Aumentam os montantes de apoio, mas continua a não haver uma visão de crescimento. É a opinião dos inquiridos pelo Plataforma, depois de se saber que, no quarto trimestre de 2016, o Governo atribuiu 77,2 milhões de patacas à indústria das reuniões, incentivos, convenções e exposições (MICE, na sigla inglesa).
A maior percentagem de subsídios atribuídos pelo Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento de Macau (IPIM) foi para a indústria das reuniões, incentivos, convenções e exposições (MICE, na sigla inglesa), no quarto trimestre de 2016. Mas os profissionais e académicos do setor dizem que dar apoios não é sinal de vitalidade da indústria.
Dos 103,2 milhões de patacas em apoio financeiro atribuidos no quarto trimestre de 2016, a indústria das reuniões, incentivos, convenções e exposições recebeu 77,2 milhões. Numa resposta por escrito ao Plataforma, o IPIM refere que o setor tem crescido tanto quanto esperado, realçando que “em 2016, houve 1276 eventos MICE, o que corresponde a mais 1016 do que em 2002. Por seu turno, o número de participantes cresceu para 1,7 milhões”. Citando os números do relatório anual da Associação Internacional dos Congressos e Convenções (ICCA, na sigla inglesa), o IPIM refere ainda que “Macau situava-se no 36.º lugar, no ranking internacional [de organização de eventos], em 2011, e em 21.º, em 2015, tendo subido 15 lugares”. O relatório mais recente da ICCA deve ser anunciado no fim deste mês.
O presidente da Associação de Convenções e Exposições de Macau, Alan Ho, diz que, olhando para a indústria, “os encontros estão a crescer mais depressa dos que as exposições”, até porque parece que agora “se quer melhorar a qualidade das exposições, ao invés de aumentar a quantidade”. Atualmente, o dirigente diz que se procura mais “reuniões internacionais”, vendo-se que “o número de participantes [destas reuniões] aumentou mais do que 40 por cento, quando comparado com o ano transato”.
Otimista, Alan Ho diz que aquilo que ele considera serem melhores números, resulta de “Macau ser um lugar de renome internacional no que toca a infraestruturas para as convenções”, além de ter mais de 30.000 quartos de hotel. “Comparando com Hong Kong, a indústria das reuniões cresceu mais rapidamente do que na região vizinha; a equipa de angariação da associação de Macau ganhou três vezes mais do que Hong Kong”, diz, acrescentando: “Por exemplo, o IPIM agora tem serviços one-stop, além de haver programas especiais para feiras e reuniões internacionais.”
Por outro lado, acrescenta, há mais infraestruturas. “Quando a ponte de Zhuhai, Hong Kong e Macau estiver concluida, deverá atrair mais reuniões internacionais de larga escala”, declara.
No que toca ao segmento de incentivos, Alan Ho diz que “houve mais de 10.000 participantes no ano passado”, realçando que se tratam de bons resultados. “Este ano, todas as semanas, houve mais de 10 reuniões de incentivo, com mais de 10.000 participantes cada uma.”
Já quanto às exposições, o crescimento é “estável”, centrando-se agora na “melhoria da qualidade deste segmento, sobretudo as feiras de negócios”. Já no que toca às feiras comerciais, Alan Ho diz que houve uma descida, “porque houve uma redução no número de visitantes e porque o IPIM tem uma política restrita de concessão de apoio”.
Aliás, comparando a atuação da Direção dos Serviços de Economia — que, até meados de 2015, estava encarregue da atribuição desses subsídios —, com a do IPIM, refere que este último “tem uma política mais apertada na concessão de apoios na organização de feiras comerciais, havendo menos subsídios do que em anos passados”, levando a que “se perca dinheiro”. Outro motivo que pode justificar esta descida no campo das feiras, passa pela situação económica. “O consumidor gasta menos dinheiro em compras de mercadorias e bens”, refere.
Dez anos depois de se começar a mencionar o setor MICE como prioritário dentro da lógica de diversificação da economia, Alan Ho diz que “agora já se veem mais de 3000 jogadores da indústria”, além de haver “trabalhadores altamente qualificados na construção, agentes de viagens e competências para construir a indústria dos MICE”. Acrescem a estes fatores “mais de 1.800 metros quadrados para área de exposições”, que permitem a organização de eventos de pequena e média dimensão. Além disso, “há agora mais formas de cooperação regional”, tendo ainda havido um investimento de Macau enquanto plataforma entre a China e os países de língua portuguesa.
Os problemas mantêm-se
O professor de Jogo e Gestão de Turismo da Universidade de Macau, Glenn McCartney, diz que “qualquer aumento [de apoios] deve ser sempre elogiado”, mas afirma que “não se veem mudanças fundamentais”, até porque “os problemas de infraestruturas mantêm-se”.
Olhando para as estatísticas, o docente refere que “é tudo sobre os números, mas não há preocupações com a qualidade.” Normalmente, os números referem-se “aos delegados e aos subsídios, já que é disponibilizado um montante tremendo a eventos locais”.
Sobre os programas de apoio do Governo, o docente refere que se tratam de planos de “aumento”, mas que “não se traduzem em avançar a indústria dos MICE”. Aliás, Glenn McCartney critica “o sistema altamente burocrático”, que tem de ser pensado quando se afere se “são atraentes ou não, em comparação com outras cidades”.
No que toca às infraestruturas, o professor declara que “leva tempo a sua construção”, sendo impossível acelerá-las. Continua, assim, a haver problemas como “o terminal marítimo de Macau”, o que faz com que potenciais delegados prefiram locais como Hong Kong e Singapura. Além disso, o território “tem problemas [genéricos] de hospitalidade que continuam a precisar de ser resolvidos”, sendo isto particularmente visível neste setor. “Esta indústria exige um mais elevado nível de serviço”, já que se tratam de “viajantes de negócios, que pagam espaços, quartos de hotel e que têm expetativas altas”, não tendo Macau “uma força laboral qualificada”.
Para a diretora geral da empresa MM Marketing Communications Consulting Ltd — encarregue de um dos maiores eventos internacionais do território, a feira Global Gaming Expo Asia (G2E Asia), — Patricia Cheong, o setor está “mais organizado”, mas as novas políticas do IPIM “não são muito realistas”, dificultando o trabalho dos profissionais da área, realçando que “o volume de informação exigido [aos organizadores] é imenso”:
No geral, Patricia Cheong diz que a sua empresa “organiza poucos eventos”, centrando a sua atenção no G2E Asia, por “lhe garantir trabalho o ano inteiro”. Ainda assim, assinala que continua sem ver eventos comerciais a acontecer no território, “talvez pelas restrições de vistos da China”, mas também porque lhe parece que, ainda que Macau tenha “potencial”, o Governo “não parece muito interessado em trazer eventos internacionais”. Assim, declara Patricia CHeong, “Macau precisa de mais eventos comerciais”, até porque os apoios financeiros “não podem ser a principal fonte de rendimento”.
A diretora de uma das maiores empresas do setor de Macau diz que é preciso “haver um rumo” e não apenas atribuir apoios. “Parece que aceitam quaisquer ideias, sem um foco”, declara.
Destacando que, a médio prazo, ainda que se beneficie de subsídios do Governo, um evento precisa de mostrar algum tipo de rentabilidade, Patricia Cheong afirma que “poucas empresas trabalham com um nível de profissionalismo que permita elevar o setor”. Isso acaba por gerar “visitantes, mas não compradores”.
Assim, ainda que se aperceba de que o Governo “está a tentar controlar” o volume de apoios, acha que o faz “ao nível da execução e dos detalhes”, quando devia estar mais concentrado em determinar “o tipo de eventos que Macau deve ter”. E, claro, a rentabilidade “não deverá ser o mais interessante” na determinação destes eventos. “Poderá ser bom para a imagem de macau ou trazer mais empregos”, declara, a título de exemplo.
O IPIM assegurou, em nota por escrito ao Plataforma, estar a procurar trazer para o território “conferências da Ásia-Pacífico que nunca passaram pelo território, além de conferências internacionais de setores específicos, como a tecnologia, indústrias criativas, finança, turismo, educação, hospitalidade e turismo”. Garantiu ainda estar a “desenvolver um programa de embaixadores” que visa identificar e apoiar “potenciais anfitriões locais para organizarem conferências internacionais”.
Luciana Leitão