“QUEREMOS MAIS COOPERAÇÃO COM PARCEIROS REGIONAIS” - Plataforma Media

“QUEREMOS MAIS COOPERAÇÃO COM PARCEIROS REGIONAIS”

A indústria das convenções e exposições (MICE) está em franco crescimento em Macau, mas precisa ainda de mais uma década para atingir o pleno desenvolvimento, diz Alan Ho Hoi Ming, vice presidente da Associação de Convenções e Exposições de Macau. O setor deverá conhecer novo impulso quando os megaprojetos atualmente em construção no Cotai abrirem portas, mas é necessário aproveitar a fase de expansão para criar as condições para um desenvolvimento saudável. Resolver a falta de recursos humanos e apoiar as pequenas e médias empresas locais é crucial para a sustentabilidade do setor, diz o também membro da Comissão para o Desenvolvimento de Convenções e Exposições.

PLATAFORMA MACAU – O setor das convenções e exposições é uma aposta para a diversificação da economia de Macau. Como é que a indústria está a crescer?

ALAN HO – Neste momento, estamos ainda numa fase de desenvolvimento e suponho que serão ainda necessários alguns anos para atingirmos o desenvolvimento que se procura. Penso que o crescimento do setor pode ser dividido em quatro fases. A primeira, entre 2002 e 2006, foi uma fase embrionária em que o setor se estava a preparar para o desenvolvimento que se antecipava. O ano de 2007 marcou o arranque desse desenvolvimento e, durante três anos, assistimos a um enorme salto em termos de atividade. Em 2010, foi criada a Comissão para o Desenvolvimento de Convenções e Exposições, organismo que veio dar um novo impulso ao setor. Estamos agora na fase de crescimento que prevejo que irá durar até 2025, ano em que a indústria deve finalmente estar consolidada. Resumindo, são necessários mais 11 anos para a indústria atingir o pleno desenvolvimento.

 

PM – Depois da fase de expansão, entre 2007 e 2010, como é que o setor se está a adaptar ao rápido crescimento económico de Macau?

A.H. – A indústria das convenções e exposições tem sido um dos setores que mais tem crescido em Macau nos últimos anos. Cerca de 1.030 eventos – incluindo conferências e exposições – foram organizados em Macau no ano passado, comparado com 245 eventos em 2001. O modelo segundo o qual a indústria se está a desenvolver está gradualmente a mudar e há agora uma maior aposta na qualidade dos eventos e não tanto na quantidade. Dados oficiais indicam que o número de participantes em convenções e exposições ultrapassou os dois milhões no ano passado, o triplo do registado em 2009. Um estudo feito pela Associação de Gestão de Macau demonstra que a indústria contribuiu com 3,5 mil milhões de patacas [441,3 milhões de dólares norte-americanos] para a cidade em 2012.

 

PM – Entre reuniões, incentivos, convenções e exposições, qual o segmento que está a crescer mais rápido?

A.H. – Macau tem atualmente infraestruturas de classe mundial para acolher convenções e exposições. Estes espaços estão equipados com tecnologias e equipamentos para servir vários tipos de eventos e acomodar as necessidades dos organizadores.

É difícil dizer qual o setor que se está a desenvolver melhor. É mais fácil organizar grandes eventos em Macau, que tem uma excelente oferta em termos de espaços para convenções. Por outro lado, o segmento das exposições atrai outro tipo de benefícios, estimulando a atividade de outras indústrias que lhes estão relacionadas. Contudo, um dos problemas que este segmento tem é que é difícil atrair compradores para Macau.

 

PM – Qual é a solução para tornar Macau um destino mais apelativo para este tipo de eventos e para visitantes de negócios?

A.H. – O Governo está a tentar captar mais eventos internacionais através de incentivos financeiros. O plano de estímulo prevê um conjunto de apoios financeiros às exposições elegíveis, suportando parte das despesas, como o arrendamento de recintos ou o alojamento de participantes. Isto vai impulsionar o setor. Empresas que acolhem este tipo de atividades disseram-me que esperam um aumento de 20% no número de eventos este ano.

 

PM – O Governo da RAEM tem apostado no setor e introduziu recentemente novas políticas de apoio financeiro. Este tipo de apoio é suficiente ou devem ser encontradas outras soluções para impulsionar a indústria?

A.H. – O Governo tem introduzido ao longo do tempo medidas para encorajar o desenvolvimento da indústria. As empresas têm sugerido a criação de um departamento específico para coordenar o setor e também a implementação de um mecanismo central para Macau concorrer à organização de eventos internacionais.

 

PM – Existe um mecanismo que facilita a atribuição de vistos para residentes da China continental que venham a Macau como visitantes de negócios para eventos selecionados. Esperam que a política seja alargada a mais eventos?

A.H. – A política permite que mais visitantes de negócios oriundos da China continental tenham a possibilidade de participar em eventos em Macau. Gostaríamos que alguns visitantes e expositores de relevo tivessem a possibilidade de obter vistos com múltiplas entradas.

 

PM – Macau procura também promover o intercâmbio com os Países de Língua Portuguesa. Como é que Macau pode atrair negócios e empresas destes países?

A.H. – Macau já desempenha esse papel. O Governo de Macau apoiou a criação do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, organismo que promove várias atividades em Macau e noutras regiões.

A nossa associação participa também na organização da Exposição de Promoção Dinâmica de Macau, a qual conta regularmente com membros dos Países de Língua Portuguesa. Representantes destes países são presença assídua em eventos deste tipo, nos quais procuram promover negócios com empresas da China continental. Os resultados têm sido francamente positivos.

 

PM – Que tipo de eventos em concreto deve Macau tentar atrair enquanto destino para convenções e exposições?

A.H. – Exposições de cariz internacional e profissional. Deve também tentar atrair grandes convenções e exposições da China continental, servindo como montra internacional para esses eventos.

 

PM – Mas Macau tem capacidade para competir a nível regional? Guangzhou e Hong Kong são já destinos de renome neste setor.

A.H. – Macau está ainda a desenvolver o setor e tem mais a ganhar se cooperar com outros centros regionais. Há que reconhecer que o mercado local tem limitações de espaço. Queremos que haja mais cooperação entre a indústria de Macau e os parceiros regionais.

 

PM – Houve um impulso no setor com o desenvolvimento de grandes hotéis e casinos no Cotai. Nos próximos anos, vários megaprojetos vão continuar a abrir portas. Espera nova expansão do sector MICE quando essa oferta aumentar?

A.H. – Sem dúvida. Teremos à nossa disponibilidade mais recintos para eventos, maior oferta de quartos, de restaurantes, centros comerciais e de entretenimento. Isto permitirá servir de forma mais adequada os clientes. A indústria em Macau tornar-se-á mais competitiva e poderá alargar a oferta.

 

PM –  A falta de recursos humanos é algo que preocupa o setor?

A.H. – O setor está agora focado em desenvolver projetos de qualidade e não está tão preocupado com a quantidade. Para desenvolver eventos de qualidade, que sejam reconhecidos como tal, a indústria precisa de profissionais com as qualificações certas nas áreas de gestão de eventos, marketing, finanças, design e línguas estrangeiras. Porém, há uma evidente falta de recursos humanos nestas áreas. O estudo feito no ano passado indica que mais de dois terços das empresas do setor tinham uma taxa de rotatividade de trabalhadores acima dos 20% nos 12 meses anteriores ao estudo. As empresas do setor das convenções e exposições não estão imunes ao problema dos recursos humanos e torna-se cada vez mais difícil encontrar trabalhadores com as qualificações necessárias para uma determinada posição. Para atenuar este problema, o Governo de Macau poderia atribuir subsídios às empresas para formação de pessoal, definir uma estratégia para atrair empresas e profissionais do exterior que contribuam para o desenvolvimento do setor, bem como apostar mais na educação e formação nesta área, coordenando esforços com instituições locais e em parceria com instituições da China continental.

PM – A associação apresentou um relatório ao Governo sobre o desenvolvimento do setor. Quais as principais conclusões e sugestões desse relatório?

A.H. – De acordo com o estudo, o setor contribuiu com cerca de 441,3 milhões de dólares para a economia de Macau em 2012. Também concluiu que o número de profissionais certificados para trabalhar no setor aumentou drasticamente. Porém, a indústria terá dificuldade em recrutar os 2.800 profissionais que necessitará nos próximos cinco anos. O setor tem crescido de forma sustentada nos últimos anos, mas devem ser implementadas mais medidas para resolver o problema dos recursos humanos. Também cumprimos com todos os critérios para organizar e promover eventos internacionais, mas o Governo deve adotar medidas agora que a indústria está em expansão para incluir as pequenas e médias empresas neste desenvolvimento.

 

Tiago Azevedo

 

VENETIAN GANHA APOSTA NAS CONVENÇÕES

A abertura do mega-resort integrado Venetian Macao em 2007 marcou um ponto de viragem na indústria das convenções e exposições (MICE, na sigla inglesa) em Macau, de acordo com várias fontes do setor.

A oferta ligada à indústria MICE proporcionada pela empresa Sands China, operadora que controla o Venetian Macao, continuou a aumentar desde então, especialmente com a construção de mais hóteis. Actualmente, e após a abertura do resort integrado Sands Cotai Central em 2012, a operadora oferece cerca de 9.000 quartos e perto de 120 mil metros quadrados de recintos equipados para receber eventos MICE em Macau.

“O investimento em toda esta infraestrutura foi significativo, mas foi uma aposta ganha”, diz Brendon Elliott, vice-presidente de vendas e marketing do Venetian Macao. “O desenvolvimento da indústria é crucial para a sustentabilidade da empresa e instrumental para alargar a própria oferta do grupo”, acrescenta.

Desde que abriu portas em agosto de 2007, o Venetian Macao já acolheu mais de 8.500 eventos e mais de sete milhões de participantes em eventos MICE, diz Brendon Elliott. “A oferta ajuda a promover Macau como um destino diversificado, que combina entretenimento, cultura e lazer com o turismo de negócios e MICE,” sublinha.

O executivo garante que a procura tem aumentado ao longo dos anos, não apenas provinda de Macau, mas também de clientes internacionais.

“Existe um aumento na procura de espaços para convenções e exposições e os nossos clientes são cada vez mais globais”, refere Brendon Elliott.

A maior parte provém do sector dos seguros, farmacêuticas, marketing direto e tecnologias de informação.

Em Macau, a operadora trabalha de perto com empresas privadas, associações do setor MICE e com o próprio Governo.

“O Governo é o nosso cliente mais importante, especialmente no que toca a promover a oferta de Macau”, salienta Brendon Elliott.

O Venetian Macao tem sido o espaço de eleição para várias exposições organizadas com a chancela do Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento de Macau, como a Feira Internacional de Macau e o Fórum e Exposição Internacional de Cooperação Ambiental de Macau.

“Estamos entusiasmados com o potencial da indústria”, refere Brendon Elliott, prevendo que a indústria MICE irá continuar a crescer com o desenvolvimento da zona do Cotai e os novos empreendimentos actualmente em construção.

“O setor não vai crescer apenas com o investimento da Sands China, mas também com o investimento dos outros operadores. Quantos mais estiverem no mercado e quanta mais promoção for feita, melhor é para a indústria. Porém, quem já está no mercado há alguns anos partirá de uma posição mais vantajosa para tirar partido desse crescimento”, diz o executivo.

Tiago Azevedo

 

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