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“Este é um sinal muito importante de que existe uma comunidade em Macau”

Inês Lei

Não se esperava que tantas pessoas aderissem ao primeiro festival internacional de cinema LGBTQ+. Ao PLATAFORMA, membros da comunidade e do público dizem que este foi o primeiro passo para dar maior visibilidade à causa e chamar a atenção do Governo

Pela primeira vez um festival internacional de cinema com um foco exclusivo no cinema LGBTQ+ teve lugar em Macau.

Em declarações ao PLATAFORMA, o diretor do Festival Internacional de Cinema Queer de Macau (MIQFF, na sigla em inglês), indica que o cinema é um meio acessível e com uma capacidade muito própria de partilhar histórias diferentes. Embora haja muito para considerar na organização de um festival de cinema, Jay persistiu com este projeto, sublinhando que se há algo que espera que o público leve deste festival, é que ser gay é um direito.

Pretende também que o festival gere mais discussão pública e ajude a eliminar estereótipos presentes na sociedade de Macau há vários anos. “Através destes filmes, esperamos que o público saiba que isso é algo que não deve ser escondido, mas que pode ser falado, discutido e respeitado. Esperamos usar o festival para mostrar às pessoas que há muitas histórias sobre esta comunidade”.

UM SELEÇÃO CUIDADOSA

Com 17 filmes e documentários entre 3 a 12 de fevereiro, o diretor explica ao PLATAFORMA que a audiência do festival não se limitou apenas à comunidade LGBTQ+, e que a seleção de filmes era adequada para qualquer pessoa. O objetivo foi tornar as pessoas mais abertas à comunidade homossexual. O responsável salienta que mesmo que um filme não seja “bem feito”, se conseguir oferecer uma perspetiva que leve a pensar sobre a comunidade já atingiu o objetivo. Lawrence, um crítico de cinema, sentiu que o festival ofereceu um bom equilíbrio no cartaz, destacando que o filme de abertura quebrou aquele que é o molde típico de um filme gay.

“A seleção inclui filmes clássicos e recentes, para que se possa ver o passado e acompanhar as últimas produções. Quanto aos filmes que vi, basicamente todos mostram como os homossexuais encaram a família, os indivíduos e as comunidades”, descreve.

A programação do festival incluiu também uma ampla variedade de idiomas, desde o inglês e o mandarim, até outros idiomas, como o português e o urdu. “Ao ver o sucesso mundial de Joyland (com diálogos em urdu), senti que devíamos fazer um esforço para manter o cantonês, porque uma língua é uma cultura, e é apenas preservando a sua verdadeira forma de expressão que uma história pode ser bem contada.”

AMPLIAR O ESPECTRO LGBTQ+

Lawrence diz que nem toda a comunidade sabe o significado do termo “Queer”. “Muitos perguntam-me como se pronuncia ou o que significa”, comenta. Anthony Lam, membro fundador e vice-presidente da associação Arco-Íris de Macau, diz ao PLATAFORMA que LGBTQ+ é um espetro de género mais amplo, que pode ser representado pelo termo ‘Queer’ se for difícil de definir. De uma forma mais simples, o “Q” pode também significar o “Questionar” por pessoas que estão confusas sobre sua identidade de género. No entanto, há uma diversidade real de identidades, com pesquisas a sugerir que existem mais de 50. Atualmente, o termo mais comum é “LGBTQ+”, com o ‘+’ usado para denotar o número infinito de possibilidades. DE PEQUENAS REUNIÕES

A UMA PLATAFORMA DE NICHO

Embora ainda sem números oficiais sobre a bilheteira gerada pelo festival, Jay acredita que a resposta ao MIQFF foi melhor do que a esperada. O responsável assumiu que durante o festival os bilhetes estavam a vender bem e sentiu que “a geração mais jovem está a ganhar interesse”.

Anthony Lam verificou no site do Emperor Cinemas, onde o festival foi realizado, que a venda de bilhetes do festival foi bastante positiva, com alguns filmes a vender mais de 60 a 70 dos lugares, o que prova o interesse do público. Lawrence aponta que os festivais de cinema semelhantes a que foi, em Taiwan, a adesão variava consoante a fama do filme. No entanto, na primeira vez que o festival foi realizado em Macau, a afluência foi maior do que esperava, com cerca de 80 ou 90 por cento dos dos lugares em filmes a que assistiu a estarem ocupados.

“Num cinema comercial a exposição é muito maior e é possível atrair pessoas de fora da comunidade LGBTQ+ para o evento”, Anthony Lam, membro fundador e vice-presidente da associação Arco-Íris de Macau.

“Além de criar mais locais adicionais para reunir a comunidade, outro aspeto importante do festival é incluir a comunidade LGBTQ+ nos cinemas convencionais”, acrescenta Lam. O ativista indica haverem poucos eventos culturais ‘Queer’ em Macau, muito menos na escala deste festival.

“Não teve lugar num cinema mais alternativo, como o CUT ou o AFA, mas sim num cinema comercial, onde a exposição é muito maior e que realmente atrai pessoas de fora da comunidade LGBTQ+, mesmo que muitos já se conheçam fora do festival”.

Lawrence destaca que é a primeira vez desde que se lembra de haver um cinema comercial local a apoiar um festival deste género e uma equipa organizadora entusiasmada a operar por conta própria. “Se calhar não é inédito, mas provavelmente não existiam os recursos e a visibilidade que temos agora”, aponta.

O crítico de cinema diz nunca ter pensado que o festival acabaria por ser realizado, descrevendo-o como um evento “inovador” e um “passo muito importante” para apresentar um pouco da cultura minoritária no grande ecrã, ajudando a ganhar alguma visibilidade e discussão em Macau, além de acrescentar alguma “cor à vida cultural” Jay descreve o festival como uma “base” para futuros eventos e um evento para partilhar e apreciar em comunidade.

DAS QUESTÕES MARGINAIS AO LANÇAMENTO COMERCIAL

O processo de preparação do festival não foi fácil para a equipa organizadora, com alguns cinemas locais a rejeitar acolher o festival por diferentes razões, desde comissões a outros fatores. “No final, conseguimos o apoio do Emperor Cinemas e estamos muito gratos por isso.” Anthony Lam acredita que encontrar um cinema comercial em Macau para organizar este evento ajuda a promoção de temas associados à comunidade. “Este é um sinal muito importante de que existe uma comunidade em Macau e que está disposta a vir e apoiar estas atividades”.

A associação Arco-Íris de Macau tem vindo a promover os direitos LGBTQ+ a nível político há já vários anos. Um inquérito realizado pela associação em 2019 apresenta uma estimativa de que cerca de 10 a 15 por cento dos residentes de Macau se identifiquem como membros da comunidade LGBTQ+, ou seja, dezenas de milhares de pessoas com base na atual população da cidade (aproximadamente 680 mil pessoas).

“Através destes filmes, esperamos que o público saiba que isto é algo que não deve ser escondido, mas pode ser falado, discutido e respeitado. Esperamos usar o festival de cinema para mostrar às pessoas que há muitas histórias sobre esta comunidade”, Jay Sun, diretor de programa do Festival Internacional de Cinema Queer de Macau.

Embora seja um número significativo, Lam aponta que o ambiente cultural local torna difícil a que estas pessoas se expressem, dificultando assim a promoção do problema a nível político. Embora o impulso político possa não ser satisfatório, na área comercial há avanços. Lam acredita que outros defensores da comunidade possam não concordar em promover a comunidade de uma forma comercial, mas defende que, sendo Macau uma sociedade comercial, desta forma será mais fácil para o Governo prestar atenção e avançar com mais ações políticas que beneficiem a comunidade.

TRABALHAR NO PRESENTE, PENSAR NO FUTURO

“O Festival Internacional de Cinema Queer de Macau é financiado pela comunidade. O festival de cinema em si não é um negócio lucrativo e é difícil equilibrar as contas, por isso agradecemos aos muitos voluntários dispostos a ajudar” afirma o diretor. O organizador revela que a certa altura a organização considerou solicitar financiamento público, mas que decidiram esperar para ver se a primeira edição se poderia realizar sem financiamento.

“A longo prazo, claro, esperamos que o festival seja sustentável, mas ainda não sabemos. Esperamos trazer o que pudermos para o público primeiro. Se continuar, vamos considerar financiamento”.

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