
Dirigentes da Associação das 6 Ruas “Chou Toi”. Lo Teng Kam, presidente (à direita), e Chris Chan, diretor (à esquerda) Plataforma
Outrora um centro movimentado de artesãos e comerciantes, a Rua das Estalagens acolhe agora uma nova vaga de empreendedores que misturam tradição com novas ideias. A Sands China lançou uma publicação bilingue In Search of Its Roots – An Illustrated History of Rua das Estalagens, revelando as histórias desta rua e convidando os residentes e visitantes de Macau a redescobrir as suas lojas centenárias e atmosfera cultural. Todos os meses, o Plataforma e a Sands China destacam a comunidade, os negócios e os esforços de revitalização que propõem dar nova vida a uma das ruas mais antigas de Macau. Através de histórias cativantes, exploramos a sua transformação, honrando o seu passado enquanto moldamos o seu futuro. Cada reportagem será publicada em chinês, inglês e português na última sexta-feira de cada mês em formato impresso e digital.

Saiba mais sobre In Search of Its Roots – An Illustrated History of Rua das Estalagens
- Produtor: Sands China Ltd.
- Editora: Associação dos Artistas de Macau
- Autor: Siguo Chen
- Ilustradora: Shirley Lu
Uma comunidade no vazio

Vários estabelecimentos comerciais abriram recentemente ao longo da Rua das Estalagens, trazendo uma nova vitalidade ao bairro. Sands China
Mesmo no coração da cidade, a Rua das Estalagens guarda algumas das memórias mais preciosas da infância de várias gerações. Para Chris Chan, diretor da “Chou Toi”, só nesta rua se podia comprar ténis de marca, como a Nike e a Adidas; para Lo Teng Kam, presidente da “Chou Toi”, a rua ganhava outra energia nas vésperas festivas, completamente a abarrotar de pessoas.
Ambos recordam com carinho a “época de ouro” da rua, com arcos decorativos a embelezá-la durante as maiores festividades chinesas, nomeadamente o Ano Novo Chinês.
A Associação de Beneficência e Assistência Mútua dos Moradores das 6 Ruas “Chou Toi” nasceu como muitas outras associações durante a Administração Portuguesa. Depois da retirada dos oficiais chineses, em 1849, tornou-se clara a dificuldade dos portugueses em governar sobre uma população cuja cultura e língua não compreendiam.
A população chinesa viu-se forçada a criar os seus próprios organismos sociais para mediar litígios e prestar apoio à comunidade, tais como comissões de gestão de templos, associações comerciais, sindicatos de trabalhadores e, claro, associações de moradores.
Foi com o apoio de outra associação que conseguiram o edifício n.º 69 da Rua das Estalagens; na altura por empréstimo do proprietário. Mais tarde, o impacto da “Chou Toi” impressionou tanto, que este resolveu doar-lhes a propriedade em definitivo.
A Associação das 6 Ruas “Chou Toi” foi estabelecida em setembro de 1967, para fomentar o sentido de unidade local e apoiar as comunidades de seis bairros diferentes: Rua das Estalagens, Rua dos Ervanários, Rua de Nossa Senhora do Amparo, Rua de São Paulo, Pátio do Espinho e Rua dos Mercadores.

O edifício n.º 69 da Rua das Estalagens é a sede da Chou Toi desde 1976. A dificuldade dos portugueses em governar uma comunidade cuja língua e cultura não compreendiam levou à criação de vários organismos sociais para mediar litígios e prestar apoio à comunidade, nomeadamente a Associação de Beneficência e Assistência Mútua dos Moradores das 6 Ruas “Chou Toi”. Plataforma
Foi com o apoio de outra associação que conseguiram o edifício n.º 69 da Rua das Estalagens; na altura por empréstimo do proprietário. Mais tarde, o impacto da “Chou Toi” impressionou tanto, que este resolveu doar-lhes a propriedade em definitivo.
Em 1976, os dirigentes e membros da associação juntaram dinheiro e reconstruiram o edifício para expandir os seus serviços. Criaram uma clínica de saúde a preços acessíveis que oferecia medicina ocidental, tradicional chinesa e dentária.
Em 1982, lançaram aulas de português, algo que só cessaram em 1999. Estima-se que a escola tenha produzido mais de mil profissionais bilingues, fluentes em chinês e português, muitos deles hoje no Governo – um motivo de orgulho para a “Chou Toi”.
Leia também: Rua das Estalagens: Uma Rua de Património e Mudança
Chan admite que a sua entrada na “Chou Toi” foi acidental. Há 20 anos atrás, a Direcção dos Serviços de Turismo incentivou as associações locais a dinamizarem os bairros de Macau com mais atividades e Chan, que conhecia membros da direção da “Chou Toi”, ajudou a organizar um concurso de fotografia. “Correu bem e foi a minha entrada acidental na Associação.” Depois disso, seguiram-se vários eventos, muitos deles com benefícios diretos para os negócios da Rua das Estalagens.

Além de oferecer cuidados de saúde, a Associação de Beneficência e Assistência Mútua dos Moradores das 6 Ruas “Chou Toi” também ajudava os mais pobres. Ilustração no livro In Search of Its Roots – An Illustrated History of Rua das Estalagens
Lo Teng Kam chegou à “Chou Toi” por influência dos pais, ambos antigos membros. “Eles sempre acreditaram na prestação de apoio à comunidade”, lembra. Vivendo na Rua das Estalagens, não tardou a que os residentes lhe pedissem para seguir os passos dos pais, apesar de confessar que, no início, nunca pensara que a sua participação fosse além da presença em reuniões e conversas com os residentes. Hoje, passados anos à frente da associação, sente-se realizado com o trabalho feito em prol da comunidade. “Foi o que me levou a aderir”, remata.
À medida que as necessidades foram crescendo, a associação aumentou o leque de serviços. Atualmente, para além de esforços contínuos na redução da pobreza, assistência em catástrofes, atividades culturais e recreativas, serve de ponte entre a comunidade e o Governo, garantindo que as preocupações e sugestões dos residentes são ouvidas.
“Muitos perguntam-nos se os membros recebem salário. Digo-lhes que não; é puramente voluntariado (…). Quando ajudamos as pessoas e recebemos feedback positivo, isso deixa-nos felizes”, explica Chan.
Agora, com o programa de revitalização na Rua das Estalagens, encabeçado pela Sands China Ltd., a associação começou a organizar entrevistas e filmagens para promover a rua, ao mesmo tempo que participam nos esforços de embelezamento da mesma, para aumentar a sua atratividade.
O “inquilino problemático”

Numa das paredes do edifício n.º 69, onde fica a sede da Associação, encontra-se uma placa de pedra com mais de 150 anos. Esta relíquia conta a história de um “inquilino problemático”: o sapateiro não só não pagava regularmente a renda, como também se tornou desordeiro, tentando apoderar-se da loja à força. Após uma batalha legal que durou uma década, a comunidade conseguiu finalmente despejá-lo e recuperar os seus direitos de propriedade. A história foi registada em chinês e português numa placa de pedra – tradicionalmente utilizadas para registar questões comunitárias ou políticas governamentais importantes. Ilustração no livro In Search of Its Roots – An Illustrated History of Rua das Estalagens

A placa de pedra pode ser vista debaixo da placa toponímica da Travessa das Janelas Verdes. Chan Hin Io
Teste do tempo

Um retrato da convivência entre raízes culturais e novos começos. Chan Hin Io
A Rua das Estalagens sobreviveu sempre ao teste do tempo. Já foi a rua do ouro, do vestuário; até de eletrodomésticos, nos anos 80, quando visitantes do Continente vinham especificamente a Macau para os comprar.
Hoje, apesar da dificuldade imposta pelo comércio eletrónico ao modelo de negócio que sempre imperou nesta rua, Lo Teng Kam acredita que o seu charme histórico pode colocá-la novamente num período áureo – como centro turístico. “Quando viajamos, queremos sempre saber a história desse sítio”, refere, mencionando grupos turísticos do Continente que começam a ganhar interesse pelos bairros históricos de Macau.
Não se trata de parar no tempo, como fazem questão de referir ao nosso jornal, mas sim reconhecer que, entre as dificuldades sem solução, há também oportunidades: conceber um produto turístico onde a noção de tempo tem outra conotação. “Muitos dos lojistas na Rua das Estalagens são idosos. Já temos jovens empreendedores na rua, mas temos também de considerar os mais velhos, com negócios consolidados”, afirma Chan.
Ambos os membros têm acompanhado o tecido empresarial que resiste à erosão económica que assola Macau. Muitos têm mesmo séculos de História, com várias gerações a procurar manter tradições perdidas numa cidade em permanente mutação. Fora os esforços em colaboração com a Sands China Ltd., há uma preocupação genuína com o bem-estar dos negócios. “Se uma loja tiver um problema, estamos sempre dispostos a ajudar. Entre as empresas, há um forte sentido de camaradagem. Se uma joalharia de repente não abre, vamos ver se está tudo bem. Se houver um corte súbito de eletricidade numa determinada zona, telefonamos às lojas para saber o que se passa. Desempenhamos um papel de apoio”.

Lo Teng Kam acredita que o seu charme histórico pode colocá-la novamente num período áureo – como centro turístico.
O programa de revitalização da Sands China Ltd. trouxe um novo ânimo à Rua das Estalagens. “Estamos muito felizes e os residentes estão expectantes relativamente ao futuro. A Sands China já fez muito”, diz Kam, não deixando de sublinhar que os problemas das ruas históricas, acumulados ao longo do tempo, tornam a transição mais lenta do que desejada. Em todo o caso, a visibilidade e promoção feita na rua tem ajudado as lojas tradicionais. “Sem esse apoio, vão gradualmente desaparecer”, vaticina.
O responsável espera também que os novos negócios – selecionados através do Programa de Recrutamento da Sands China – tragam ofertas promocionais capazes de aumentar o fluxo turístico na rua. “Além do valor histórico, precisamos de lojas únicas”, explica. Chris Chan espera que os novos negócios “consigam manter-se e criar produtos capazes de atrair visitantes à Rua das Estalagens. “Esta rua é rica em história e tem um enorme potencial, mas precisa do esforço de todos”, remata.
Na edição de 30 de maio, leia sobre as histórias de várias lojas tradicionais sediadas na Rua das Estalagens. Leia também a nossa reportagem anterior que aborda a história da Rua das Estalagens.


