Isabel Capeloa Gil, reitora da Universidade Católica Portuguesa desde Outubro do ano passado, afirma que não está em causa um afastamento em relação à Universidade de São José – cujos estatutos recentemente foram alterados com o bispo de Macau a assumir o papel de chanceler da instituição. Trata-se antes, diz, de “reconhecer que a Universidade de São José é uma universidade de Macau, é uma universidade chinesa”.
– O que resultou dos encontros que manteve durante a sua visita a Macau?
Isabel Capeloa Gil – O balanço é muito positivo. O objetivo foi, por um lado, monitorizar aquilo que tem sido a atividade ou a relação da Universidade Católica com as autoridades civis do território no que diz respeito ao ensino do Direito e do Português em Lisboa, sobretudo. Recebemos anualmente cerca de 40 estudantes de Macau para cursos diversos. Pretendemos explorar um alargamento a outras áreas e, sobretudo com a Universidade de São José, falar deste momento de transição. A universidade teve a aprovação dos seus novos estatutos, o que significa que o magno chanceler passou a ser o bispo de Macau e não o cardeal de Lisboa, como era até aqui. Como se sabe, a Universidade de São José é participada em 50 por cento pela Diocese e em 50 por cento pela Universidade Católica, mas é uma universidade da RAEM, uma universidade na China. Temos o maior interesse em continuar a apoiar esta universidade, mas dentro de uma prática de desenvolvimento que tem de ser autónoma e relacionada com aquilo que é o contexto do ensino superior em Macau, na China e na Ásia. A nossa lógica é de acompanhamento, intercâmbio, entreajuda, capacitando a universidade e transferindo as boas práticas que temos vindo a desenvolver em Portugal na área da investigação e do ensino, mas tendo em conta que estamos a falar de uma realidade que é muito diferente da Europa, e muito diferente de Portugal. Estes dias foram muito produtivos porque permitiram ter um horizonte para outras áreas que até agora não estavam a ser desenvolvidas, com o alargamento de alguns protocolos, e explorar novas formações em áreas que também são inovadoras em Macau – a área da biotecnologia, eventualmente, que é uma área em que somos líderes em Portugal e não só. Temos agora um conjunto de projetos inovadores a lançar com algumas parcerias com empresas na área dos biocombustíveis. Há um conjunto de possibilidades a explorar que é verdadeiramente um novo caminho nesta área das ciências. Não estava pensado inicialmente, mas é uma mensagem que levo para a Escola Superior de Biotecnologia da Católica.
– A alteração dos estatutos da Universidade de São José, com a nova chancelaria, significará algum afastamento da Universidade Católica Portuguesa?
I.C.G. – Não significa. Significa pura e simplesmente o ancorar, o reconhecer que a Universidade de São José é uma universidade de Macau, é uma universidade chinesa. A participação da Católica na Universidade de São José não está de todo em causa. Comparticipamos em 50 por cento a universidade, somos fundadores, continuamos a ser, entre aspas, acionistas, e o interesse que temos é de interação e de colaboração mútua. A minha vinda a Macau é justamente para reafirmar a continuidade dessa colaboração num quadro que agora é institucionalmente diferente, mas também nos parece que, sendo que a intenção da criação da universidade em 1996 foi a de capacitar o então território de Macau com uma instituição de ensino superior independente – não foi criar uma instituição que fosse tutelada por Portugal. Esta é uma transição natural, uma vez que esta é uma universidade diocesana, também. Faz todo o sentido que o bispo seja o magno chanceler. Sendo que a gestão da universidade é do reitor.
– Está em funções apenas desde Outubro do ano passado. A Universidade de São José tem já uma história considerável em Macau, e também passou por momentos mais confusos do ponto de vista institucional e académico, nomeadamente com a demissão de professores e a afirmação de que a universidade pretendia que não houvesse uma vertente política no discurso académico. Hoje, a Universidade Católica mantém um afastamento em relação a esse tipo de decisões?
I.C.G. – Para a Universidade Católica, em Portugal, é extremamente difícil pronunciarmo-nos sobre matéria política que decorre de um país tão diferente e tão distante quanto é a China. Não vou fazer nenhum juízo de valor sobre questões de índole política, dizendo contudo o seguinte: as decisões que são tomadas na gestão das universidades são tomadas em contexto. O contexto de Macau é um contexto diferente do de Portugal, e as decisões tomadas pelas reitorias que eventualmente levem a decisões mais complicadas como a que referiu são determinadas por contextos específicos. Não me sinto confortável em comentar esses contextos. Não conheço exatamente as circunstâncias em que o processo decorreu. Devo apenas dizer que, sendo a gestão da universidade totalmente local, a Católica tem confiança na reitoria da Universidade de São José. Essa confiança manteve-se ao longo de todo esse processo.
– Como é que estas a Católica e a Universidade de São José vão cooperar do ponto de vista da internacionalização da sua atividade?
I.C.G. – Há duas estratégias que podem ser aqui de mútuo interesse. A Católica tem vindo a desenvolver uma estratégia de internacionalização que faz com que neste momento tenhamos 90 nacionalidades nos vários campus. Essa estratégia passa, por um lado, por colocar muitos dos nossos cursos no patamar da competição mundial em língua inglesa com aquilo que de melhor se faz na comunidade científica. Outra estratégia é também o estreitar dos laços com o mundo lusófono. Nesta relação, temos a estratégia de fazer a nossa interação, sobretudo, com parceiros no local. Temos uma rede de parcerias muito grande. Não entrámos sozinhos no Brasil, em Angola, em Moçambique, ou na Guiné-Bissau, onde estamos a apoiar a criação e desenvolvimento de uma Universidade Católica. Já existe e estamos a ajuda-la em termos de capacitação: livros e infraestruturas. Sendo que para nós a China é muito importante para reforçarmos o nosso lastro global, a Universidade de São José pode servir aqui de uma ponte nos dois sentidos: por um lado, para a relação com as universidades chinesas; e, ao mesmo tempo, através destas parcerias com Angola, Moçambique e Brasil, ajudar Portugal a ter uma relação mais forte com os países lusófonos. Sentimos que há aqui este fluxo que é de interesse para as duas instituições.
– Do ponto de vista científico, a ideia é haver especialização de alunos capazes de trabalhar nesses dois tipos de ambientes?
I.C.G. – Conseguimos potenciar a formação de alunos que sejam bilíngues. Ou seja, de alunos chineses que possam funcionar no espaço lusófono, tal como de estudantes lusófonos que possam também laborar em contextos chineses – na China, ou mediados através do mandarim. Sentimos que isso é muito útil. Vemos o mundo como multilíngue. Diz-se muitas vezes que o inglês é o novo latim – é certamente. Esse é um campeonato que todos temos de jogar para sermos relevantes. Mas é importante que se reconheça que há também uma rede do conhecimento que se faz através do português que é muitíssimo relevante. Uma coisa não exclui a outra – temos de estar nos dois campos.
– A Universidade de São José tem o obstáculo de não poder receber alunos da China. Há algo que indique que isso pode mudar?
I.C.G. – Das conversas que pude ter com as autoridades da RAEM, ficou muito claro que há uma vontade muito grande e deliberada de resolver a situação a breve trecho. O que esperamos é que essa situação seja desbloqueada. Da parte da RAEM, essa vontade foi expressa de forma muito clara. A universidade tem sobrevivido e laborado bem até aqui sem alunos da China, mas tendo em conta o contexto geográfico em que estamos não é só desejável como expectável que a universidade possa de facto vir a receber alunos da China continental. Até porque o contexto de estudantes da Universidade de São José traz uma mais-valia para estudantes que nunca saíram da China: não só o modelo de ensino é internacional, como tem a chamada sala de aula internacional – temos alunos de muitas nacionalidades.
– Muitas universidades com uma vertente internacional – e sobretudo do mundo anglófono – têm vindo a criar programas duplos com universidades da China. Isso está nos planos da Católica?
I.C.G. – Aquilo que temos no horizonte é a preparação de alguns programas em duplo grau com Macau – não com a China. Com a China temos um conjunto de protocolos de intercâmbio e de investigação. A Global School of Law, a escola de direito internacional que temos em Lisboa, faz parte de uma liga internacional que é a Law Schools Global League, com as melhores escolas de direito a nível mundial e onde estão uma série de universidades chinesas. Temos parcerias estratégicas com universidades chinesas como a Tsinghua nesta área. Neste momento não estão no horizonte graus duplos com universidades da China continental. Com a Universidade de São José vamos ter um mestrado conjunto em ensino de português como língua estrangeira. Queremos outras áreas que vamos explorar, como as ciências. Temos também um MBA em conjunto, entre a Católica Porto Business School, a Faculdade de Economia e Gestão da USJ, e a PUC-Rio e a Universidade Católica de Angola.
– Como funcionará a mobilidade na pós-graduação em direito?
I.C.G. – Há um mestrado que está em fase de acreditação com a escola do Porto da Católica na área da legística para formação pós-graduada de juristas. Outro aspecto que gostaríamos de explorar é uma pós-graduação não-conferente de grau, os chamados LLM, Legal Masters, que funcionam um pouco como os MBA mas para a área do direito. Está a ser estudada a hipótese de implementar em Macau esses LLM na área do direito transnacional.
– Pretende-se que haja também colaboração na área da biotecnologia.
I.C.G. – Estamos a abrir a porta para a relação entre o Instituto de Ciências do Ambiente da Universidade de São José e a nossa Escola Superior de Biotecnologia.
– Passará por colaboração na investigação?
I.C.G – Investigação e depois avançar também para alguns cursos que temos em funcionamento no Porto, explorando hipóteses de desenvolvimento desses cursos em Macau. Mas o objetivo prioritário é a área da investigação.
– Poderá haver mudanças no financiamento da Universidade de São José no sentido de aceder a mais fundos públicos de Macau?
I.C.G. – Nós gostaríamos que assim fosse. Mas o futuro a deus pertence. Só posso deixar aqui a vontade de que tal fosse o caso. Mas depois da mudança para o novo campus certamente que o reitor da universidade terá possibilidade de discutir novas formas de desenvolvimento com o Governo da RAEM. Seria certamente muito bem-vindo.
– É uma discussão que está a ser mantida?
I.C.G. – Não é uma discussão que está a ser mantida. Pode vir a acontecer. Como é óbvio, o ensino superior é caro, seja em que lado do mundo for – sobretudo numa universidade que está em fase de desenvolvimento, como a USJ. A USJ tem muito espaço para se desenvolver, e isso faz-se com fundos. Tem de se explorar a forma como esses fundos serão angariados – se através de propinas ou outro tipo de financiamentos. Tem de se diversificar e olhar para o futuro com optimismo. Se o Governo quiser colaborar é extraordinário.
– O que não desobrigaria a Universidade Católica?
I.C.G. – Não. A universidade está criada por duas entidades – a Diocese de Macau e a Universidade Católica. Nós acompanhamos a universidade, que – volto a dizer – não é tutela da Católica. Não estamos a falar num alargamento da participação, de tornar a universidade pública. Uma coisa não tem que ver com a outra. A Católica em Portugal não recebe nenhum financiamento público, mas é altamente competitiva na captação de financiamento de investigação público porque a lei assim o permite. A questão de a Católica ser fundadora não tem nada a ver com o financiamento da universidade aqui.
Maria Caetano