Combate à COVID-19 não se faz com régua e esquadro - Plataforma Media

Combate à COVID-19 não se faz com régua e esquadro

O atual contexto tem vindo a reforçar a importância de, mais do que nunca, o processo de tomada de decisão política exigir, desde logo, a necessidade de termos ao dispor dados rigorosos e de uma realista leitura destes, a par da importância do aumento do investimento em investigação, assentes numa estreita articulação com as entidades representativas dos setores da sociedade. Sem estes fatores conjugados e assegurados, arrisca-se, por um lado, a que a decisão política fique desprovida do devido suporte e, por outro, que sejam tomadas medidas dificilmente compreendidas, desadequadas e até injustas. Ou seja, medidas cujo efeito poderá ser diametralmente o oposto do pretendido: o seu cumprimento mediante a desejada adesão voluntária por parte das pessoas.

Desde o início deste contexto sanitário que havia urgência em se colocar no terreno os recursos especializados para o panorama que se vislumbrava. Sempre considerámos fundamental – a par da dotação com mais meios humanos do Serviço Nacional de Saúde e da valorização dos atuais profissionais – reforçar as equipas de saúde pública. Soubemo-lo, porque cedo ouvimos quem estava na linha da frente deste combate. E, porque soubemos ouvir, percebemos que este era o primeiro elo da cadeia nesta dura luta: identificar rapidamente os casos de infeção, rastrear os contatos para determinar as cadeias de contágio, recolher evidência científica, apoiar as instituições a operar junto da comunidade e contribuir, deste modo, para garantir a contenção do vírus. O concurso, entretanto, aberto para a contratação de 39 médicos especialistas de saúde pública, registou, contudo, somente 26 candidatos. É mais do que evidente que os restantes lugares não podem ficar por preencher. Mas há também que recrutar técnicos de saúde ambiental para as equipas de saúde pública, que há mais de dez anos têm sido ignorados – especialistas que são fundamentais em surtos como os de legionella.

Todos os dados têm de ser cruzados. Todos os dados significativos têm de ser tidos em conta

Atentemos, porém, ainda nos dados do ISPUP – Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, os quais demonstram que, precisamente, por falta de recursos (humanos) nos sistemas de vigilância epidemiológica nacionais, desconhece-se hoje a origem das infeções em 81,4% dos casos de COVID-19. Ou seja, apenas em 19,6% dos casos de infeção registados no nosso país é conhecida a cadeia de transmissão!

Um outro estudo apresentado nas retomadas reuniões no Infarmed – por cuja continuidade tanto insistimos – apresentava como faixa etária menos comprometida com as regras básicas de proteção individual a dos adultos dos 26 aos 45 anos, com maior escolaridade. Ora, isto devia fazer-nos pensar. Este incumprimento não pode residir somente no alegado desinteresse das pessoas, mas antes numa ausência de informação clara e na relação proporcional e rigorosa (nem sempre evidentemente) entre os dados e as medidas tomadas.

Acontece assim que a imagem que transparece é a de um Governo que tem avançado, diríamos que, por força de razão do acima referido, de forma tacteante, com medidas impactantes nas famílias e na economia, tendo por base outros dados e cuja base de sustentação não nos sossega de sobremaneira. Todos os dados têm de ser cruzados. Todos os dados significativos têm de ser tidos em conta. Quando assim não é, descredibiliza-se o poder político e os seus órgãos representativos, abrindo espaço para a desconfiança, para a tensão social, para o deitar por terra aquilo que é de facto necessário continuar a fazer.

Chegados a este momento, é preciso, em suma, que as decisões políticas reflitam a assimilação de aprendizagens, mas esse é um caminho que não se faz sozinho, nem com as ferramentas do passado. Faz-se com os investigadores, os profissionais de saúde, as forças políticas, os diversos setores sociais. Não se faz com regra e esquadro ou sem rede. E também não se faz sem recursos: as necessidades estruturais e as que resultam desta crise.

*Deputada do partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN) – Portugal

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