando o papel do metal como símbolo de segurança em tempos de incerteza

Nelson Moura

Os preços do ouro dispararam para máximos históricos em outubro, impulsionados por uma confluência de tensões geopolíticas, incerteza económica e expectativas de mais descidas nas taxas de juro por parte da Reserva Federal dos EUA.

As transações de “ouro à vista” – compra e venda de ouro para entrega imediata, e não a prazo ou por contrato futuro – atingiram um pico de preços sem precedentes de 4.379 dólares americanos (cerca de 35.848 patacas) por onça, marcando um aumento de mais de 60% desde o início do ano.

Para Lei Cheok Kuan, vice-presidente da Associação das Ourivesarias de Macau, a tendência de comprar ouro durante períodos de subida de preços começou a acentuar-se a partir da administração Trump nos Estados Unidos. “Foi durante a governação de Trump que o ouro voltou a afirmar-se como refúgio financeiro. Ele criou instabilidade global e as pessoas deixaram de saber onde investir com segurança”, observa.

Com a confiança no dólar e no euro abalada, o ouro recuperou o seu papel de ativo internacional de confiança. “Ao contrário do dólar, o ouro não pertence a nenhum país nem está sob o controlo de um governo. Tem circulação e reconhecimento global. É visto como um ativo que preserva valor e representa segurança e até dignidade financeira”, disse Lei.

Foi durante a governação de Trump que o ouro voltou a afirmar-se como refúgio financeiro. Ele criou instabilidade global e as pessoas deixaram de saber onde investir com segurança

Lei Cheok Kuan, vice-presidente da Associação das Ourivesarias de Macau

Ivan U Hou Leong, fundador da empresa fornecedora de ouro Asia Pacific Island Resources, acrescenta que, no futuro, Macau poderá explorar novas vias de integração entre o comércio de ouro e os serviços financeiros. “Acredito que Macau continuará a centrar-se no seu setor de lazer, mas o ouro poderá desenvolver-se se for integrado com as finanças modernas”, afirma ao PLATAFORMA. “Dependerá de profissionais do setor que saibam tirar partido das vantagens do porto franco de Macau e da sua rede com os países lusófonos”, diz.

O Conselho Executivo apresentou recentemente uma proposta de lei para a comercialização do ouro e da platina indicando que a legislação atual “implementada há mais de 20 anos, já não consegue satisfazer as expectativas dos consumidores em relação aos tipos e à qualidade dos artigos de ourivesaria”. A proposta tem como objetivo reforçar a competitividade e a credibilidade do sector e introduz novas definições de platina, ouro chapeado e artigos revestidos a ouro.

Para Leong este regulamento será “suficiente para Macau” no que toca ao retalho, mas aponta que se o Governo quiser introduzir um mercado de ‘commodities’, o regime existente em Hong Kong poderá ser usado como referência.

Em Macau, o mercado do ouro atravessa uma transformação significativa. Se no passado a subida dos preços levava os consumidores a vender, hoje o cenário é o oposto: mais pessoas estão a comprar, atraídas pela valorização contínua e pela perceção do ouro como investimento seguro.

Como o preço tem aumentado de forma contínua, muitos preferem acompanhar essa tendência e comprar, em vez de vender”, afirma Lei ao PLATAFORMA.

Lei explica que, embora o valor das compras tenha aumentado, o peso adquirido diminuiu devido à forte valorização do metal. “O montante gasto é maior porque o preço subiu bastante, mas a quantidade em gramas comprada é menor. Tudo se resume a uma questão de orçamento”, observa. Atualmente, um tael — equivalente a 37,5 gramas — custa cerca de 1.293,87 patacas por grama, um valor que ultrapassa o orçamento de muitos compradores.

Pressão sobre o setor

No entanto, a escalada dos preços também está a gerar desafios nas várias camadas da cadeia de comércio do ouro. Leong alerta que “o preço mais alto está a apertar as margens de cada nível de transação, tornando-as mais tensas e irregulares”.

É uma faca de dois gumes: as pessoas continuam a entrar no mercado, mas, ao mesmo tempo, a competição em todos os níveis aumenta, e há mais atenção pública sobre o setor,” acrescenta Leong.

Ao mesmo tempo estas “subidas e descidas tão dramáticas” tornam a indústria mais imprevisível, avisa o empresário: “algumas pessoas vão à falência, e outras fazem milhões”.

Acredito que Macau continuará a centrar-se no seu setor de lazer, mas o ouro poderá desenvolver-se se for integrado com as finanças modernas

Ivan U Hou Leong, fundador da Asia Pacific Island Resources

Ou seja, apesar do aumento da procura, os ourives enfrentam uma pressão maior para gerir o seu negócio. “A pressão aumentou e quando precisamos de repor ‘stock’, o fluxo de caixa necessário é muito elevado”, diz Lei. “Por exemplo, desde que fundei a empresa, mantenho um stock fixo de mil taéis. Todos os meses tenho de garantir esse nível — se subir ou descer demasiado, o balanço de ativos e passivos sofre fortes oscilações”.

Refúgio seguro

A valorização do ouro também atrai novos perfis de consumidores. “Quem comprou há alguns meses pode agora vender praticamente pelo dobro. Por isso, muitos veem o ouro como uma escolha inteligente — tem estilo, valoriza e pode ser usado no dia a dia”, acrescenta o dirigente associativo.

Hoje, os clientes preferem peças modernas e com design, em vez do estilo tradicional. Querem algo ligado à moda, que combine com a forma de vestir”.

No entanto, mesmo em tempos de preços elevados, o hábito de comprar pequenas quantidades mantém-se. “Há quem compre apenas 1, 2 ou 5 gramas, valores pequenos, mas que fazem parte da tradição”, refere Lei. “Muitas avós e mães compram ouro para os filhos, para guardar ou usar no futuro, por exemplo, no casamento”.

Num casamento chinês tradicional, se a noiva não usar ouro, as pessoas sentem que falta alguma coisa. É como se o casamento não estivesse completo”, conclui.

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!