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Cabo Delgado: A guerra invisível

O conflito de Cabo Delgado vai provocando milhares de deslocados, que carregam consigo o trauma de terem visto os horrores da guerra, com entes queridos a serem mortos de forma violenta e desumana. No entanto, os sobreviventes não têm sido acompanhados psicologicamente.

Na semana passada, Nampula começou a receber em definitivo os deslocados de Cabo Delgado para recomeçarem as suas vidas. Várias organizações estão no terreno para dar apoio e assistência às vítimas do conflito, através de doação de roupa, utensílios domésticos e comida, mas o acompanhamento psicológico tem sido uma lacuna grave.

A incerteza do futuro, falta de apetite, ansiedade, problemas de sono, são algumas das consequências psicológicas para quem testemunhou de perto o conflito em Cabo Delgado. Os que conseguiram escapar , contam agora a realidade que se vive no norte de Moçambique e as sequelas que carregam.

Inho Francisco, 50 anos de idade, natural de Mocímboa da Praia, perdeu três irmãos. Os corpos só foram descoberto pela família três dias depois e estavam despedaçados. Em entrevista ao jornal O País, Inho Francisco conta que trataram do enterro no local, sem saber “distinguir a quem pertenciam as partes do corpo”.

Depois do enterro voltaram para casa, mas foi apenas para fazer as malas e fugir. Agora, em Nampula, procura uma nova vida e sossego, embora a dor das imagens dos seus irmãos continue a atormentar, desabafando que o trauma “não passa”. “Antigamente, na nossa terra havia pessoas que faziam tratamento tradicional, mas agora como não temos ficamos assim”, referiu.

Sabina Sebastião, também com 50 anos de idade, enterrou o seu tio, depois de ser assassinado violentamente pelos terroristas. “Esses que cometeram o ato usavam farda de militares”, lembrou Sabina, que não consegue dormir ao recordar a forma como o familiar morreu. ““Foi pegue e depois degolaram o pescoço. Depois disso, despedaçaram o corpo”, descreveu.

Segundo o psicólogo Háchimo Chagane, estas experiências podem desenvolver um transtorno traumático, que agrava se não tiver acompanhamento psicológico. “Aqueles que não só tiveram que sair das suas casas, mas também perderam os seus entes queridos, alguns dos quais nem sequer conseguiram fazer um enterro digno aos seus familiares isso vai ter situações como depressão, que tem a ver com o nosso estado de ânimo, as pessoas vão começar a ter situações como falta de motivação e falta de esperança em relação ao futuro”, explicou.

O conflito em Cabo Delgado gerou até agora cerca de 435 mil refugiados, que ficaram totalmente dependentes de ajuda humanitária, segundo um relatório do Programa Mundial de Alimentos.

A província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, é palco há três anos de ataques armados desencadeados por forças classificadas como terroristas.

Há diferentes estimativas para o número de mortos, que vão de mil a duas mil vítimas.

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