JOSÉ CAPELA: UMA VIDA PELA HISTÓRIA - Plataforma Media

JOSÉ CAPELA: UMA VIDA PELA HISTÓRIA

 

Faleceu no dia 14 de setembro o historiador José Soares Martins, conhecido nos meandros científicos como José Capela. O autor de vários livros sobre o período do comércio de escravos em Moçambique foi vítima de doença prolongada.

Nascido a 25 de março de 1932 em Arrifana, Vila da Feira, José Soares Martins terminou o curso de Teologia no Porto em 1954 e veio para Moçambique em 1956. Trabalhou primeiro como chefe de Redacção do “Diário de Moçambique” (Beira) e, em 1959, foi nomeado director-adjunto do mesmo jornal. Soares Martins rapidamente tornou-se um dos maiores dinamizadores da imprensa publicada em Moçambique, tendo fundado o semanário “Voz Africana”(Beira, 1962) e a revista “Economia de Moçambique” (Lourenço Marques, 1963). Exerceu funções de Adido Cultural na Embaixada de Portugal em Maputo de 1978 a 1996, mantendo uma intensa atividade enquanto investigador na área da história que é ainda hoje referência para estudantes e estudiosos.

Mais recentemente, já no Porto, foi investigador do Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto. José Capela centrou a sua atenção e pesquisa na questão do tráfico de escravos em Moçambique e na análise das relações sociais desenvolvidas na Província da Zambézia. Autor de uma vasta bibliografia histórico-social, entre os seus trabalhos mais emblemáticos destacam-se “Moçambique pelo seu povo” (cartas dos leitores publicadas no Diário de Moçambique), “Escravatura, a empresa de saque”. “O abolicionismo, 1810-1875”, “Donas, senhores e escravos”, “O tráfico de escravos nos portos de Moçambique” e o volume recente “Delfim José de Oliveira” e “Diário da viagem da colónia militar de Lisboa a Tete, 1859-1860”.

José Capela teria merecido maior atenção por parte de ambas as repúblicas, ainda que tenha sido alvo de justificada atenção. Em 1997, foi sondada a Universidade Eduardo Mondlane para que lhe fosse atribuído um ‘honoris causa’. Algo que não aconteceu por meras razões políticas, ainda que Soares Martins fosse uma personagem respeitada no país. Mas teria sido então o primeiro ‘honoris causa’ dado pela UEM e isso inviabilizou o facto – julgo que o primeiro foi alguns anos depois atribuído a Nelson Mandela.  Alheio a honrarias, mas historiador credor das leituras que lhe eram devidas, Soares Martins apenas sorriu ao facto.

Alguns anos depois, após o desencadear dos doutoramentos em Maputo, talvez alguma coisa pudesse ter sido feita de novo para potenciar o olhar sobre esta obra, a historiográfica e a existencial. Não houve – nem na academia moçambicana nem na diplomacia portuguesa – quem a induzisse.  Por iniciativa do Centro de Estudos Africanos da Universidade de Porto, de novo se levantou essa hipótese, significativa pois mais do que mera honraria, intentando um renovar do interesse pelo trabalho incessante que Soares Martins (Capela) sempre desenvolveu. Foi então proposta e aceite a atribuição desse grau por parte dessa Universidade. E então, após contacto desencadeado por admiradores da sua obra, também a Universidade Politécnica de Moçambique, decidiu atribuir esse título ao historiador. Mas as difíceis condições de saúde de Capela acabaram por impedir a atribuição de ambos os títulos.

 

SAVANA

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