PRÉMIO CRAVEIRINHA 2014 É ANORMAL - Plataforma Media

PRÉMIO CRAVEIRINHA 2014 É ANORMAL

 

Distinção de Luís Bernardo Honwana, “escritor de um só livro”, causou surpresa em Moçambique.

 

Depois da atribuição a Luís Bernardo Honwana do Prémio Craveirinha 2014, espoletou um aceso debate na rede social Facebook. É que desde que publicou “Nós Matámos o Cão Tinhoso”, Luís Bernardo Honwana não mais nos trouxe um livro, facto que justifica a anormalidade, no sentido de pouco frequente, deste prémio que tem em conta a carreira.

O escritor é notícia em 2014 sobretudo por o seu único livro, o clássico da literatura moçambicana “Nós Matámos o Cão Tinhoso”, estar a completar 50 anos desde que foi editado. O Prémio José Craveirinha tem o valor pecuniário de 25 mil dólares norte-americanos e o seu patrono é a Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB).

“Não creio que não ter escrito outro livro seja um assunto que me deixe penalizado”, disse Luís Bernardo Honwana numa entrevista ao jornal A Verdade, em 2013. O prémio, que a Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) instituiu para consagrar os escritores moçambicanos e seus méritos, distinguia, inicialmente, em 2003, o que na ótica de um júri era a obra literária do ano, escrita em Moçambique.

É assim que ganharam Paulina Chiziane e Mia Couto, Armando Artur e Eduardo White, João Paulo Borges Coelho, Ungulani Ba Ka Khosa e Aldino Muianga. Entretanto, a partir de 2010 o Prémio Craveirinha consagra a carreira de um escritor com confirmados méritos no engrandecimento da literatura moçambicana, acrescentando seus nomes à lista de vencedores, neste contexto, Calane da Silva, Lília Momplé e, agora, Luís Bernardo Honwana.

“Sinto que, por uma questão de amizade, as pessoas gostariam de me ver a reiniciar uma carreira literária que deixei há 50 anos”, afirma Honwana.  Numa gala realizada em Maputo, Gilberto Matusse, professor universitário e especialista em literatura moçambicana, que presidiu ao júri que selecionou o autor de “Nós Matámos o Cão Tinhoso” para vencedor da edição deste ano do prémio, leu a deliberação desse júri, que entre outros méritos viu no livro um marco incontornável na história da literatura moçambicana, uma vez que ele se impõe “como elemento de rutura, que provoca uma agitação no estagnado panorama da ficção moçambicana da época”.

Do ponto de vista literário, os méritos de Luís Bernardo Honwana e do seu livro de contos, à cabeça o que o intitula, vão, conforme destaca o júri do Prémio Craveirinha, para a inovação da técnica e expressa por uma linguagem límpida sob a qual se escondem – sublinha – densos simbolismos e subtis ironias. Outro aspecto arrolado como mérito para o autor do “Cão Tinhoso” merecer o Prémio Craveirinha é o peso que a obra tem na literatura e na educação no nosso país. O livro foi eleito como principal fonte de textos de leitura obrigatória para os livros escolares logo após a independência nacional, tendo assim contribuído “para a formação e educação de gerações de moçambicanos”. No aspeto literário, o destaque vai para o facto de muitos escritores do pós-independência se terem influenciado pela escrita de Luís Bernardo Honwana.

O júri que o decidiu distinguir viu na carreira de Honwana um percurso literário e cultural de todo o Moçambique. Fez menção da consagração do escritor e do nosso país a nível do continente, em que “Nós Matámos o Cão Tinhoso” consta (com Mia Couto, por “Terra Sonâmbula”) da honrosa lista dos 100 melhores livros africanos no século XX. Foi também consagrado em outras latitudes deste mundo, através de traduções e de prémios. A completar o quadro de méritos que convenceu o júri liderado por Gilberto Matusse a dar o Prémio Craveirinha a Luís Bernardo Honwana está o percurso do escritor no panorama cultural nacional. O facto de o autor ter também contribuído para o desenvolvimento da cultura moçambicana através da sua ação como jornalista, homem de cultura e de causas nacionalistas e como dirigente pioneiro e com papel fundador e estruturador em pelouros deste domínio.

Honwana foi primeiro secretário de estado da Cultura, primeiro-ministro da Cultura e primeiro presidente do Fundo Bibliográfico da Língua Portuguesa.

 

*Abdul Sulemane/Savana, Moçambique

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