Esquadras chinesas em Portugal. Entidades desconhecem, ONG garante veracidade - Plataforma Media

Esquadras chinesas em Portugal. Entidades desconhecem, ONG garante veracidade

Há três “esquadras chinesas informais” em Portugal, que estão a “monitorizar, investigar e repatriar à força” cidadãos de origem chinesa. A denúncia foi feita pelo líder do partido Iniciativa Liberal (IL), João Cotrim de Figueiredo, no Parlamento, na semana passada e deixou os portugueses de ‘boca aberta’. Governo português, entidades chinesas no território luso, Amnistia Internacional dizem desconhecer tal situação, ao contrário da polícia de Portugal. Para já, contudo, não haverá “ilegalidades”.

António Costa, primeiro-ministro de Portugal, foi então confrontado pela Iniciativa Liberal sobre a alegada existência de esquadras de polícia informais da China em três localidades portuguesas, isto tendo por base um relatório de uma ONG, Safeguard Defenders, que identificou três “police service stations”, em Portugal, nomeadamente no Porto, em Lisboa e na Madeira.

O líder do Governo português revelou não estar ao corrente de tal situação, salientando mesmo que nem os serviços secretos teriam qualquer dado, “caso contrário já me teriam informado”.

“A resposta é muito fácil: não tenho nenhum conhecimento e seguramente os serviços também não. Mas recomendava-lhe que transmitisse isso à Procuradora Geral da República”.

Leia também: ONG diz que há esquadras chinesas em Portugal, mas nenhum caso de repatriamento identificado

Contactada pelo PLATAFORMA, a Amnistia Internacional Portugal não ficou espantada com a possibilidade da existência das tais esquadras chinesas, embora admitam que não têm também qualquer conhecimento.

“Esta metodologia de intimidação não nos espanta. Infelizmente, são práticas que vão sendo usadas. Pessoas que são ameaçadas com constrangimentos pessoais e sofrimento infligido aos seus familiares não é uma prática nova”, começou por revelar o diretor da Amnistia, Pedro Neto, que, ainda assim, admite não ter conhecimento de casos concretos em Portugal.

“Não temos conhecimento que elas atuem da forma como foi dita, de perseguir para repatriar à força. O relatório da ONG não refere que haja casos concretos, o que refere é que existem três grupos em Portugal. Serão esquadras que estarão cá, mas reportam a esquadras na China”, confirmou.

Leia também: Chineses em Portugal manifestam-se contra visita de Pelosi a Taiwan por “Uma Única China”

Mais indignado com a afirmação do líder da Iniciativa Liberal ficou Y Ping Chow, presidente da Liga dos Chineses em Portugal. O empresário desmente qualquer possibilidade da existência das tais esquadras em solo luso e ataca o político português.

“Isto é falso. O objetivo desta denúncia é prejudicar a China. Foi uma notícia falsa divulgada por alguém, neste caso um político, que não tem grande experiência, e que quer ganhar notoriedade”, disse Y Ping Chow ao nosso jornal, referindo também que se houver “provas concretas”, essas terão de ser entregues às autoridades.

“Primeiro que tudo, não nos podemos basear em relatórios que não divulgam provas. Primeiro há que as arranjar e se as conseguirem, essas têm de ser entregues às autoridades competentes. Vivo em Portugal há mais de 60 anos e nunca tive conhecimento de qualquer esquadra, nem de nenhum cidadão chinês que tenha sido repatriado”, disse o líder da comunidade chinesa em Portugal. Ao contrário do Governo, Amnistia e Liga dos Chineses, a verdade é que as autoridades portuguesas têm conhecimento destas esquadras informais, como revelou ao PLATAFORMA fonte policial.

Leia também: Portugal atractivo para investir. China atenta

“Estamos atentos ao que se passa em Portugal. Mas, para já, não há qualquer movimento no sentido de levar uma pessoa contra a sua vontade, o que seria um grave problema diplomático”, salientam, sem quererem abordar pormenores deste assunto.

ONG GARANTE FIABILIDADE

Independentemente de desmentidos ou desconhecimento, a ONG Safeguard Defenders não tem dúvidas sobre a existência das esquadras em Portugal e da sua operacionalidade.

“Existem e há organizações por trás disto. Tal como há em Madrid ou Belgrado, também existe esta atividade em Portugal” disse Peter Dahlin, presidente da ONG, à Rádio Renascença, explicando depois como as esquadras operam.

Leia também: Vigilância digital, alarmes e comités de bairro compõem máquina da China contra o vírus

“Entram em contacto com os cidadãos chineses, convidam-nos para uma espécie de escritório, fazem uma video-conferência com a polícia chinesa que descreve todas as coisas que podem acontecer se eles não voltarem de forma voluntária para a China. Há documentos oficiais do Governo chinês que relatam que nos últimos 50 meses 230 mil cidadãos chineses no estrangeiro foram persuadidos a retornarem à China, sob acusações criminais. Persuadindo-os a voltarem, na prática estão a ameaçar com os filhos e a família que estão na China”, salientou.

Peter Dahlin soube também das palavras de António Costa, primeiro-ministro de Portugal, que desconheceu a existência, revelando-se disposto a colaborar com as autoridades para investigar este caso.

“Pelo que conseguimos perceber no Parlamento português, o Governo afirma que não conhece estes casos e isso, provavelmente, significa que a Polícia portuguesa o desconhece. Por isso, esperamos disponibilizar o máximo de informação possível e que a Polícia olhe para as três esquadras específicas, no Porto, em Lisboa e na Madeira, para recolher toda a informação relevante para que possam ser devidamente escortinados”, concluiu.

O que são as esquadras chinesas

Este tipo de esquadras, denominadas pelo Governo chinês como “110 Overseas”, ou batalha dos 100 dias, terão sido criadas em 2018.

O objetivo seria repatriar cidadãos chineses para a China à revelia das autoridades do país de acolhimento. O documento publicado pela Safeguard Defenders diz que, entre abril de 2021 e julho de 2022, 230 mil chineses em todo o mundo foram “forçados” a regressar à China e que nem todos estavam acusados de qualquer crime. Para “forçar” o regresso, usam mecanismos como negar aos filhos dos alvos, que ainda residem na China, o direito à educação, limitar ou punir os membros da família “por associação”.

A ONG dá mesmo o exemplo daquele que terá sido um dos primeiros cidadãos chineses a ser investigado pelas esquadras. A residir em Belgrado, um chinês de apelido Xia, acusado de roubo, terá sido persuadido a regressar ao seu país. Inicialmente não pretendia voltar à China, mas “após uma semana de conversações com a polícia chinesa e a esquadra de serviço na Sérvia”, que incluiu conversas em vídeo e áudio através do WeChat, o WhatsApp chinês, o homem aceitou regressar ao país natal, para responder pelas acusações.

Leia também: ONU indica possíveis crimes contra a humanidade na região chinesa de Xinjiang

Segundo a ONG, inúmeros documentos oficiais especificam que familiares de expatriados que se recusem a ajudar a polícia na “persuasão” dos suspeitos podem ser punidos na China. Entre os castigos comuns, está a exclusão dos filhos do sistema de ensino, e a ameaça de serem considerados cúmplices caso o suspeito não aceite regressar para responder perante as acusações.

Estas operações, consideradas ilegais, são conduzidas em canais alternativos, ao “lado dos acordos de cooperação judicial entre países e violam o direito internacional, podendo também violar a integridade territorial de países terceiros”, alerta a Safeguard.

Este artigo está disponível em: English

Assine nossa Newsletter