Maior oleoduto aquecido do mundo projetado para o coração de África - Plataforma Media

Maior oleoduto aquecido do mundo projetado para o coração de África

Projeto tem o cunho da francesa Total, em parceria com a China National Offshore Oil Corporation, e tem gerado muitas críticas

Apesar da queda global dos preços do petróleo, principalmente durante esta pandemia de Covid-19 que assola o mundo, a empresa petrolífera francesa Total está à frente de um investimento da ordem dos 20 mil milhões de dólares para a construção de um oleoduto de 1400 quilómetros na África Oriental que ligará Tanga, na costa da Tanzânia, ao lago Alberto no Uganda.

Contudo, a obra não tem gerado críticas construtivas e positivas. Diversos specialistas internacionais já vieram a público alertar que o projeto megalómano deslocará milhares de pequenos agricultores e colocará em risco os principais habitats da vida selvagem, bem como as águas costeiras do Índico.

Imagine uma versão tropical do oleoduto do Alasca. E que tal a passar por habitats críticos de elefantes, leões e chimpanzés e 12 reservas florestais, contornando o lago Vitória – o maior lago de África – e cruzando mais de 200 rios e milhares de fazendas antes de chegar ao Oceano Índico – onde, se compararmos com o desastre do petroleiro Exxon Valdez em 1989 – despejaria petróleo bruto em alguns dos mangais e recifes de coral com a maior biodiversidade costeira e marinha de África. Esse projeto está pronto para construção.

Dois campos de petróleo, recentemente descobertos nas margens do Lago Alberto, na fronteira entre o Uganda e a República Democrática do Congo, estão atualmente entre as maiores e mais baratas reservas disponíveis. Supõem-se que contenham crude para encher cerca de seis mil milhões de barris, quase metade do tamanho do campo petrolífero de Prudhoe Bay, no Alasca.

As obras começaram nos campos de petróleo Kingfisher e Tilenga, onde a China National Offshore Oil Corporation e a gigante francesa Total pretendem fazer 500 poços. O consórcio já gastou cerca de quatro mil milhões de dólares em infraestrutura, depois de se apropriarem de terras das comunidades locais, pagando baixas indemnizações.

Contudo, os poços ainda precisam de um oleoduto que possa levar o petróleo para o mundo exterior. Para isso, as empresas planeiam a construção de um oleoduto aquecido, o mais longo do mundo. O oleoduto transportará 216 mil barris de petróleo bruto por dia e exigirá aquecimento a 50 graus, porque o petróleo tem baixo teor de enxofre e se assim não for, solidificará nas tubagens. As ONG’s estimam que a pegada de carbono do petróleo, uma vez queimado, será aproximadamente a da Dinamarca, e milhares de agricultores perderão as suas terras.

O consórcio reclama ter resolvido as questões ambientais e sociais locais subjacentes ao projeto. A Total, que está a liderar o projeto, afirma ter consultado 58 mil pessoas durante todo o trajeto e escolheu um caminho para “minimizar” o mais possível o número de pessoas deslocadas.

Contudo, as ONG’s locais e especialistas internacionais em avaliações de impacto ambiental e social discordam. Defendem que os riscos ambientais do oleoduto e das instalações de produção são enormes, e que as consultas com as comunidades representam muito pouco.

A Comissão Holandesa de Avaliação Ambiental (NCEA), um organismo independente criado pelo governo holandês, considerou as avaliações inquestionáveis ​​sobre as questões ambientais, tendenciosas em equilibrar impactos positivos e negativos.

O WWF, num relatório datado de 2017, alertou que o oleoduto “provavelmente levará a uma perturbação significativa, fragmentação e aumento da caça ilegal em importantes biodiversidades e habitats naturais” povoados por elefantes, leões e chimpanzés que estão na lista vermelha de espécies ameaçadas. No Uganda, as populações de chimpanzés, hipopótamos e crocodilos estarão em risco ao redor do Lago Alberto, onde estão instalados os campos de petróleo.

Estima-se que o oleoduto será enterrado a uma profundidade de até dois metros na maior parte da sua construção, mas a sua pegada na paisagem ainda será grande. Para começar, exigirá mais de 80 estações de controlo ao longo da rota: para bombear, gerenciar a pressão, isolar possíveis derrames e manter o óleo aquecido. Além disso, a Total exige que um corredor de terra com 30 metros de largura acima da tubagem seja mantida livre de edifícios, árvores e plantações, o que interromperá as fazendas, ecossistemas e a migração da vida selvagem.

Além da perturbação do habitat da vida selvagem e da agricultura, uma ameaça adicional é a poluição por vazamentos de óleo. ONG’s acusam que este projeto também confinará a região numa armadilha de energia suja, num momento em que o mundo está a preparar-se para um futuro com energia limpa.

O perigo de derrame de crude para o lago o maior lago de África – e a principal fonte do rio Nilo – é exponenciado pelo risco de terremotos, refere a WWF. Em 2016, um terremoto de magnitude 5,6 matou 20 pessoas e destruiu pelo menos 900 edifícios na zona do lago Vitória.

Os sinais não são bons. No Uganda, 7000 pessoas de 13 aldeias já perderam terras no distrito de Hoima, na margem oriental do lago Alberto, para abrir caminho para a infraestrutura, incluindo um aeroporto para transportar equipamentos para os campos de petróleo. Em 2018, a Reuters entrevistou agricultores irritados que foram obrigados a desistir dos seus campos. “Não sei para onde ir quando esta terra for tomada”, disse, na altura, um agricultor de 73 anos, cujos 20 filhos e vários netos dependem de uma fazenda de cerca de nove hectares.

A ministra da Energia e Desenvolvimento Mineral do Uganda, Mary Goretti Kitutu, está ansiosa para seguir em frente com o projeto e tornar o país o quinto maior produtor de petróleo da África Subsaariana. Em janeiro, o ministro de Estado da Tanzânia, Mussa Azzan Zungu, deu ao oleoduto um certificado ambiental. O poder político está, portanto, a funcionar em uníssono para o projeto poder ver a luz do dia.

E o financiamento da obra está firme. O Sumitomo Mitsui Bank do Japão e o Standard Bank da África do Sul continuam a bordo.

O baixo preço global do petróleo pode ser o último obstáculo. Ainda assim, analistas do setor dizem que mesmo com preços baixos de petróleo, isso não será um obstáculo. O petróleo ao redor do lago Alberto está próximo da superfície e as condições de perfuração são fáceis, tornando os custos de produção excecionalmente baixos.

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