Maria da Luz Semedo, 34 anos, é natural da cidade da Praia, na ilha de Santiago, mas há cerca de 10 anos que foi à procura de uma vida melhor na ilha da Boa Vista, e trabalha na limpeza num aldeamento turístico
Luz e vida barata atrai moradores a bairro em Cabo Verde. Quanto aterrou na Boa Vista, esta jovem, como muitos outros, morou no denominado Barraca, um bairro clandestino que surgiu com o “boom” do turismo na ilha, e como o próprio nome diz, no início a maior das casas eram de chapas e irregulares, sem redes de água, eletricidade ou esgoto.
Segundo dados das autoridades locais e nacionais, o bairro alberga cerca de 10 mil pessoas, que chegaram nos últimos 20 anos de todas as ilhas e da costa ocidental africana, para trabalhar nos hotéis, na construção civil ou no comércio.
Depois de um tempo, Maria da Luz foi morar no centro da ilha, em Sal Rei, em apartamentos, mas mais caros, mas em finais de 2020, conjugando ainda com os efeitos da pandemia da covid-19, regressou ao bairro, que os moradores tentam rebatizar de Boa Esperança, onde mora com a filha de sete anos.
“Com a pandemia, não dava para pagar a renda em Sal Rei”, contou à Lusa a jovem santiaguense, que viveu todo este período de pandemia na Boa Vista, dando conta que regressou ao bairro graças às melhores condições criadas nos últimos anos, como calcetamentos, energia 24 horas, iluminação pública, arruamentos ou plantas que começam a crescer.
“Antes havia muita preocupação com água parada, agora isso acontece em apenas algumas zonas, mas está melhor. Agora também temos luz, que facilita muito na educação dos nossos filhos”, prosseguiu Maria da Luz, que ainda tem alguns desejos para a localidade, como água na rede, ligação de esgotos, mais segurança e produtos mais baratos.
“Hoje sentimo-nos mais orgulhosos de viver aqui porque antes era muito má, mas graças a Deus hoje a barraca é só de nome”, descreveu, na porta de sua casa, a algumas dezenas de metros da praça central do bairro, onde crianças brincam descontraidamente, agora num calçadão de pavês, que substituiu a terra batida e os buracos que acumulavam água das chuvas.
Na mesma praça fica também a Associação de Grupo Jovens Solidários da Boa Vista (AGJSBV), presidida por Lamine Fati, que avançou à Lusa que o bairro “mudou radicalmente” nos últimos três, quatro anos, tendo as autoridades aproveitado o período de pandemia para intensificar algumas obras.
“Aqui onde estamos agora era completamente diferente. Era cheio de água parada das chuvas, mau cheiro, mas hoje em dia estamos com uma urbanização bastante melhor, com calcetamento, energia 24 horas”, descreveu o líder associativo, dando conta também de uma escola que foi construída na localidade.
Com todas estas condições criadas, confirmou que muitas pessoas que antes não queriam morar no bairro agora decidiram sair da cidade e mudar para o Bairro, como também gostam de chamar, onde o custo de vida é mais barato, e floresce todo o tipo de pequenos negócios.
E se antes as casas eram praticamente todas de chapas, que davam o nome de Barraca ao bairro, hoje a maioria é feita de blocos e cimento, muitas mesmo de dois andares, alguma pintura, atraindo não só os trabalhadores da construção civil e da hotelaria, mas agora todo o tipo de funcionários.
“É uma mudança boa para a comunidade e para a vivência do dia a dia das pessoas. As pessoas têm mais autoestima e mais confiança”, salientou Fati, que insiste na necessidade de agora ser mostrada a realidade atual do bairro, que mesmo assim ainda tem muitas construções inacabadas e algumas barracas.
“Existe ainda um bocadinho daquela parte, por causa de alguma resistência das pessoas”, reconheceu o presidente da associação, dizendo que falta também ligação domiciliária de água, rede de esgotos, um banco e uma farmácia para o bairro ficar mais completo e atrativo.
Mesmo com as mudanças em curso e com o bairro a ganhar nova vida, Lamine Fati tem uma certeza: o nome de Barraca não vai acabar tão depressa. “Mas queremos que as pessoas se habituem a dizer bairro de Boa Esperança”.
Segundo o recenseamento geral de 2010, a população da ilha da Boa Vista era de 9.162 habitantes, que quase duplicou em 2019 para 17.707 pessoas, embora muitas tenham deixado a ilha desde o início da pandemia da covid-19.