Dia Mundial dos Oceanos: estão em crise e não podem esperar - Plataforma Media

Dia Mundial dos Oceanos: estão em crise e não podem esperar

Os problemas são causados pelo ser humano, que também será determinante para a solução dos mesmos. O futuro, dizem os especialistas, terá de passar por uma economia azul. E esse futuro tem de ser já

8 de junho. Hoje é o Dia Mundial dos Oceanos, que começou a ser comemorado apenas em 1992. Salienta-se o apenas pelo facto de vivermos num planeta literalmente azul, dado que os oceanos e mares cobrem mais de 70% da Terra. Em 2020 ainda há muito por explorar nos e dos Oceanos, mas, e como diz o velho ditado que há males que vêm por bem, ironicamente a pandemia do Covid-19 poderá fazer mudar mentalidades.

Este vírus, que nos começou a atacar há seis meses deu tempo ao mundo para para e pensar. De facto, são os oceanos que nos alimentam, regulam o nosso clima e geram a maior parte do oxigénio que respiramos. Mas é também uma realidade que não os tratamos bem, vejam-se as mais de oito milhões de toneladas de resíduos plásticos que acabam no fundo dos oceanos e as alterações climáticas, que danificam os recifes de coral e outros ecossistemas fundamentais. Como se pode travar isto? A resposta poderá ser uma economia azul.

“A geração azul é como o que necessário para mudarmos a nossa relação com o oceano. Torna-se imprescindível uma relação diferente com a natureza, não basta resolver o problema através de políticas públicas e de ambiente. Sabemos que o que tem causado todos estes impactos na natureza é a nossa economia e o modelo de desenvolvimento económico. É importante explicar às pessoas que a crise dos oceanos não é um problema para as baleias e para os peixinhos, é para nós, que dependemos deles para vivermos, mas enquanto animais terrestres não temos essa perceção”, considera Tiago Pitta e Cunha, presidente da Fundação Oceano Azul.

Mas para que os problemas dos oceanos possam ser solucionados o trabalho tem de começar a ser feito bem cedo, com os mais jovens. Neste momento há planos para tentar resolver os problemas imediatos, mas o ideal é que no futuro esses problemas deixem de existir. Para tal, contudo, as crianças que irão viver esse futuro têm de ser ensinadas desde cedo a proteger os oceanos.

As crianças, por exemplo, desconhecem totalmente que dependemos dos oceanos para vivermos. E nesse sentido, a Fundação Oceano Azul tem desenvolvido um programa para lhes dar consciência da importância dos mesmos. Chama-se Educar para uma Geração Azul, sem precedentes na Europa e no Mundo, e já somos considerados o país mais avançado em literacia azul por causa desse mesmo programa. Ele consiste em formar todos os professores do primeiro ciclo, para ensinarem as crianças da importância dos oceanos e ensinar com este tema inserido nas disciplinas curriculares. Com isso desejamos que os jovens sejam mais responsáveis e mais conscientes”, referiu Tiago Pitta e Cunha.

É importante explicar às pessoas que a crise dos oceanos não é um problema para as baleias e para os peixinhos, é para nós, que dependemos deles para vivermos

Os problemas imediatos a resolver

Discutir os problemas dos oceanos seria um tema para muitas horas, dias ou anos, dada a degradação ao segundo dos mesmos. A culpa, já ninguém tem dúvidas, é nossa, do ser humano. Mas discutir não basta, há que acelerar decisões, porque os oceanos não podem esperar por respostas muito mais tempo.

“A crise dos oceanos é profunda, mais do que pensamos. A questão dos plásticos tornou-se uma questão mediática nos últimos anos e isso é positivo porque levou as pessoas a sintetizarem-se nos oceanos, mas a verdade é que temos muitos outros assuntos problemáticos relacionados com os oceanos. A começar pelo facto de continuarmos a poluir as zonas costeiras dos mesmos, um fenómeno que se chama de eutrofização, que é a descarga de excesso de nutrientes, provenientes dos nossos sistemas de saneamento urbanos, que acabam por remover o oxigénio das zonas costeiras”, explica o presidente da Fundação Oceano Azul, dando também exemplos simples do que realmente está a acontecer nos mares.

“Hoje em dia um dos grandes problemas dos oceanos, que foi um sistema de gestão de oxigénio para o planeta, é que já têm zonas mortas, que se multiplicam cada vez mais. Vou dar um exemplo, o do espadarte, que é um predador formidável, que pesca entre a superfície e mil metros de profundidade e hoje em dia, em certos locais, já não consegue passar de 100 ou 150 metros, porque já não tem oxigénio. O oxigénio é uma questão que nos preocupa muito, metade do oxigénio que respiramos provem dos oceanos”, afirmou.

O oxigénio, ou a falta dele, é assim um dos problemas imediatos mais graves. Mas neste dia mundial dos oceanos importa ensinar ao mundo que há mais e urgentes de serem resolvidos.

Neste momento há uma extinção maciça de espécies, a biodiversidade dos oceanos está a baixar, tanto pela poluição como pela sobrepesca, que remove muita da biomassa dos oceanos. E isso é muito preocupante porque os oceanos dependem muito dessa biomassa para existirem saudáveis, os oceanos são um fenómeno bioquímico e a parte biológica depende da biomassa e se essa é delapidada há um grande desequilíbrio na parte biológica dos oceanos. E se já provocámos um desequilíbrio na parte química com a acidificação dos oceanos com a acumulação dos gases de efeito de estufa, então o problema começa a ser complicado”, explicou Tiago Pitta e Cunha, que nas duas últimas décadas tem trabalhado na área das políticas do oceano, enquanto legislador nas Nações Unidas, no Governo de Portugal e na Comissão Europeia.

O espadarte, que é um predador formidável, que pesca entre a superfície e mil metros de profundidade e hoje em dia, em certos locais, já não consegue passar de 100 ou 150 metros, porque já não tem oxigénio

Identificados problemas como a falta de oxigénio e a baixa da biodiversidade, há outro que o antigo conselheiro do Presidente da República para assuntos de ambiente, ciência e mar identifica: a temperatura dos oceanos:

“É um dos mais preocupantes e de maior dificuldade de resolução, dado que mais de 90% do excesso de calor gerado pelo aquecimento global é absorvido pelo oceano. Ou seja, se não fosse o oceano, nós já não teríamos condições de sobrevivência por causa do aumento da temperatura atmosférica. Mas o que acontece é que como os oceanos estão a aquecer, isso está a alterá-los profundamente e uma das causas diretas é o desaparecimento dos corais, que são organismos fundamentais para a sobrevivência dos oceanos, respondem por 25 a 30% da biodiversidade dos oceanos, da variedade de formas de vida. O desaparecimento dos corais vai ser altamente dramático, com ele irá perder-se um quarto de toda a biodiversidade dos oceanos”.

A ajuda inesperada da pandemia de Covid-19

A pandemia e mais concretamente o isolamento social trouxeram uma mudança positiva nas nossas rotinas e que teve consequências ambientais, também elas muito positivas. O ar está mais limpo e os oceanos e mares também. Não há, por isso, dúvidas que somos nós, o ser humano, que tanto impacto causamos na natureza.

“Passámos a pescar menos, tivemos menos navios no mar, há menos CO2 no ar, as cidades estão menos poluídas. Há várias lições que se tiram do que nos aconteceu, que era algo impensável. Uma é que precisamos de ouvir mais os cientistas e a ciência, se os tivéssemos ouvido seguramente não teríamos tido os comportamentos que levaram o vírus a passar do reino animal para a espécie humana; depois percebemos que devemos perder as ilusões que somos a espécie eleita, que está acima das outras espécies, que não pertence ao ecossistema natural, que vive independentemente das outras espécies, porque estamos eternamente ligados à natureza”, considerou o especialista em assuntos de oceanos, manifestando-se também esperançado que as pessoas continuarão a ter novos tipos de comportamento devido ao Covid-19.

“Esta pandemia vai acelerar todas as tendências que já estavam em formação. Uma das coisas que aconteceu nos últimos anos, e a partir de 2015, do Acordo de Paris para as alterações climáticas, foi um aumento enorme da consciencialização e da responsabilização, não apenas dos Estados, mas individual. Com a pandemia noto ainda mais as pessoas a quererem mudar para aquele modo de ação direta, a apanhar lixos nas praias, a fazerem hortas de produtos biológicos, etc, veio acelerar as tais tendências. Há outra coisa importante, no debate do ambiente e das alterações climáticas havia sempre aquelas tendências, aqueles grupos, aquelas personalidades que contestavam o facto de haver a relação causa efeito com a atividade e a economia humana. Agora ficou visível a olho nu que se tirarmos o pé do acelerador, se encostarmos à berma também damos a volta e se a nossa economia o fizer, também. A natureza é permanentemente suprimida pela nossa aceleração económica”, disse Tiago Pitta e Cunha, encontrando, contudo, um ponto negativo no impacto do Covid-19 em matérias de oceanos:

“Este era o super ano dos oceanos, com várias conferências e encontros sobre o tema. Uma delas, das mais importantes, seria a semana da Conferência dos Oceanos das Nações Unidas, que teria decorrido em Lisboa na passada semana.”.

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