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Economia cai por arrasto

A crise política, que coloca o governo brasileiro em risco desde que o resultado da última eleição presidencial foi anunciado, tornou-se numa bola de ferro amarrada nos pés de Dilma Rousseff e dos seus aliados, que bloqueia decisões sobre a política económica do Brasil, um país cada vez mais abalado pela recessão, segundo especialistas consultados pela agência Lusa.

A nação sul-americana, que já foi apresentou das taxas de crescimento mais elevadas do mundo, viu o seu Produto Interno Bruto (PIB) encolher 3,8%, a taxa de inflação subir para 10,67%, e o número de desempregados atingir mais de 9% da população ativa em apenas um ano.

São muitos os fatores que explicam esta derrocada fulminante. Para David Fleischer, cientista político da Universidade de Brasília (UnB), “a crise política reduziu a confiança do setor privado neste governo a zero”, os investidores deixaram de investir e tecnologias inovadoras não foram mais lançadas, o que “ajudou a provocar a crise económica”.

Já Silvio Campos Neto, economista sénior da Tendências Consultoria, uma empresa especializada em análise de assuntos financeiros, comentou que, há pelo menos dois anos, o Brasil dava sinais de que se aproximava de uma “tempestade perfeita”. Não se sabia, porém, que os problemas seriam acentuados por disputas de poder tão violentas e por fatores imprevisíveis, como as denúncias da Operação Lava Jato, que investiga esquemas de corrupção em grandes empresas, incluindo a gigante petrolífera estatal Petrobras.

Para o economista, o quadro atual demonstra um desgaste tão grande, que só poderia ser abrandado por uma mudança de gestão. “Não vejo outra saída além do surgimento de um fator novo, que neste caso seria a aprovação do ‘impeachment’ (destituição) da presidente Dilma Rousseff. Só isso poderia atenuar o clima negativo que vivemos hoje”, avaliou.

Sobre este tema, o analista político da UnB frisou que “o mais importante é restaurar a confiança do setor privado, tanto nacional como internacional, para voltar a investir e contratar mais gente”. Mas, para “reverter a crise económica, você tem de reverter a crise política primeiro”.

O Brasil continua a ser um dos BRICS, grupo que engloba os cinco emergentes (Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul), tem um mercado interno de 204 milhões de habitantes, é rico em recursos naturais e indústrias inovadoras, mas tem perdido capacidade de atração porque agentes do mercado interno e externo estão muito inseguros quanto ao futuro.

Neste momento, as três agências de ‘rating’ principais – Fitch, Moody’s e Standard & Poor’s (S&P) – baixaram a nota de crédito do Brasil para a categoria de “lixo”, travando muito investimento no país, porque grande parte dos investidores seguem as recomendações destas instituições.

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Em 2014 os investimentos públicos e privados caíram 4,5 por cento no país. No ano passado, a queda foi ainda mais drástica e houve um recuo de 14,1 por cento. “Se o governo atual se manter no poder, a previsão é de que os investimentos caiam 19 por cento este ano e 0,7 por cento em 2017. Quanto ao PIB, nós trabalhamos com uma projeção de queda de 4 por cento neste ano se houver o ‘impeachment’, e com um recuo de 6 por cento se o governo não for trocado”, indicou Campos Neto.

David Fleischer, da UnB, destacou que os problemas mundiais da economia também contribuíram para a recessão no Brasil, citando a queda do preço dos ‘commodities’ (matérias-primas), principalmente do minério de ferro, da soja e do milho, o que levou a receita dessas exportações a derrapar. No entanto, o especialista lembrou que o governo de Dilma Rousseff tentou responsabilizar exclusivamente a economia internacional pela crise do país, ignorando que existem fatores internos do que externos que alimentaram os problemas do Brasil.

Neste contexto, continuou, “logicamente”, o Governo deveria reduzir os gastos, “mas a Dilma [Rousseff] não quer reduzir as despesas, que até estão a aumentar”. O Executivo está inclusive a prever fechar o ano com um défice primário de 96,7 mil milhões de reais (26,2 mil milhões de dólares), explicou o analista político.

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Além da recessão, a Presidente brasileira enfrenta um pedido de ‘impeachment’ antes mesmo de completar metade do segundo mandato e está cada vez mais encurralada pela oposição e pela rejeição crescente da população. Dilma Rousseff está acusada de crimes de responsabilidade ao aprovar as chamadas “pedaladas fiscais”, atos ilegais que autorizaram de adiantamentos de dinheiro de bancos e empresas estatais para os cofres do Governo, mascarando o resultado das contas públicas.

A Presidente também é contestada por ter sancionado decretos para a concessão de incentivo a órgãos do governo sem a aprovação do Congresso e de manter dívidas não contabilizadas. O processo de ‘impeachment’ analisado por uma comissão especial do parlamento cita, ainda, que a Presidente teria favorecido a nomeação de agentes envolvidos nos desvios de dinheiro da Petrobras, que estão sendo investigados pela Operação Lava Jato.

Desde o ano passado, milhares de brasileiros começaram a sair às ruas se manifestando contra o crescimento dos preços dos combustíveis e dos produtos nos supermercados. Os atos foram subindo de tom à medida que o nome da Presidente e de pessoas pertencentes ao seu movimento político, o Partido dos Trabalhadores (PT), incluindo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, têm sido ligadas a crimes investigados pela Operação Lava Jato.

Também foram organizadas manifestações de apoio à Presidente e ao seu antecessor e mentor político Lula da Silva. Nas ruas às redes sociais cresce uma profunda divisão na população, bem como a manifestação da insatisfação em relação à economia e os políticos, que imobilizaram o país e o tornaram num grande caldeirão com potencial para explodir a qualquer momento.  

Carolina de Ré e Andreia Nogueira

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