CHUI SAI PENG QUER INVESTIMENTOS PÚBLICOS EM EMPRESAS ESTRATÉGICAS - Plataforma Media

CHUI SAI PENG QUER INVESTIMENTOS PÚBLICOS EM EMPRESAS ESTRATÉGICAS

 

A ideia de criação de um fundo soberano é apoiada pelo deputado e empresário José Chui Sai Peng, que, em entrevista ao Plataforma Macau, propõe investimentos públicos em companhias de água e energia no exterior para garantir as necessidades futuras do território. A diversificação da economia, defende, deve ser a grande estratégia do Governo para a próxima década, salientando a necessidade de Macau se abrir ao mundo e apostar num crescimento mais qualitativo.

 

PLATAFORMA MACAU – Como vê o facto de não termos mais candidatos a chefe do Executivo?

José Chui Sai Peng – Ninguém força ninguém a não se candidatar, toda a gente pode concorrer. Porque é que mais ninguém concorreu? Não sei. As pessoas que questionam a razão pela qual não há mais candidatos, porque não se chegam elas próprias à frente? Só uma pessoa tentou angariar apoio.

 

P.M. – Na sua perspetiva, seria bom haver mais do que um candidato?

J.C.S.P. – Há uma preferência em Macau pelo sistema que nos é familiar, portanto, pensa-se ‘conhecemos este candidato, podemos não concordar com ele totalmente, mas sabemos o que pensa, portanto, continuar a trabalhar com ele parece uma opção viável’. Ao não existir essa incerteza, a sociedade poupa energia para se concentrar em trabalhar em conjunto em prol de mudanças para melhorar algumas coisas e manter o que está bem.

 

P.M. – E qual a sua opinião sobre o referendo?

J.C.S.P. – O referendo em si é um termo que foi totalmente mal empregado. Na América, que é uma sociedade livre, já se ouviu falar de um referendo sem um processo político? Nunca. Esta situação revela que as pessoas de Macau não conhecem, de facto, o sistema político do mundo livre. Estamos a criar os nossos próprios animais, porque só aprendemos metade da realidade. Aprendemos a palavra, mas nunca aprendemos o seu significado. Talvez seja uma sondagem, mas é tendenciosa. Em todas as sociedades ditas livres, os cidadãos no seu juízo não podem organizar referendos. Porque não o fazem? Porque sabem que não é apropriado. Então porque é que se o mundo civilizado não o faz, nós o fazemos? Significa que não somos civilizados o suficiente? Ou significa que não estamos a aprender o suficiente do mundo? Temos de aprender mais. Estamos a usar um termo e a dar-lhe a nossa própria definição, que não é a sua definição comum. Estamos então a usar a palavra, mas não o seu significado.

 

P.M. – Acha que Macau poderá um dia vir a ter sufrágio universal?

J.C.S.P. – Acho que a sociedade tem de crescer. E concordo com o Governo central a este respeito, é preciso dar um passo de cada vez. Olhamos para Hong Kong e vemos como é uma sociedade tão dividida. Temos, por um lado, pessoas a protestar e, por outro, pessoas a protegerem o sistema. É algo que queiramos? Isto é bom? É um passo em frente ou para trás? Se as pessoas não concordam umas com as outras, como se podem respeitar? Não estamos a respeitar-nos porque nem estamos numa fase em que somos capazes de tolerar diferentes opiniões. Então quando crescermos o suficiente e tivermos experiência suficiente, passo a passo poderemos mudar isso. Hong Kong é um exemplo óbvio. Desde que se discute a questão do sufrágio universal, a sociedade está mais dividida do que andou em frente. Nós queremos uma sociedade que ande em frente ou queremos uma sociedade dividida?

 

P.M. – Em que áreas deve Macau apostar para diversificar a economia?

J.C.S.P. – Devemos desenvolver o que está associado à indústria do jogo e do turismo, não podemos afastar-nos destas áreas para já, mesmo que não queiramos depender muito delas, mas agora não podemos reestruturar a sociedade de forma brusca e deverá demorar cinco a dez anos até vermos alguns resultados.

Temos de ser um pouco pacientes e penso que a promoção das indústrias culturais é uma das áreas em que devemos aplicar mais energias. A discussão deverá focar-se mais sobre que nichos queremos desenvolver e temos de olhar o mundo como o nosso mercado. Tudo relacionado com a propriedade intelectual é criatividade e todas estas coisas penso que poderemos explorar, utilizando o nosso background cultural e o nosso talento.

O Governo também pode fazer muito, encorajando as pessoas a tentar e premiando os que conseguem obter resultados. Devemos tentar definir uma política, chamando pessoas de fora para partilharem as suas experiências ou ajudarem-nos e não devemos olhar só para dentro. Devemos ser mais abertos ao mundo, ver como ele está a operar e sermos um player na cena internacional.

 

P.M. – Acha que o Governo e as empresas estão a explorar bem este papel de Macau como plataforma entre a China e a lusofonia? 

J.C.S.P. – Penso que podemos aumentar os esforços. Os países de língua portuguesa estão a estabilizar-se politicamente, portanto, há boas oportunidades de negócio para Macau e para a China. E espero que mais pessoas possam aprender português, julgo que isso ajudaria Macau.

 

CRESCIMENTO QUALITATIVO

P.M. – Como avalia esta primeira fase de desenvolvimento de Macau e que requisitos o Governo deve agora exigir às operadoras de jogo?

J.C.S.P. – Penso que, nos primeiros 15 anos, Macau transformou uma economia que era muito má e, nesse processo, temos de sacrificar escolhas. Procurámos conseguir quantidade e agora começamos a olhar para a qualidade.

Os últimos 15 anos não foram assim tão brilhantes. Nunca tivemos uma economia que se tão transformasse tão depressa. Claro que beneficiámos do nosso desenvolvimento interno, mas também do crescimento generalizado da economia chinesa. Como Macau é uma economia tão pequena, temos de ter muito cuidado. Por um lado, preocupamo-nos em engordar, mas no minuto seguinte podemos estar preocupados com o facto de não conseguirmos o suficiente para alimentar as pessoas. E não é fácil equilibrar isto.

Macau está a tornar-se num homem de tamanho médio, então temos mais espaço de manobra. Nos próximos dez, 15 anos, devemos olhar para um crescimento mais qualitativo do que para um crescimento massivo em termos quantitativos. As pessoas hoje estão numa melhor situação económica, têm melhores rendimentos, portanto, devemos procurar um crescimento melhor e tentar diversificar a economia, não dependendo tanto da indústria do jogo e usando o nosso dinheiro de forma sábia.

Muita gente propõe a criação de um fundo soberano como o Temasek de Singapura, provavelmente devemos pensar nisto. Em vez de se investir tudo em Macau, poderíamos investir noutros locais para garantir as nossas necessidades, por exemplo, de água e energia.

Hoje estamos à mercê de outros e poderíamos pensar em usar o dinheiro público extra que temos no Tesouro para começarmos a proteger os interesses da população de Macau num sentido mais global e regional. Podíamos pensar, por exemplo, em investir nas companhias de água à nossa volta, na cadeia de alimentação, podemos ser os produtores, os transportadores, acionistas destas empresas senão os donos. As pessoas preocupam-se com o fornecimento de alimentos, podemos ajudar-nos, ajudando-nos a nós próprios, estando nesta cadeia de alimentação. Estes são todos negócios que Macau pode promover e onde o Governo pode usar o dinheiro de forma sábia. Precisamos de energia, preocupamo-nos com isto, então porque não fazemos algo? Porque não investimos em energia para termos rendimentos do nosso investimento? No fim, se calhar ainda se revela mais rentável do que o jogo. Temos de começar a pensar nesta direção e consultar especialistas, porque não podemos decidir tudo por nós. Temos de controlar o nosso destino, mas não temos de fazer tudo sozinhos. Temos de começar por pensar em como usar o nosso dinheiro de forma sábia.

Nos primeiros 15 anos, procurou-se ganhar dinheiro para que fosse suficiente para ser um recurso com impacto. Agora que temos algum, temos de pensar em como o usar de forma sábia, em vez de ficarmos sentados à espera que a indústria do jogo nos dê mais rendimentos para ser mais dominante. Devemos tentar, pelo menos, ter outras fontes de rendimento, poderão não ser substanciais no início, mas, pelo menos, será um passo na direção certa.

 

P.M. – Como vê a queda nas receitas de jogo? 

J.C.S.P. – Penso que um abrandamento oferece-nos a possibilidade de pensar no que devemos fazer e dá-nos um aviso de que nem todos os dias são bons e que precisamos de começar a perceber que não somos invencíveis, mas somos como qualquer sociedade que tem altos e baixos. Estamos num ciclo de crescimento que se pode inverter a qualquer momento. A economia está tão fora do nosso controlo, porque Macau é muito pequena. Qualquer coisa que aconteça com os nossos vizinhos poderá afetar-nos muito e, por isso, temos de estar em alerta constante e este pequeno abrandamento ajuda-nos a estar alerta.

 

P.M. – Não há razão para preocupações, para já?

J.C.S.P. – Acho que não temos de nos preocupar ainda, mas penso que devemos tentar diversificar a economia, porque o ambiente económico está a mudar. Há alguns anos que já falamos disto, mas agora devemos acelerar o passo nessa direção.

 

P.M. – O FMI alertou para o risco de uma bolha imobiliária. Considera que ele existe?

J.C.S.P. – Acho que o FMI fez uma boa avaliação da situação em Macau. Claro que as pessoas precisam de uma casa para viver. Mas querem uma casa para viver ou querem ser donos de uma casa? Isso é uma questão muito importante e julgo que deve ser debatida para decidirmos se queremos aprender com o exemplo de Singapura ou da China. Na China sempre se considerou o imobiliário como investimento. Mas em Singapura definiu-se que a habitação seria um bem acessível a todos. Mas o Governo é muito astuto, não coloca as pessoas dependentes de si, mas ajuda-as a poupar. Então, cada vez que se ganha um salário, cerca de 30% dos rendimentos vão para um fundo de pensões, que o Governo permite que seja utilizado para a compra de casa. Talvez possamos aprender mais com a experiência de Singapura.

Em Macau, compra-se uma casa porque se quer fazer mais dinheiro. Em Singapura, querem que as pessoas invistam não no imobiliário, mas noutros setores do mercado.

Aqui, quanto mais energias forem colocadas no mercado imobiliário, mais os preços sobem e o Governo deverá concentrar-se mais nos recursos que temos e avaliar a situação a longo prazo, porque se os preços sobem e baixam, um dia temos um problema de falta de casas e no outro temos casas a mais.

 

P.M. – Acha que os preços continuarão a subir?

J.C.S.P. – É difícil prever, porque esta situação é influenciada pelas receitas do jogo. Se as receitas abrandarem, os preços vão baixar. As coisas estão a mudar e, por isso, o conselho que dou às pessoas é se precisarem de uma casa, comprem, mas se pensam em comprar para ganhar mais dinheiro, então tenham muito cuidado. Não vale a pena pensarmos que as coisas nunca vão abrandar, vão. Os americanos estão a falar de aumentar as taxas de juros em 2015 e isso vai afetar-nos muito também.

 

Patrícia Neves

 

Este artigo está disponível em: 繁體中文

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