“É possível produzir numa cidade caótica como Macau”

“É possível produzir numa cidade caótica como Macau”

Samuel-Power

Foram pioneiros na agricultura urbana e na produção de micro-vegetais. A It’s Pure Production e a Mighty Greens querem mostrar que é possível ser sustentável mesmo numa cidade urbanizada como Macau, onde sentem haver vários impedimentos para desenvolver a opção considerada o futuro

A agricultura urbana – que assume diversas formas – é considerada o futuro pelos ganhos ecológicos e de saúde. Foi também por isso que a It’s Pure Production e a Mighty Greens surgiram pela mão de dois casais que quiseram criar uma alternativa em Macau, onde a produção agrícola é inexistente.

“O motivo principal que me levou a investir nesta ideia foi a oportunidade. Não havia nada assim em Macau”, afirma Samuel Power.

A experiência de 20 anos como chefe de cozinha, seis na região, deixou evidente que havia dois problemas: a dependência da importação; e o desperdício consequente face ao tempo que os artigos demoram a chegar e que leva a que muitos se estraguem.

Deixou a cozinha para se dedicar à agricultura, ainda que diferente da que estava habituado na Austrália, onde cresceu no campo e sempre teve contacto com a prática. No 10A do Edifício Industrial Nam Leng, na Avenida de Venceslau Morais, o casal Power sediou a empresa e investiu na produção de micro-vegetais – rebentos de sementes vegetais germinados e colhidos na fase inicial, a mais nutritiva, e produzidos de forma biológica e sustentável.

A It’s Pure Production – a primeira quinta urbana de aquaponia com fins comerciais autorizada pelo Instituto para os Assuntos Municipais (IAM) [VER CAIXA] – é um género de estufa tecnológica onde num ambiente isolado da poluição exterior são criados vegetais, micro-vegetais e ervas aromáticas através da agricultura vertical – que consiste em estantes de tabuleiros empilhados onde sementes crescem, germinadas em “climas” criados pelo homem onde tudo é controlado: temperatura, humidade, água e luz.

A dupla usa a aquaponia, sistema de produção de alimentos que combina aquacultura (produção de animais aquáticos, como peixes) com hidroponia (cultivo de plantas sem utilização de solo, imersas em água). Estimativas apontam que seja necessário menos 60 por cento de solo e 90 por cento de água na agricultura vertical comparativamente à convencional.

Cintia e Guilherme Martins também abriam caminho na área há cerca de dois anos. Com o selo da Mighty Greens – que procura incentivar à horticultura, através de workshops sobre a prática e produção de vegetais com enfoque na sustentabilidade -, começaram a plantar hortas urbanas em espaços e com entidades públicos, como escolas e igrejas. “A razão pela qual começámos a plantar micro-verdes foi pelo facto de conterem inúmeros benefícios para a saúde. Daí focarmo-nos mais numa componente educacional, incentivando cada um a aprender a plantá-los e entender melhor as componentes nutritivas das plantas”, explica Cintia Martins.

Ao Plataforma recorda que, depois de um apogeu agrícola nos anos 70, a produção local caiu em flecha nos anos 90. “O que fez com que Macau tivesse que importar praticamente 100 por cento dos produtos alimentares. Produzir ou ensinar outros a produzir aqui em Macau é uma mais valia tendo em conta que é a via mais sustentável e amiga do ambiente”, defende. “Isto não implica que não haja dificuldades, uma vez que são necessárias tecnologias compatíveis e mentalizar a população de que o que é local também é bom.”

Ossos do ofício

O percurso tem corrido bem, mas os desafios sentem-se em ambos os projetos. Na Mighty Greens foi um repto os cuidados necessários com os micro-vegetais por serem plantas em estágios iniciais. O controlo da germinação, problemas fruto da humidade e falta de ventilação, a temperatura, quantidade de água, o controlo do sabor são alguns que Cintia Martins enumera. “São aspetos mais técnicos, mas fundamentais para a consistência da qualidade de um produto. Ter de superar as dificuldades técnicas e burocráticas ensinou-nos a ser indivíduos mais resilientes. Inicialmente tivemos algumas surpresas, mas fizeram-nos crescer, aprender e agora poder ensinar”, ressalva.

Samuel Power explica como foi difícil conseguir apoio e autorização dos departamentos públicos por ser uma prática inovadora e desconhecida na cidade. “Ninguém sabia o que era a hidroponia quando fui ao IAM e a outros departamentos. Desconheciam como ajudar e orientar-me. Depois de muitos contactos, informações, conseguimos e acabámos por obter a licença”, diz.

Além deste, o casal encontrou outros obstáculos como obter as sementes, inexistentes em Macau. “Têm de ser importadas e foi muito difícil encontrar fornecedores que cumprissem os requisitos do Governo. Os que cumprem são caros. Além da renda, acaba por ser o custo mais elevado que temos”, lamenta.

Power também salienta vantagens que facilitaram que o negócio se afirmasse e crescesse rapidamente, desde que foi criado em 2019. Desde logo, a recetividade e procura por parte de restaurantes gourmet e chefs tendo em conta que os micro-vegetais são um recurso comum nos pratos de alta-cozinha. “Há cada vez mais procura. Tem aumentado significativamente. Há mais turistas e isso significa mais dinheiro, tanto nos resorts como nos restaurantes que acabam por ter mais margem para investir em bens que tinham prescindido com a pandemia como os micro-vegetais”, realça.

Para dar resposta, a dupla Power decidiu integrar mais um parceiro, que por ser local e falar cantonês tem ajudado a abrir o mercado chinês dos supermercados e pequenos negócios.

“Os micro-vegetais têm 40 vezes mais nutrientes que uma planta normal. Um molho acaba por equivaler a uma grande salada em valor nutricional e benefícios para a saúde”, sublinha Power. “Combater o desconhecimento que ainda se sente requer educação e informação, como acontece na Austrália e Estados Unidos, onde já há uma grande consciência do potencial destas opções. Essa é outra das componentes que estamos a tentar a fazer aqui”, revela o australiano.

Mudar mentalidades

Formar é o próximo passo da It’s Pure Production, que pretende dar cursos e formação nas escolas e universidades. Por agora, está garantida a colaboração com a Universidade de Ciência e Tecnologia, e o Instituto de Formação Turística. “Queremos ensinar aos estudantes como fazer hidroponia e agricultura urbana, e organizar visitas à quinta para perceberem como é possível produzir numa cidade caótica como Macau”, reforça Samuel Power.

Sandra Power acrescenta que a iniciativa se vai estender a outras faixas etárias. “É gratificante ver o interesse dos nossos filhos no desenvolvimento da quinta, nos peixes e depois perceberem que estão a comer o que produzimos. Temos três rapazes que cresceram aqui, onde tudo vem do supermercado. Ter a oportunidade de lhes ensinar como as coisas realmente aparecem é fantástico. Isso leva-nos a outro patamar que é o objetivo de educar a geração mais jovem sobre a possibilidade de fazer agricultura numa cidade. Queremos estender a formação às escolas.”

“Os micro-verdes foram apenas a chave para abrir a porta do mundo agrícola. Sozinhos somos capazes de fazer coisas bonitas, mas com a comunidade podemos afetar a vida de muito mais gente e assim ajudar o mundo de uma maneira mais eficiente”, sublinha Cintia Martins, para explicar a mudança de rumo da Mighty Greens. A empresa passou a estar mais focada na formação e consultoria em detrimento da produção. “Procuramos alavancar os clientes nas atividades agrícolas. Vamos ao local, fazemos uma avaliação do que é necessário, analisamos a exposição solar e se o espaço é no exterior ou interior, o que é que se pode plantar, e que tipo de sistema é necessário. Temos tudo, como fertilizantes orgânicos, sementes e tapetes para plantar”, exemplifica.

No que respeita à educação, continua, a Mighty Greens organiza workshops e eventos virados para horticultura e saúde alimentar. “Trabalhamos juntamente com algumas escolas, ensinamos português através de métodos de horticultura, ensinamos sobre sustentabilidade e gerimos hortas”, explica. “Se cada um de nós tiver essa semente, podemos mudar Macau para melhor. Sermos mais sustentáveis e estarmos melhores de saúde foi o que nos fez mudar de rumo.”

É com a mesma noção que a It’s Pure Production tem procurado diversificar-se. Além de alargar a produção, da aposta na formação, vai criar uma gama produtos. “Vamos lançar uma salada feita só à base micro-vegetais. Teremos três opções: a normal, a picante e a mista. É um produto pensado para os supermercados e que cumpre outra finalidade do projecto, que é o de chegar diretamente ao consumidor, ao indivíduo”, afirma Sandra Power.

“A necessidade de criar uma uma simbiose entre o Homem e a natureza é fundamental para a saúde mental e física, especialmente numa cidade onde o amanhã já vem tarde. Foi isto que percebemos e é isto que tentamos transmitir. Há problemas e fenómenos sociais que podem ser mitigados através deste mesmo contacto”, vinca Cintia Martins.

Além do IAM, o Plataforma procurou falar com outros departamentos públicos sobre o tema. A Direcção dos Serviços de Protecção Ambiental escusou-se a responder às questões sobre o impacto dos micro-vegetais no ambiente, com o argumento que não respeita à competência dos serviços. Quanto à Direcção dos Serviços de Economia também evitou responder, neste caso sobre apoios e incentivos que o Governo tem ou poderá vir a desenvolver para apoiar investimentos na área da agricultura urbana.

O jornal também questionou a Sociedade de Nutrição de Macau sobre o contributo que os micro-vegetais podem representar na dieta e saúde, mas sem sucesso. Procurou ainda obter a opinião de um ambientalista que não respondeu até ao fecho do jornal.

Perguntas por responder

Em resposta ao Plataforma, o Instituto para os Assuntos Municipais (IAM) pouco esclarece. O instituto limita-se a responder à pergunta sobre as licenças para a produção de micro-vegetais. “Se os produtos relativos a microgreens se destinarem a consumo público, devem cumprir o estipulado na Lei de Segurança Alimentar, bem como estão sujeitos à fiscalização do IAM. Se o modelo de negócio envolver um local de venda, o proprietário deve solicitar uma licença para estabelecimento de venda a retalho de vegetais ao IAM. Se um cidadão estiver interessado em explorar uma produção de microgreens em Macau, deverá informar o IAM, que irá supervisionar as condições de plantação com base na segurança alimentar”, esclarecem. Por responder ficaram as questões sobre como encara o Governo a produção de micro-vegetais em Macau; quantos projetos/empresas investiram neste segmento; que benefícios e desvantagens identifica o Executivo na alternativa; se o Governo considera investir na área; e quantos pedidos recebeu o IAM para a exploração deste tipo de agricultura.

Este artigo está disponível em: 繁體中文

Related posts
MacauSociedade

Fixados novos limites de emissão de poluentes atmosférico

Lifestyle

Filhote perdido de baleia-cinzenta aparece no Mediterrâneo francês

Macau

Macau não é um “deserto” de biodiversidade

Mundo

Estudo reabilita reputação das vespas, demonstrando-as essenciais aos ecossistemas e à saúde

Assine nossa Newsletter