Onde andavam - Plataforma Media

Onde andavam

A História também se conta pela história das pessoas. O PLATAFORMA escolheu seis que cresceram em Macau e se destacaram nos últimos 20 anos. Foi saber onde estavam a 20 de dezembro de 1999 e o que mudou deste então. Antes e no dia da transição, o sentimento oscilava entre a nostalgia, o medo e o otimismo face ao futuro. A vida mudou para todos. Nem sempre para melhor.

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Há uma coisa que se manteve em Paul Pun ao longo destes 20 anos: o propósito de ajudar os outros como prioridade máxima. É também nele que se escuda para falar do que mudou desde 1999. “No período que antecedeu a transição, pensava que tínhamos todos de trabalhar em conjunto para um futuro melhor e isso motivou-me. Vivo para ajudar e senti que nesta nova Macau queria continuar a fazê-lo”, afirma Paul Pun, um dos convidados das cerimónias oficiais de 20 de dezembro de 1999. “Nesse dia, agradeci e respeitei o Governo português ao mesmo tempo que mostrei abertura e recetividade para trabalhar com o Governo chinês”, afirma. Não tem fotos do dia,  mas partilha um registo de novembro de 1999, no bazar da Caritas ao lado da mulher do então Governador português Rocha Vieira.  Acalmou a ansiedade de quem ajudava porque lhe tinham dado garantias de que as condições se iam manter para prestar caridade como até aí. Despido do papel de secretário-geral da Caritas, a muito custo, lá conta que enquanto residente o otimismo também se sobrepôs. “Pensei que o futuro seria melhor. Estávamos a assumir a responsabilidade de tomar conta da nossa sociedade e tínhamos de ser capazes. Não quero usar adjetivos como feliz ou realizado, apenas sentia que tinha uma oportunidade. Agora era connosco”. A grande mudança que salienta nas duas décadas de transição ao nível pessoal é a oportunidade de contribuir com sugestões aos órgãos decisores. “A transição deu-me a oportunidade de integrar comités de consulta do Governo. Sou um dos poucos que faz parte, e é uma forma de contribuir com ideias e experiências para o Governo”, exemplifica, acrescentando um momento que o marcou logo no pós transferência. “Fui o primeiro a registar-me para o colégio eleitoral que elege o Chefe do Executivo, apesar de não  ter feito por isso. Havia mais de duas mil pessoas para se registarem que depois seriam selecionadas para pertencer ao grupo dos 200 que constituiriam o conselho. Por acaso, fui o primeiro”, recorda. Conclui como começou: a oportunidade de ajudar. “Desde da transição também passámos a ter mais infraestruturas o que contribuiu para concretizar o meu objetivo de ajudar os mais carenciados e mais velhos”, diz Paul Pun hoje com 61 anos e secretário-geral da Caritas como em 1999. 

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Há 20 anos era jornalista no canal público de televisão TDM. Hoje é deputada. Em parte, por causa da transição. “Não diretamente pelo que aconteceu a 20 de dezembro de 1999, mas pelo que implicou o processo”, começa por dizer. “Sou de uma família humilde. Estava mentalizada de que nunca iria para a universidade”, explica. As perspetivas alteraram-se quando o Governo, ainda no tempo da administração portuguesa, começou a investir mais em educação. “Havia a promessa de “Macau governado pelas suas gentes” e o Executivo sabia que tinha de preparar os locais. A qualidade do sistema educativo mudou bastante nos finais dos anos 80, inícios dos anos 90”, contextualiza Lam, que acabou por beneficiar do investimento e prosseguir os estudos à custa de uma bolsa concedida pelo Governo. “E isso mudou toda a minha vida. Nunca pensei que pudesse ser jornalista e professora. Estava  preparada para trabalhar num casino ou assim. A transição trouxe muito mais oportunidades aos locais”, sublinha Agnes Lam. A foto foi tirada no dia da transferência de soberania, um dia em que não parou. À meia-noite estava aqui, em frente ao atual Centro Cultural de Macau onde foi montado um pavilhão temporário para a cerimónia. “Enquanto jornalista, estava focada. Lembro-me que comecei a trabalhar muito cedo, queria fazer tudo bem, sentia que estava a fazer História e queria recolher o máximo de informação possível. Pessoalmente, foi o concretizar de um momento que ouvia desde a escola primária. Ninguém sabia muito bem o que ia acontecer, se ia mudar para melhor ou pior”, descreve. Num balanço das duas décadas que passaram, considera que o estilo de vida não se alterou muito. “Continuamos a ir ao café, a comer comida portuguesa, cantonense e macaense”, refere. Mudou a comunicação com os políticos. “Antes da transição, sentia-se a distância dos altos responsáveis porque não falávamos a mesma língua. Agora há mais comunicação, mas também há mais obstáculos. Ou seja, antes quando ligávamos a um secretário atendia o próprio. Agora isso não acontece. Há outras barreiras que já não são criadas pela língua, mas pela cultura.”

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Tem agora 28 anos e por isso as memórias de 20 de dezembro de 1999 são vagas. “Tinha só 8 anos na altura e ainda estava na escola primária. Não me lembro onde estive e o que fiz nesse dia”, afirma Sulu Sou. O assunto também não foi tema em casa. “Os meus pais são o residente típico de Macau. Não falam sobre política. Nunca se manifestaram especialmente sobre a transição. Percebi do que se tratava e implicava mais tarde com vídeos e notícias”, continua o jovem, que, passados 20 anos da transição, é deputado à Assembleia Legislativa. Ao contrário do  cenário da foto tirada em 1999, que não mudou muito, Sulu lamenta outras alterações e os seus efeitos: “Embora a economia de Macau se tenha desenvolvido rapidamente, e os rendimentos do Governo e de muitas pessoas tenha aumentado depois da transferência de soberania, não sinto que a minha vida tenha melhorado. Os meus pais fazem parte da classe trabalhadora e não beneficiaram dos resultados económicos. Pelo contrário. Por causa do desenvolvimento económico, o preço da habitação subiu, a população e os turistas aumentaram, e a qualidade de vida diminuiu”, critica o político, também vice-presidente da Associação Novo Macau. 

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A 20 de dezembro de 1999 já era o que é hoje: deputado e desempregado. Há 20 anos, Ng Kuok Cheong passou o dia da transição entre Macau e Hong Kong, que tinha vivido o mesmo processo dois anos antes, em 1997. Na região vizinha, participou em fóruns, debates e entrevistas. Claudia Mo, na altura jornalista e hoje também deputada democrata em Hong Kong, foi uma das pessoas que o convidou para um programa na RTHK, rádio oficial da cidade, para falar sobre o que iria mudar em Macau. O resto do dia, passou-o aqui, na cidade, repartido entre mais entrevistas e nas ruas para sentir o ambiente. “Toda gente sabia e sentia que era um dia de mudança”, sublinha o democrata, hoje com 62 anos. Reservado nas palavras e sobretudo na partilha dos sentimentos, diz que viveu o dia e o período da transição de uma forma muito objetiva. “Estudei Economia e estávamos a viver uma experiência sob o ponto de vista económico e político. Sabia que havia aspetos que iriam melhorar, e outros que iriam piorar. Portanto, nesse dia não estava nem muito feliz nem muito triste. Apenas observava,” afirma. “Foi um período muito interessante. Macau estava a mudar de forma muito clara, mesmo antes de 1999. Ma década de 90, o Governo português começou a ser muito ativo. Construiu centros de saúde, hospitais, habitação pública, mecanismos para existir um fundo de segurança social fundo, investiu na educação”, exemplifica.

Do dia não guarda fotos. Preferiu partilhar uma que tirou em 1999 e que também reflete o período de transição. “Estávamos a protestar por causa das máfias”,explica, referindo-se ao período em que as seitas entraram em conflito e perturbaram a ordem pública. “Há uma expressão que diz que se aceita que os ratos existam desde que nunca apareçam no cimo mesa. Condenávamos o que estava a acontecer. Com o tempo, isso mudou. O Governo central não é fiável, mas lá nisso cumpriu o que prometeu. Disse que iria apostar no desenvolvimento económico da cidade para mostrar a eficácia do princípio Um País, Dois Sistemas e Macau tornou-se a cidade do jogo”, ironiza. “Resolveram este problema das máfias e mostraram que tinham poder sobre estes grupos.”

Houve outras mudanças durante as duas décadas que já passaram desde a transferência de soberania. “Tudo mudou porque a China mudou também”, sublinha. “Passaram a ter uma economia com base no capitalismo e ganharam poder. Agora o partido sente que é forte o suficiente e por isso quer controlar tudo. Os democratas enfrentam tempos difíceis. Sei que é História e tudo pode mudar. Mas a questão dos direitos e liberdades é um grande problema. Não só para Hong Kong como para Macau, apesar de ser a população de Hong Kong os que se insurgem”, lamenta. Sobre o que mudou na sua vida, diz que pouca e lembra que a grande viragem de rumo pessoal foi antes, a 4 de junho de 1989, quando era gestor no Banco da China e se demitiu para se dedicar à vida política e luta pela democracia na China continental e em Macau. 

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Há 20 anos estava no epicentro da festa, mas para precaver desfechos dramáticos. Dia 20 de dezembro de 1999, Mário Évora coordenava a enfermaria no local das cerimónias oficiais. “Estive lá de serviço o dia todo. Felizmente não aconteceu nada. Foi mesmo só prevenção. Montámos 30 macas. Imagine-se que caia uma bancada ou havia uma bomba…não havia tempo para tirar toda gente logo para um banco de urgência, parte seria tratada por uma equipa que estava no local e eu estava a coordenar essa equipa”, recorda. Não tem registo do dia, mas recorda que se passou com um sentimento de estranheza. “Para começar tinha a sensação de que não estava a acontecer. Estava a viver o virar de uma página da História. Às vezes até me beliscava para confirmar se era real. Era um momento marcante, sobretudo para quem nasceu e foi criado em Macau”, descreve. Sobre receios, confessa que havia. “Ninguém sabia bem como iria ser. A nossa vida, o dia-a-dia. Embora tivéssemos a consciência de que havia um acordo e que estava tudo previsto, em termos teóricos, para que não houvesse sobressaltos, na prática não sabíamos se seria aplicado”, realça, acrescentado que essa foi uma preocupação que se foi desvanecendo. Na altura, com 45 anos, era diretor clínico do Hospital Conde de São Januário e diretor dos Serviços de CardIologia, posição que manteve nos 20 anos da transição até este ano, quando se reformou em maio. “De facto não houve na minha vida, pessoal e profissional, grandes alterações a que me possa referir como uma mudança significativa”, diz. “Na língua também não houve grande problema porque nós, mesmo antes da transição, já usávamos o inglês como língua de comunicação e isso continuou até hoje. Escrevemos os diários clínicos e fazemos as reuniões clínicas em inglês. Ao nível do hospital nem isso mudou”, refere, ainda que ressalve: “Olhando no global, obviamente que tenho de reconhecer a realidade: as traduções são cada vez piores. E vivi isso como diretor clínico. Vou para reuniões em que muitas vezes não há traduções dos documentos em chinês, a tradução é feita oralmente. Não foi logo, mas ao longo dos 20 anos, sobretudo nos últimos, sente-se.”

Paula Carion

Há 20 anos, tinha 17 e era estudante. Hoje tem 37 e é tradutora no Governo. A 20 de dezembro de 1999, a conhecida judoca macaense era uma das protagonistas da performance para a Delegação Portuguesa. Fez karaté enquanto o macaense Casimiro Pinto cantava “Macau Conta Contigo”. Paula Carion recorda-se que estava muito frio e chovia, e que assistiu ao resto da cerimónia na televisão em casa. “Quando chegou a meia-noite, chorei compulsivamente por saber que era o fim do ‘nosso tempo’”, lamenta. Antes, diz nunca ter pensado muito sobre o assunto. “Era muito jovem. Nunca reflecti profundamente sobre isso, mas não era nada que quisesse especialmente por causa de ser macaense. Sentia-me mais portuguesa do que chinesa. Sempre me senti mais próxima do que íamos deixar do que o que viria”, afirma. Passadas duas décadas, realça: “Na verdade, continuo a gostar de Macau como sempre gostei, e a considerar-me ‘gente de Macau’, duas coisas que nunca mudarão”. Mas, ressalva: “Enquanto macaense, acho que a nossa posição mudou um pouco. Ouço comentários de chineses do Continente contra nós, como ‘Macau pertence à China e que os portugueses/macaenses devem estar calados’. Coisas assim”, condena. Por motivos pessoais, não foi possível fazer o registo fotográfico com Paula Carion. 

Catarina Brites Soares 19.12.2019

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