O dragão tarda a acordar - Plataforma Media

O dragão tarda a acordar

Pequim voltou esta semana a emitir vistos turísticos individuais e de grupo para entrada em Macau.

A decisão é considerada como fundamental para vivificar a indústria das apostas ao fim de mais de seis meses de paralisação, mas para os especialistas ouvidos pelo PLATAFORMA ainda é cedo para lançar foguetes. A medida vai ser testada até 23 de Setembro e abrange, numa primeira fase, apenas os residentes da província de Guangdong mas para que o dragão esteja de regresso é necessário mais, dizem os analistas.

Ébria, a quimera de lantejoulas cambaleia sem norte, como se permanecesse indefinidamente presa entre o sono e a vigília. A besta só desperta quando alguém lhe unge a fronte, lhe rasga os olhos e o ritmo dos tambores acelera. Revivificado, o monstro espolinha-se, agiganta-se, expurga todo e qualquer sinal de dormência. Para que o titânico dragão do jogo volte a mostrar as garras e se levante do estertor em que agoniza há mais de meio ano, o tamborilar dos passos de turistas e apostadores de toda a China tem de se voltar a fazer ouvir, defendem académicos e analistas ouvidos pelo PLATAFORMA.

José Sales Marques

Se o panorama epidémico se mantiver estável, o pilar da economia de Macau deve continuar adormecido por, pelo menos mais um mês, até 23 de Setembro. Na quarta-feira, as autoridades chinesas reataram a emissão de vistos de turismo, tanto individuais, como de grupo, numa medida que, para já e até 26 de Agosto, abrange apenas os residentes da vizinha cidade continental de Zhuhai. O programa de vistos individuais foi responsável por trazer ao território, em 2019, metade dos visitantes chineses que assomaram a Macau e o relançamento da medida é tida como essencial para a revitalização da combalida indústria do jogo. No entanto, o alcance geográfico reduzido das diligências agora anunciadas limitam o impacto que o eventual regresso dos turistas pode vir a ter sobre casinos e concessionárias. Para o economista José Sales Marques, que falou ao PLATAFORMA antes da retoma da emissão de vistos individuais ter sido anunciada, apenas medidas de alcance nacional poderão colocar o sector na senda do crescimento, num processo em que o jogo VIP deverá adquirir uma importância estrutural. “A medida, em si, abre as portas para uma melhoria futura no setor do jogo, embora na minha opinião – e acho também que na de alguns analistas – para recuperar, vai precisar de ter o segmento VIP bastante mais forte do que aquilo que ele é atualmente. Esta questão, este problema do setor VIP depende do regresso dos vistos individuais, que não estavam ainda a ser emitidos”, defende o também presidente do Instituto de Estudos Europeus de Macau. “São [necessárias] medidas de alcance nacional e que vão para além da província de Cantão. Eu penso que os grandes apostadores virão das grandes cidades, das grandes metrópoles chinesas e, enfim, essa abertura vai ser necessária para podermos recuperar”, salienta Sales Marques.

No início da semana, quando a retoma da emissão de vistos individuais, então apenas para os residentes de Zhuhai, foi anunciada, a Secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, Elsie Ao Ieong U esclareceu que o objetivo do Governo de Macau era o de conseguir junto de Pequim alargar a abrangência da medida muito para além da vizinha cidade continental, mas o processo, avisa Ben Lee, adivinhava-se remansoso. O analista, sócio gerente da consultora IGamiX Management and Consulting Ltd, está convicto que o impacto da medida agora anunciada não será muito significativo a curto prazo. “Não me parece que possa ser. De qualquer forma, a reabertura das fronteiras seria sempre feita progressivamente, em pequenos passos. Pouco a pouco”, assume o especialista, que lembra a forma e o impacto das primeiras medidas de distensão decretadas pelas autoridades chinesas, em meados do mês passado.

Ben Lee

Em Julho, mês no qual as operadoras de jogo geraram receitas brutas da ordem dos 24,4 mil milhões de patacas, os proveitos da indústria cresceram pela primeira vez em termos mensais desde o início do ano, mas os resultados positivos devem ser vistos mais como um sintoma da debilidade que se apoderou do sector, do que um indício de crescimento estrutural. “As receitas de Julho não são propriamente um sinal de recuperação, mas sim um reflexo de volatilidade devido aos baixos níveis de jogo. A decisão de tornar obrigatório que todos os visitantes que entram nos casinos apresentem um teste de despistagem à Covid-19 anulou, em grande medida, os ganhos decorrentes do relaxamento da política de vistos de negócios e dos vistos para a as famílias”, defende Ben Lee.

Alidad Tash

Radicado no território há 14 anos, Alidad Tash está convicto que só o alargamento, anunciado por Pequim na terça-feira, da política de atribuição de vistos individuais a outras províncias da República Popular da China a partir de 23 de Setembro poderá ajudar as operadoras de jogo a recuperar a competitividade entretanto perdida. “A notícia é a melhor que Macau poderia receber, até porque a China é responsável por 75 a 80 por cento das receitas de jogo geradas pelos casinos de Macau”, lembra o analista.

Entre os observadores mais otimistas, há quem acredite que as concessionárias de jogo talvez ainda possam gerar até ao final do ano um quarto das receitas alcançadas em 2019. O desempenho afigurava-se improvável para e diretor executivo da consultora 2NT8 até ao início da semana, mas a retoma das emissões de vistos de turismo individuais antes da “Semana Dourada” de Outubro muda substancialmente as perspetivas dos agentes do jogo. “É uma meta perfeitamente exequível para os últimos meses do ano se não houver casos de Covid-19 em Macau ou se permanecerem muito baixos e se as lacunas em termos de transportes forem colmatadas, principalmente no que toca às províncias mais distantes”, sublinha o analista.

A exemplo do que defende José Sales Marques, Ben Lee sustenta que, além dos fatores enunciados por Alidad Tash, a capacidade das operadoras de jogo conseguirem atrair grandes apostadores terá uma importância fulcral para a recuperação do sector. O sócio-gerente da IGamiX Management and Consulting considera que o jogo VIP é a chave para o relançamento da economia de Macau, até por motivos estritamente sanitários. “Não acredito que tão cedo Macau queira receber 39,5 milhões de visitantes anuais e é por isso que o mercado VIP vai voltar o ser o nosso mercado alvo. A regra dos 80:20 vai prevalecer: 80 por cento das receitas geradas por 20 por cento dos visitantes. É esta a fórmula que aponta para a recuperação, ao mesmo tempo que minimiza os riscos de um eventual ressurgimento dos casos de Covid-19”, assume Lee.

A crença de que os grandes apostadores e o jogo VIP serão a tábua de salvação para o mercado do jogo do território não é plenamente partilhadas por Alidad Tash. O diretor-executivo da 2NT8, que ajudou a promover as vantagens do “bacará sem comissão” como trunfo para a diversificação da economia do jogo, está convicto que, a longo prazo, o jogo VIP vai continuar a perder terreno. “O jogo VIP tem uma margem de lucro muito baixa quando comparada com o mercado de massas e isso faz com seja um segmento menos atrativo, apesar do entusiasmo que o rodeia”, explica o analista. “A longo-termo, o mercado VIP vai continuar a encolher quando comparado com o mercado de massas”, vaticina o antigo vice-presidente para as Operações de Jogo da Melco Entertainment.

Carlos Siu Lam afina, em parte, pelo mesmo diapasão. Professor associado do Centro Pedagógico e Científico na Área do Jogo do Instituto Politécnico de Macau, Lam não acredita que o mercado dos grandes apostadores exerça, até ao final do ano, um impacto que se possa revelar verdadeiramente significativo. “As medidas tomadas estão direcionadas para a província de Cantão e são um estímulo sobretudo para o mercado de massas. O sector VIP esta dependente de outras províncias e, como tal, as medidas que foram tomadas não vão ter grande impacto no sector VIP. O jogo VIP só vai conhecer algumas melhorias quando outras províncias forem abrangidas por estas medidas”, assume o académico.

Carlos Siu Lam

Num ano pautado por uma paragem com tanto de inesperado, como de devastador, a maior de todas as incógnitas, alerta Alitad Tash, persiste. “[A recuperação] depende de muitos fatores: a disponibilidade, o ´timing’ e a eficácia de uma vacina, a capacidade de alguns líderes mudarem ou não as suas estratégias, a intensidade da Covid-19 durante a próxima temporada de gripe são premissas-chave. Dito sito, não creio que os níveis de receita regressem aos valores pré-crise antes de 2022”, remata o analista.

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