OMS pede à China maior transparência para enfrentar futuras pandemias

por Gonçalo Lopes

A Organização Mundial da Saúde (OMS) manifestou-se hoje “seriamente preocupada” com a vaga de novos casos de covid-19 na China, inédita pela amplitude, e pediu a Pequim maior transparência para poder enfrentar futuras pandemias.

“A OMS está seriamente preocupada com a evolução da situação na China (…). Com o objetivo de proceder a uma avaliação completa dos riscos, a OMS necessita de informações mais pormenorizadas sobre a gravidade da doença e os números de admissões hospitalares e de unidades de cuidados intensivos”, declarou o secretário-geral da agência da ONU, Tedros Adhanom Ghebreyesus, numa conferência de imprensa.

Ghebreyesus pediu maior transparência nos procedimentos, sublinhando que todas as hipóteses sobre a origem do novo coronavírus na China “estão em cima da mesa”.

Os especialistas da OMS que viajaram para a China nos últimos anos consideraram quatro hipóteses para a origem do SARS-CoV-2: a passagem do vírus do animal para o homem através de espécies intermediárias (a mais provável segundo indicaram), transmissão direta de uma única espécie, contaminação pela cadeia alimentar ou acidente laboratorial.

Entretanto, em Pequim, o diretor de doenças infecciosas do Hospital nº 1 da Universidade de Pequim, Wang Guiqiang, citado pela agência noticiosa Associated Press (AP), admitiu que a China está a contabilizar apenas as mortes por pneumonia ou insuficiência respiratória no número oficial de mortes por covid-19.

Por essa razão, disse o médico, trata-se de uma “definição restrita” que limita o número de mortes relatadas, à medida que o surto do novo coronavírus aumenta após o abrandamento dos casos provocado pelas restrições impostas até recentemente pelas autoridades chinesas.

“As mortes que ocorrem em pacientes com doenças pré-existentes não são contabilizadas como mortes por covid-19”, sublinhou Wang Guiquiang.

Leia ainda: OMS diz que aumento de casos na China lança dúvidas sobre fim de emergência global

A China sempre foi conservadora na forma como contabiliza o número de casos de diferentes doenças, seja por gripe seja por covid-19.

Na maioria dos países, incluindo os Estados Unidos, as diretrizes estipulam que qualquer morte em que o novo coronavírus se possa constituir como um fator seja contabilizada como uma morte relacionada com a covid-19.

Os comentários de Wang Guiquiang, proferidos na terça-feira, acabam por esclarecer publicamente, em parte, o que o país tem feito durante a pandemia.

Hoje, a China não registou novas mortes por covid-19 e subtraiu até uma morte do número total, reduzindo-o para 5.241, de acordo com a contagem diária divulgada pela Comissão Nacional de Saúde, que não ofereceu mais explicações.

O esclarecimento de como a China regista oficialmente as mortes por covid-19 ocorre quando os casos disparam em todo o país depois do fim das restrições impostas no âmbito da política “covid zero”.

No entanto, a contagem geral permanece como uma dúvida, pois a China parou de exigir testes diários de PCR (ou testes moleculares) e muitas pessoas estão a efetuar os testes de diagnóstico em casa.

Curiosamente, muitas pessoas adoeceram em cidades como Pequim e Xangai, tendo esta última sido atingida por um surto provocado pela variante Ómicron, considerada mais transmissível.

Várias pessoas disseram à AP que alguns dos seus familiares idosos que apresentaram um teste positivo à covid-19 morreram e não foram contabilizados no número oficial de mortos da cidade, o mesmo sucedendo a pacientes com doenças parecidas.

Em maio passado, a OMS estimou que quase 15 milhões de pessoas morreram com doenças associadas à covid-19 ou devido a sistemas de saúde sobrecarregados nos primeiros dois anos da pandemia.

Este valor é muito mais elevado do que o número oficial de mortos, mais de 6,6 milhões, desde o início da pandemia, em 2020.

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