Ao visitar Xiongan vimos um contrato com o futuro; em Xian com o passado. As duas cidades, separadas por mais de 400 quilómetros, ligam-se no compromisso que têm com um desenvolvimento sustentável e inegociável preservação da cultura chinesa.
Cidade para o milénio

A Nova Área de Xiongan foi fundada em 2017. Intitulada como cidade para “o próximo milénio”, é um projeto com o dedo do próprio Presidente chinês, Xi Jinping, que quer que a mesma sirva de exemplo para um desenvolvimento urbano alicerçado na sustentabilidade.
Localizada na província de Hebei, absorve os condados de Xiong, Rongcheng e Anxin, com uma área total acima dos 100 quilómetros quadrados. É considerada fundamental para o desenvolvimento coordenado de Pequim, Tianjin e Hebei, e tem como responsabilidade acolher o tecido empresarial e funções não essenciais sem espaço na capital da China. Resumindo numa frase, Xiongan é a solução encontrada para resolver os problemas da megacidade que Pequim se tornou.
Em cerca de sete anos, já muitas das infraestruturas saíram do papel: mais de 3.000 edifícios se ergueram, substituindo “planícies estéreis e aldeias degradadas”, descreve assim a agência noticiosa estatal, Xinhua. Empresas estatais seguiram o mote, estabelecendo mais de 200 filiais e várias sucursais na região.
Pelos vários locais que visitámos, percebe-se que falta muito para a cidade ser um pólo atrativo de pessoas e talentos. Projeta-se o fim da construção vital para 2035, sendo que em 2050 se espera efetivamente que cumpra com o seu desígnio, tal como disse à delegação Wang Jinping, vice-diretor geral do gabinete de planeamento e construção de Xiongan.
Leia também: Diário de um jornalista em Jiangsu
Quando visitámos a cidade, cerca de 160.000 pessoas trabalhavam na sua construção. Porém, em períodos de pico, chegam a ser 270.000, segundo Wang Jinping. Atualmente, Xiongan alberga 1.3 milhões de pessoas, tendo como objetivo chegar aos cinco milhões de habitantes.
Wang Jinping disse que a nova área adere aos princípios de integração de elementos ocidentais e orientais, priorizando a cultura chinesa. Desta última herda o planeamento urbano retangular e a assimetria do eixo central; ao mesmo tempo, incorpora conceitos arquitetónicos e técnicas de classe mundial, de inspiração ocidental.
De salientar que o desenvolvimento desta “cidade do futuro” equilibra as necessidades económicas e de serviços à população, com o desenvolvimento de áreas verdes (ver imagem). Foi dada prioridade à florestação, tendo hoje mais de 48.000 hectares de áreas verdes. Estabeleceu-se também um padrão para as zonas urbanas, que não podem estar a mais de três quilómetros de uma zona florestada, e a mais de 300 metros de um parque.
Antes de se lançar a primeira pedra, impôs-se a condição de reclamar apenas 30 por cento do espaço para desenvolvimento urbano, ficando os restantes 70 por cento como zonas verdes.
Vários rios desaguam no lago de Baiyangdian, em Xiongan, o qual a delegação visitou e pôde testemunhar o excelente trabalho de conservação ecológica. Anteriormente, a pesca e agricultura excessiva, bem como a elevada produção industrial, colocaram em causa o seu ecossistema. Entretanto, a qualidade da água tem vindo a melhorar, de modo a cumprir as normas da classe III, e assistiu-se ao ressurgimento da vida selvagem, com o regresso de 260 espécies de aves e 46 espécies de peixes, incluindo espécies criticamente ameaçadas, como o pato de Baer.
Esta abundância de recursos hídricos, contudo, também significa maior suscetibilidade a cheias, cada vez mais frequentes na região, de acordo com vários estudos.
Cidade milenar

Xian, ao contrário de Xiongan, tem milhares de anos de História, tendo servido de capital imperial para várias dinastias. Essa herança ainda é visível no centro da cidade, casando o modernismo do centro urbano com uma das muralhas mais bem conservadas na China, construída no século XIV.
A capital da província de Shaanxi também serviu como terminal oriental da Rota da Seda. Hoje recuperou esse estatuto, partindo daqui linhas ferroviárias que atravessam o continente asiático e europeu.
Segundo as informações providenciadas à delegação, saem e entram cerca de 5.000 comboios por ano. Além da sua importância na nova Rota da Seda, Xian conseguiu afirmar-se no panorama da educação e indústria. Em 2023, figurava entre as 20 cidades que mais artigos científicos publicava no mundo, segundo o Nature Index.
A cidade também desenvolveu a sua indústria turística e cultural, sendo um dos destinos mais procurados a nível doméstico. Além dos parques naturais e do centro urbano vibrante, aqui jaz o famoso Exército de Terracota, ou Exército do Imperador Qin, tantas vezes retratado e mistificado em filmes.

Este exército de argila só foi encontrado em 1974, quando numa escavação de um poço, um grupo de agricultores deparou-se acidentalmente com o monumental conjunto de estátuas em tamanho real.
Desde então, as figuras das quais não havia qualquer registo, têm servido para melhor compreender o quotidiano sob o governo do primeiro imperador do país, Qin Shi Huang, que unificou a China no ano de 221 A.C.
Nos últimos 50 anos, arqueólogos localizaram cerca de 600 fossos em 22 quilómetros quadrados. Nenhum dos soldados é igual, destacando-se individualmente quer pela face, quer pelo vestuário. O local é considerado uma das principais atrações turísticas da China, juntamente com a Grande Muralha da China e a Cidade Proibida de Pequim.
Estima-se que haja ainda cerca de 6 mil soldados por desenterrar – incluindo o túmulo do imperador. Mas o reino subterrâneo de Qin Shi Huang desenterra todo um sistema político, tendo sido descobertos funcionários da corte, músicos, acrobatas e aves exóticas.