Terminem as teorias da conspiração. O SARS-CoV-2 não escapou de um laboratório - Plataforma Media

Terminem as teorias da conspiração. O SARS-CoV-2 não escapou de um laboratório

À medida que o novo coronavírus que causa a Covid-19 se espalha por todo o mundo, com casos ultrapassando 1,3 milhões em todo o mundo, a desinformação espalha-se com a mesma rapidez.

Uma das coisas que têm vindo a público com alguma insistência é que esse coronavírus, chamado SARS-CoV-2, foi produzido por cientistas e escapou de um laboratório em Wuhan, na China, onde o surto começou.

Mas isso não passa de um mito. Uma nova análise ao SARS-CoV-2 pode finalmente colocar essa ideia de lado. Um grupo de investigadores comparou o genoma desse novo coronavírus com o de outros seis coronavírus conhecidos por infetar seres humanos: SARS e MERS, que podem causar doenças graves; juntamente com o HKU1, o NL63, o OC43 e o 229E, que geralmente causam apenas sintomas leves nos humanos. O estudo foi publicado recentemente na revista Nature Medicine.

Kristian Andersen, professor associado de imunologia e microbiologia da Scripps Research, juntamente com os seus colegas analisaram o modelo genético das proteínas spike que se projetam da superfície do vírus. O coronavírus usa esses picos para agarrar as paredes externas das células do seu hospedeiro e depois entrar nessas células. Eles analisaram especificamente as sequências de genes responsáveis ​​por duas características principais dessas proteínas: o agarrador, chamado domínio de ligação ao recetor, que se liga às células hospedeiras; e o chamado local de clivagem que permite que o vírus abra e entre nessas células.

Essa análise mostrou que a parte do gancho evoluiu para atingir um recetor do lado de fora das células humanas chamado ACE2, envolvido na regulação da pressão arterial. É tão eficaz na ligação às células humanas que os pesquisadores disseram que as proteínas spike foram resultado da seleção natural e não da engenharia genética.

Eis o motivo: o SARS-CoV-2 está intimamente relacionado ao vírus que causa a síndrome respiratória aguda grave (SARS), que se espalhou pelo mundo há 17 anos. Entretanto, os cientistas estudaram como o SARS-CoV difere do SARS-CoV-2 – com várias alterações importantes no código genético. No entanto, em simulações feitas em computador, as mutações no SARS-CoV-2 parecem não funcionar tão bem para ajudar o vírus a ligar-se às células humanas. Se os cientistas tivessem deliberadamente manipulado esse vírus, não teriam escolhido mutações que os modelos de computador sugerem que não funcionariam. Mas acontece que a natureza é mais inteligente do que os cientistas, e o novo coronavírus encontrou uma maneira de fazer uma mutação que era melhor – e completamente diferente – de qualquer coisa que os cientistas pudessem criar, descobriu também o estudo.

Outra questão que deita por terra a teoria do vírus que escapou do laboratório é que a sua estrutura molecular geral é distinta dos coronavírus conhecidos e, em vez disso, assemelha-se mais aos vírus encontrados em morcegos e pangolins que haviam sido pouco estudados e não se sabia que podiam causar danos aos seres humanos. “Se alguém estivesse a tentar projetar um novo coronavírus como patógeno, tê-lo-ia construído a partir da espinha dorsal de um vírus conhecido por causar doença”, pode ler-se no comunicado da Scripps.

Morcegos primeiro, pangolins depois

Mas afinal de onde veio o novo coronavírus? O grupo de cientistas apresentou dois cenários possíveis para a origem do SARS-CoV-2 em humanos. Um cenário segue as histórias de origem de alguns outros coronavírus recentes que causaram estragos nas populações humanas. Nesse cenário, contraímos o vírus diretamente de um animal – civetas no caso da SARS e de camelos no caso da síndrome respiratória do Médio Oriente (MERS). No caso do SARS-CoV-2, os investigadores sugerem que o animal poderá ser um morcego, que transmitiu o vírus a outro animal intermediário (possivelmente um pangolim, defendem alguns académicos) que, por sua vez, levou o coronavírus aos seres humanos.

A confirmar-se este cenário, os recursos genéticos que tornam o novo coronavírus tão eficaz na infeção de células humanas já estavam em vigor antes de serem transferidos para os seres humanos.

Num outro possível cenário, essas características patogénicas teriam evoluído apenas depois que o vírus saltou do seu hospedeiro animal selvagem para os seres humanos. Alguns coronavírus originados nos pangolins possuem uma “estrutura de gancho” (domínio de ligação ao recetor) semelhante à do SARS-CoV-2. Dessa forma, um pangolim passou direta ou indiretamente o seu vírus para um hospedeiro humano. Assim, uma vez dentro de um hospedeiro humano, o vírus poderia ter evoluído para ter outro recurso furtivo – o local da clivagem que permite que ele entre facilmente nas células humanas. Uma vez que desenvolvesse essa capacidade, disseram ainda os cientistas, o coronavírus seria ainda mais capaz de se espalhar entre as pessoas.

Todo este detalhe técnico pode, na verdade, ajudar os cientistas a prever o futuro desta pandemia. Se o vírus entrar nas células humanas de uma forma patogénica, isso aumenta a probabilidade de futuros surtos. O vírus ainda pode estar a circular na população animal e pode “pular” novamente para os seres humanos, pronto para causar um novo surto. Mas as probabilidades de surtos futuros são menores se o SARS-CoV-2 entrar primeiro na população humana e depois desenvolver as propriedades patogénicas, revelaram os investigadores nas suas conclusões.

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