“PELO MENOS UMA” OPERADORA DE JOGO EM RISCO DE PERDER CONCESSÃO - Plataforma Media

“PELO MENOS UMA” OPERADORA DE JOGO EM RISCO DE PERDER CONCESSÃO

 

Existe a probabilidade de entrada de “pelo menos” uma nova operadora de jogo no mercado com a renovação das licenças, que expiram entre 2020 e 2022, defendeu em entrevista ao Plataforma Macau Ben Lee, sócio-gerente da consultora IGamiX. A empatia com Pequim, diz, será um fator decisivo. Ao constatar que a queda das receitas dos casinos decorre da pressão exercida do outro lado da fronteira sobre os grandes apostadores, o consultor prevê que o setor seja mais controlado futuramente para que o crescimento económico local abrande e esteja alinhado com o da China continental.

 

PLATAFORMA MACAU  – As receitas dos casinos voltaram a cair. Qual é a análise que faz desta situação?

BEN LEE – Nós também tínhamos previsto que iam cair e em todos os segmentos. No segmento VIP, as razões são óbvias, porque estes grandes apostadores já não se sentem confortáveis em vir jogar a Macau. E o segmento de massas regista uma queda nas receitas apesar do número de visitantes estar a aumentar e esse é um dado interessante. Isto verifica-se porque o crescimento do mercado de massas estava a ser gerado pelo mercado de massas premium, que, na realidade, é constituído pelas mesmas pessoas que costumavam jogar nas salas VIP, que não são da classe média chinesa, contrariamente a opiniões e comentários que têm surgido. No entanto, estas pessoas já não querem jogar nas salas VIP por causa do combate à corrupção e estão a jogar em espaço aberto para não serem identificadas nas salas VIP.

 

P.M.  – Porque é que acha que os jogadores VIP já não se sentem confortáveis em Macau?

B.L. – A China está a monitorizar tudo. Até recentemente, eles pensavam que simplesmente mudando-se das salas VIP para as zonas do jogo de massas se estavam a proteger, “escondendo-se” ao jogar em áreas abertas, mas aperceberam-se de que a capacidade das autoridades para os monitorizar é mais tenaz do que esperavam. Tem havido histórias de jogadores que têm sido colocados em listas negras porque estavam a usar vistos de trânsito.

Ao contrário do que estava a ser “vendido” aos investidores a meio do ano, de que a redução dos vistos de trânsito não teria impacto no segmento de massas, isso está a ter efeitos, porque os jogadores estavam a abusar desta abertura, estavam a voar para um país terceiro, por exemplo a Tailândia (Banguecoque) e Vietname, e no mesmo dia voavam para Macau e dessa forma conseguiam um máximo de duas semanas de estadia aqui. Estavam, portanto, a abusar do sistema e agora estão cientes de que a China os está a monitorizar. Há informação a sair de que jogadores estão a ser colocados em listas negras, este é o fator número um. O número dois é a questão da UnionPay. Apesar de não haver informação sobre novas medidas, além de as máquinas da UnionPay terem sido retiradas das salas de jogo, as suas lojas continuam nos casinos, mas o que se diz no terreno é que também elas sairão até ao fim do ano. Os jogadores que usam estes sistemas para contornar os obstáculos regulatórios estão agora cientes de que a China está a monitorizar quem abusa do sistema. Também há informações de jogadores que viram as suas contas congeladas na China por sobreutilização em Macau.

 

P.M.  – Os jogadores VIP estão a ir para outros mercados?

B.L. – Estão a tentar ir para mercados como o Vietname e a Coreia, e para outros de longa distância como Las Vegas e Austrália, mas não terão outra opção a não ser regressar a Macau nos próximos dois ou três anos, pois não há soluções viáveis fora de Macau que vão ao encontro dos seus requisitos. Macau é conveniente, é chinês, a língua, a gastronomia, o entretenimento, eles sentem-se aqui confortáveis. Se forem para Manila terão de falar inglês. Há uma ou duas jurisdições que preenchem os requisitos, mas não têm capacidade neste momento. Com a nossa atividade empresarial e o nosso serviço, vimos a maior explosão dos últimos dez anos de interesses de jogo para fora de Macau, nomeadamente para a região asiática. Todos os operadores em geral e até algumas das operadoras de jogo estão a olhar para a possibilidade de abertura de casinos fora de Macau. E o que isso me diz é que eles veem uma enorme necessidade destes jogadores de irem para destinos alternativos. Estes operadores nunca geriram casinos, mas de repente estão disponíveis para investimentos multimilionários nessa área. Isso diz alguma coisa.

 

META DE UM DÍGITO

P.M. – Qual acha ser o objetivo da China com esta pressão sobre os jogadores VIP, sabendo que este segmento gera a maior parte das receitas em Macau e que o território está dependente deste setor?

B.L. – Abrandar o ritmo de crescimento. Fizeram-no e vão fazê-lo no fim do ano. Recordemos que no início do ano estávamos com um crescimento de cerca de 20%. Apesar de a China ter alertado Macau para controlar o ritmo de crescimento, de modo a estar em linha com as suas próprias projeções económicas, de 7,5%, o que acabou por se verificar foi completamente diferente. A China deu algum tempo a Macau no início do ano para ver se fazia alguma coisa e não fizemos e, por isso, decidiu avançar para fazer com que o crescimento do jogo abrande para um dígito, que sempre foi o seu objetivo.

 

P.M. – E porquê?

B.L. – Ponho-me no lugar deles: Macau cresce 20%, o PIB [Produto Interno Bruto] da China cresce 7,5%. Alguma coisa está errada, porque o crescimento de Macau está dependente da China, então porque cresce a 20%, enquanto eu tenho um crescimento de um dígito? Deve haver transferência ilegal de dinheiro, corrupção, muita coisa, não é um crescimento de mercado orgânico, não é um crescimento natural, então é preciso corrigir isso.

 

P.M. – Prevê que esta situação se mantenha a longo prazo?

B.L. – A China vai continuar a longo prazo a intervir indiretamente se tiver de o fazer, como tem feito, mas não diretamente porque Macau é supostamente uma região autónoma.

 

P.M.  – Como acha que a China olha para o futuro de Macau no que toca ao setor do jogo?

B.L. – Isto é apenas especulação, mas sinto, com base em conversas que tenho com pessoas do outro lado da fronteira, que elas olham para Macau como um filho mimado, que tem tido um crescimento enorme da prosperidade, que tem muito e faz pouco pela China e que a única coisa real que deu à China foi publicidade negativa ao nível da imprensa internacional. Portanto, se estivéssemos numa posição de autoridade no outro lado da fronteira, pensaríamos: ‘aqui estamos nós a dar a esta região autónoma tanto apoio, mas temos pouco reinvestimento na China, temos pouca empatia do outro lado da fronteira em relação ao nosso povo, que tem contribuído para a economia de Macau e, apesar desta prosperidade toda, a preservação da harmonia e da estabilidade já não é assim tão clara, pois temos assistido a uma insatisfação em relação ao super-crescimento que Macau tem experienciado’.

 

MAIOR CONTROLO

P.M.  – E o que espera do futuro deste mercado?

B.L. – Será mais controlado, não será mais o laissez-faire a que temos assistido nos últimos anos e isso traduzir-se-á, não em menos receitas, mas numa menor taxa de crescimento.

P.M.  – Acha que isso se enquadra nos objetivos do Governo de Macau?

B.L. – É uma questão interessante. Depende de quais são os seus objetivos económicos. Não sei a resposta, porque ano após ano temos visto o Governo a prever um orçamento cerca de 40% abaixo do que acaba depois por se verificar. Tem havido muito pouca proatividade em termos da real diversificação económica, apesar da retórica. O Governo tem confiado nos operadores privados para o fazerem, mas eles têm um objetivo único: fazer o máximo lucro para os acionistas. Numa economia livre não lhes cabe decidir que é preciso gastar mais dinheiro em áreas extra jogo num exercício não gerador de receitas. Esse é o papel do Governo.

 

P.M.  – O Governo de Macau chegou a afirmar a intenção de reforçar o controlo sobre a atividade dos angariadores de grandes apostadores (junkets). Acha que isto se tem verificado?

B.L. – Não acredito que haja medidas nesse sentido nem que alguma vez vá haver. Historicamente, sabemos como o sistema junket funciona e nunca vimos qualquer ação real para restringir estas atividades. Se elas forem restringidas, diria que não haveria indústria do jogo em Macau. Vejo isto de forma prática.

 

P.M.  – E de que forma tem sido afetada a atividade dos junkets por esta pressão da China?

B.L. – Acredito que aprenderam a ser mais discretos, caso contrário, serão alvos. Vimos este ano alguns associados do grupo Neptune a serem detidos com alegações de lavagem de dinheiro, vimos ações semelhantes contra outros operadores como congelamento de fundos na China, detenções e interrogatórios. São lembretes constantes para não se afastarem muito das diretrizes que lhes foram transmitidas.

 

VER PARA CRER

P.M.  – O que espera em termos de crescimento das receitas de jogo para o global de 2014 e para 2015?

B.L. – Penso que o crescimento das receitas este ano deverá ser de um dígito. Estamos a viver um momento conturbado, mas acho que vamos assistir a uma recuperação no segundo trimestre do próximo ano. Fomos dos primeiros a prever no ano passado que a China ia agir e lançámos um forte alerta aos nossos clientes em novembro, dezembro, de que 2014 seria o ano em que a China iria fazer algo. Hoje digo que a China, tendo alcançado o que pretendia, vai esperar o resto do ano e avaliar o resultado final, se ele for um crescimento de um dígito, quando se tornar claro e evidente de que não haverá novas medidas no primeiro trimestre, então o mercado vai recuperar no segundo trimestre, mesmo a tempo da abertura da segunda fase do Galaxy.

 

P.M.  – Em relação à renovação das licenças de jogo, quais são as suas expectativas?

B.L. – É apenas especulação da minha parte. Acredito que a China vê isto como uma oportunidade para reajustar os lugares na mesa e para decidir quem deve ficar, quem não deve ficar e quem deve ser novo na mesa. Haverá certamente novas pessoas a querer um lugar na mesa. É uma oportunidade para o Governo e acredito que vai usá-la para rever e decidir se quer manter ou não as mesmas pessoas na mesa ou se usa esta oportunidade para trazer novas pessoas. Acredito que há algumas operadoras que possam estar em risco – pelo menos uma – e que as probabilidades de termos, pelo menos, uma nova cara na mesa vão ser maiores para refletir o objetivo da China de ter mais interesses locais representados. Dependerá de como as coisas correrem nos próximos três, quatro anos em Macau e lá fora. O Governo vai avaliar a relação e o comportamento das seis concessionárias. Julgo que o critério decisivo será a sua relação com o Governo de Macau e com Pequim e o seu nível de demonstração de patriotismo. Certamente que precisam de demonstrar empatia com Pequim.

 

Patrícia Neves

 

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