Ilha timorense de Ataúro vai ser transformada em breve em Município Especial

Ilha timorense de Ataúro vai ser transformada em breve em Município Especial

A ilha timorense de Ataúro, até agora integrada no município de Díli, vai passar a ser um Município Especial com mais autonomia, para permitir a sua melhor gestão, disse hoje à Lusa o líder do maior partido do Governo.

“Por proposta minha, Ataúro vai passar em breve a Município Especial, no âmbito da revisão administrativa que vai ser aprovada em breve”, afirmou em entrevista à Lusa Mari Alkatiri, secretário-geral da Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente (Fretilin).

“Vai estar separado de Díli. É pequeno, mas é um polo diferente que vai ter de ser diferente”, frisou.

Explicando que a alteração vai ser aprovada “em breve”, Alkatiri defendeu que dadas as especificidades da ilha de Ataúro, atualmente o principal polo turístico de Timor-Leste, justifica-se estar separado de Díli.

Ao mesmo tempo, disse, também “não faz sentido” a ligação que foi feita entre Ataúro e o enclave de Oecusse, duas regiões que integram a Zona Especial de Economia Social de Mercado (ZEESM), projeto liderado atualmente pela Região Administração Especial de Oecusse-Ambeno (RAEOA).

Alkatiri enfatiozu que essa mudança terá um impacto positivo nas condições de vida da ilha que, muitas vezes é esquecida pelas autoridades na capital.

“Agora Ataúro é praticamente o anexo de Díli. É esquecido e isso não pode ser. Até geradores que não usamos aqui mandamos para lá, quando Ataúro poderia perfeitamente funcionar com energias renováveis”, disse.

“E depois sem haver técnicos de manutenção, por exemplo. Por isso insisti nesta proposta que já apresentei durante os V e VI Governos”, frisou.

Apesar da relativa proximidade a Díli – cerca de 30 quilómetros – Ataúro continua a sentir as dificuldades do isolamento, com problemas regulares no funcionamento elétrico e de água, estradas e infraestruturas precárias e outros desafios.

Uma situação que levou em novembro a Comissão de Finanças Públicas do parlamento timorense a recomendar que seja dada “atenção especial” das autoridades às carências básicas, incluindo de água e saneamento, com que vivem a população da ilha.

“Perante os inúmeros desafios sociais e económicos que os habitantes de Ataúro vêm atravessando e que têm vindo a ser amplamente divulgados pelos meios de comunicação social, entre eles a falta de energia elétrica e de água potável, a Comissão recomenda à RAEOA especial atenção para o desenvolvimento dessa região englobada no espaço da Zona Especial, como polo complementar de desenvolvimento de grande potencial turístico para o país”, pode ler-se no parecer.

A população de Ataúro apresenta uma fatia significativa da população sem acesso a água ou eletricidade, com serviços limitados e sem manutenção básica.

Residentes da ilha disseram à Lusa que se sentem abandonados e esquecidos pelo Governo central e pela RAEOA.

“Supostamente Ataúro faz parte da zona económica exclusiva com Oecusse, mas temos sido esquecidos e não tivemos qualquer benefício disso”, explicou Avelino Fernandes, diretor da organização não-governamental Roman Luan, de Ataúro.

A situação tem-se vindo a deteriorar progressivamente, segundo residentes locais, com a falta de serviços básicos de manutenção, especialmente na rede elétrica e de distribuição de água a intensificar os problemas.

“Pedimos por favor ao Governo central que não se esqueça de Ataúro. Tem que implementar projetos sustentáveis de desenvolvimento, olhar para a comunidade da ilha que tem um grande potencial no turismo, mas que é praticamente abandonada”, contou à Lusa Avelino Fernandes.

A situação condiciona fortemente o dia a dia da maioria da população e afeta também o setor de turismo que estava a tornar-se uma das principais fontes de rendimento da ilha.

Depois de um crescimento regular, o setor do turismo foi significativamente afetado pelo aumento de preços das viagens aéreas para Timor-Leste, nos últimos anos, e especialmente danificado pela pandemia da covid-19 que deixou o país sem voos comerciais desde março.

Um dos maiores problemas continua a ser a questão da água, com a seca e as alterações climáticas – que estão a deixar secas várias fontes de água – a serem agravadas porque não é feita qualquer manutenção básica à reduzida rede existentes em Ataúro.

Na eletricidade a situação não é melhor: uma grande fatia da população não tem acesso a eletricidade, há blackouts regulares e mesmo quando há fornecimento, só ocorre durante algumas horas.

Sem acesso a luz não há condições adequadas para preservar alimentos, especialmente peixe fresco, com a população a ter que secar peixe o que acaba também por afetar a nutrição.

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