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Vida num lar vai muito além da pandemia

Dia soalheiro e quente em Macau. À hora combinada chegámos ao Lar de Nossa Senhora da Misericórdia, em confinamento parcial, para ver in loco o que têm sido os últimos meses do trabalho de cuidadores em tempo de pandemia Covid-19.

Depois de uma breve conversa para acertar agulhas, encaminhado para uma visita às instalações, na Rua Belchior Carneiro, nas traseiras das Ruínas de São Paulo, centro da cidade.

Começámos a visita de cima para baixo, do terceiro andar para o rés-do-chão, como quem diz, do local onde estão os residentes mais independentes para os acamados e isolados.

Em altura de pandemia, a direção do lar – propriedade da Santa Casa da Misericórdia de Macau (SCM) – decidiu que todos os idosos que se deslocarem, por motivos de saúde, a qualquer um dos hospitais do território no regresso ficam em isolamento obrigatório por 14 dias por razões preventivas.

Os intrusos

No terceiro andar, a equipa de reportagem foi recebida efusivamente. Idosos, de ambos os sexos, passeavam por ali. Uns mais facilmente, outros menos, mas todos quiseram vir cumprimentar “os estranhos” que por ali apareceram e saber o que andavam a fazer. “A ver caras bonitas!”, respondemos. As senhoras sorriram, algumas envergonhadas.

“Estes senhores vêm tirar fotografias e ver como trabalhamos”, disse um dos responsáveis do lar aos idosos presentes, por forma a prepará-los para a situação. Entre quartos, muitos “olás” e muitos “zou san”. Tiraram-se fotografias, umas publicadas nesta edição, outras não publicáveis, mas que fazem parte de um acervo que, posteriormente será entregue à SCM.

Seguiu-se o andar de baixo. Por aqui, além de alguns residentes com mobilidade já se veem idosos acamados, completamente entregues aos cuidadores que, no geral, são da própria instituição. Em casos muito particulares podem ser empregadas externas que se deslocam ao lar para fazerem companhia aos mais debilitados.

Uma médica macaense quis saber mais sobre nós e sobre o trabalho. “Estamos aqui, acima de tudo para sermos testemunhas do trabalho dos cuidadores nesta altura difícil que todos vivemos”, explicámos.

Grupo de risco

E, de facto, os idosos fazem parte dos grupos mais suscetíveis de contraírem a Covid-19. Apesar de a situação em Macau estar mais tranquila, é sempre importante perceber como os lares do território se prepararam para a pandemia. “Se, por algum acaso, o vírus entra aqui dentro, será uma catástrofe”, desabafou uma das enfermeiras. Por isso, justifica-se o tal isolamento dos idosos que precisem de apoio médico fora das instalações do lar.

No primeiro andar e no rés-do-chão estão os idosos mais velhos – há diversas pessoas com idades acima dos 100 anos – e os mais dependentes. Há residentes que, de facto, não se mexem. São alimentados por sonda e mal respiram. Os cuidadores tentam, a todo o custo, minimizar as agruras de um final de vida já longa com a melhor qualidade possível.

Um homem, ladeado pela sua energética mulher, apresenta-se impávido e sereno, deitado na cama. Se não respirasse, poderia pensar-se que pudesse estar morto. A mulher pede aos auxiliares para manterem acesa a luz daquela parte da enfermaria durante a noite. “Preciso de ver se ele está bem e há uns tempos acabei por cair ao movimentar-me por a luz estar apagada”, disse, com a ajuda da tradução de uma das enfermeiras.

Com cheirinho a bossa nova

Ao sair daquela enfermaria, e passe a redundância, demos de caras com uma cara conhecida: Armando Araújo, ou melhor, Armandinho. “Olá, bom dia”, disse o músico brasileiro, radicado em Macau há vários anos. “Aqui estou bem”, acrescentou. Armandinho é um dos residentes que pode sair do lar e deslocar-se na cidade. Ainda tem uma vida que lhe permite gozar de bastante independência. “Que saudades tenho do meu Brasil, onde não vou desde 1989. Se fosse agora, já não voltava”, desabafou o músico, que se notabilizou como baterista de jazz.

“Tchau, Armandinho, um abraço”, dissemos. O brasileiro acenou e seguiu caminho. Estava a preparar-se para ir à rua. A visita continuou. Estávamos no piso térreo a ver algumas das placas descerradas por governadores e outras personalidades políticas com história no território. Um busto de Dom Belchior Carneiro, primeiro bispo de Macau e fundador da SCM, ladeia a escada principal do edifício.

“Agora é hora de almoço. É à vez, como pode ver”, começa por explicar um dos responsáveis do lar. “Primeiro vêm os velhinhos, depois os cuidadores e por aí fora. Há uma diversidade de comida que pode ir do bacalhau à Brás ao minchi. E todos gostam.”

O mote estava lançado: hora de almoço. A visita terminou com as despedidas de todos os que bem receberam a equipa do PLATAFORMA, num espaço que acolhe mais de 100 pessoas e em que o carinho e o foco na vida são sempre premissas, ainda mais agora em tempos de pandemia.

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