MEDIA CHINESES GANHAM INFLUÊNCIA - Plataforma Media

MEDIA CHINESES GANHAM INFLUÊNCIA

Grandes meios de comunicação estatais chineses, como a CCTV e a Xinhua, estão a aumentar a sua presença em África, causando receios de um sistema de “jornalismo monolítico”. Em declarações ao Plataforma, o académico queniano Bob Wekesa desvaloriza essa “ameaça”.

 

Presentes desde 1986 em África, através do escritório de Nairobi da Xinhua, os principais medias estatais chineses aproveitaram a viragem do século para se implementarem num continente onde a China tem uma forte influência política e económica. O primeiro a instalar-se, no século XXI, foi a China Radio International (2006, Quénia), herdeira da extinta Radio Peking, que estava presente na África Austral desde a década de 1960, então, em apoio aos movimentos de libertação. Seguiram-se-lhe Star Times (Ruanda, 2007), People’s Daily (Joanesburgo, 2011), China Africa Magazine (África do Sul, 2012) e China Daily Africa, (Nairobi, 2013). E a CCTV Africa, em Nairobi desde 2012, poderá tornar-se, em breve, no primeiro media chinês com conteúdos produzidos exclusivamente fora da China.

Este forte contingente chinês tem sido encarado como representando um perigo para a tradicional influência em África dos meios de comunicação ocidentais, e outros, como a Al Jazeera, do Qatar. E de também poder representar a introdução de uma nova “filosofia de jornalismo” junto de largas audiências africanas. No entanto, num estudo sobre a CCTV Africa, divulgado pelo Center for Chinese Studies, da Universidade de Stellenbosch, na África do Sul, os seus autores afastam essa possibilidade, considerando que “não se pode concluir que, geralmente, o jornalismo chinês e o jornalismo da CCTV é monolítico”.

“Pensamos que que aqueles que se ‘opõem’ à presença dos media chineses estão, essencialmente, a polarizar a questão e, em vez disso, deveriam deixar que os media chineses se instalassem em África e tivessem sucesso ou fracassassem apenas pelas suas práticas editoriais”, escrevem Bob Wekesa e Zhang Yangqiu, autores do estudo “Live, talk, faces: an analysis of CCTV’s adaption to the African media market”, publicado em fevereiro de 2014.

Quando foi lançada em Nairobi, em 2012, a CCTV Africa tinha 50 funcionários quenianos e 14 correspondentes espalhados pela África do Sul, Nigéria, Somália, Uganda, Zimbabué, e Senegal, e anunciou planos para expandir o staff para 150 pessoas. Enquanto isso, na região, grandes conglomerados como a BBC e a France 24 anunciavam reduções de pessoal e fusões para reduzirem custos.

Mas a receção do canal público chinês não foi a melhor. “Agora, os jornalistas africanos da CCTV, especialmente os quenianos no coração da operação chinesa, têm que navegar na delicada rota entre reportar aquelas ‘histórias positivas’ e censurarem a sua própria cobertura”, previu Tom Rodes, consultor para África Oriental do Comité de Proteção de Jornalsitas (CPJ).

O estudo de Wekesa e Yangqiu incidiu sobre dois anos de emissões da CCTV Africa e tem como “conclusão interessante”, segundo os autores, a de que “as companhias chinesas não são cobertas” pelos medias chineses, “de nenhuma forma – sejam em termos promocionais ou de maneira investigativa”.

Num artigo posteriormente publicado no jornal sul-africano Business Day, Wekesa considerou infundados os receios de que a China está a exportar para África o sistema de controlo pelo Estado e pelo partido dos meios de comunicação social. “O argumento de que os medias chineses irão fazer regredir os ganhos de liberdade de imprensa em África é claramente ultrapassado. Em todo o caso, a China não apenas encorajou o estabelecimento dos meios africanos na China, como empresas sul-africanas, como Naspers e e.tv estabeleceram operações prósperas na China”, escreveu Bob Wekesa.

 

路易斯.安德拉德.德.薩

Luís Andrade de Sá

 

“CCTV Africa é como a CNN e a Al Jazeera”

 

Bob Wekesa, investigador queniano na Universidade de Witswatersrand, em Joanesburgo, África do Sul, considera que a ofensiva dos media chineses em África não deve causar receios. Em entrevista ao Plataforma Macau, Wekesa acrescentou que não faz muito sentido distinguir entre medias privados e estatais, para aferir a credibilidade jornalística de cada um deles.

 

PLATAFORMA MACAU – Escreveu que não devemos recear a presença dos media chineses em África. Mas é justo comparar meios de comunicação social estatais, como CCTV e Xinhua, com medias privados, seja a CNN ou a Al Jazeera, por exemplo?

 

BOB WEKESA – Sim e não. Sim, porque a CCTV e a Xinhua são organizações globais de notícias, tal e qual como a CNN e a Al Jazeera, e, por isso, desempenham um papel na formação da opinião. Os media globais chineses e os outros são idênticos porque têm uma agenda, a diferença é que as suas agendas diferem. O facto de os meios ocidentais têm como missão promover uma recolha e disseminação de notícias liberais significa que promovem certos valores, como a democracia. O facto de a CCTV e de a Xinhua promoverem valores como o não sensacionalismo, os feitos coletivos e o desenvolvimento da comunicação, significa que têm diferentes agendas. Mas ambos têm uma agenda.

Depois, a CNN pode ser um media privado, mas muitos estudos mostram que o canal apoia o governo dos Estados Unidos da América (EUA), sempre que há um conflito entre os EUA e outros países. Então, a CNN é privada mas também se pode dizer que é uma extensão das elites dirigentes na sociedade americana, como a CCTV, talvez mais directamente, é a voz do governo chinês e do Partido Comunista. A Al Jazeera é, na verdade, financiada pelo emir do Qatar, e é portanto, parte direta da elite que ali governa. Um ponto mais a salientar é que os fundos para a CCTV emitir internacionalmente provêm do governo, enquanto a cobertura pela CNN é sustentada nas receitas de publicidade das companhias americanas. Essas companhias têm interesse em que os EUA continuem a ser uma potência económica – então, a CNN apoia-as.

Não, porque os valores e a filosofia de notícia dos media chineses são excepcionalmente diferentes dos praticados pelos media ocidentais.

 

P.M. – Uma conclusão “interessante” do seu estudo é a de que os media chineses em África não cobrem as companhias chinesas. Isto significa que, por exemplo, a CCTV, tal como outras empresas internacionais, apenas se preocupa em informar, independentemente da nacionalidade de quem está nas notícias?

 

B.W. – Não se esqueça que a CCTV Africa está focada numa audiência africana e, por isso, tem uma função de formatar uma imagem. O foco em empresas chinesas poderia ser interpretado como propaganda e, por isso, os estrategas da CCTV, decidiram abandoná-lo. No entanto, a CCTV também emite em chinês para audiências nacionais e ali pode encontrar histórias sobre empresas chinesas em África. De qualquer maneira, poucos chineses ouvem as notícias em inglês. E, depois, o foco nas empresas chinesas pode ser uma armadilha, porque algumas delas têm uma pegada controversa – os estrategas decidiram deixar de fora as empresas chinesas, quer façam coisas boas ou más, porque emitir apenas um dos lados seria considerado selectivo.

 

P.M. – Qual é o principal problema que os meios de comunicação chineses enfrentam em África?

 

B.W. – Penso que é a perceção, real ou fictícia, de que eles são uma extensão do Estado (chinês), que é uma questão que levanta problemas de credibilidade.

 

P.M. – A CCTV tem emissões em inglês, francês, espanhol, árabe… Acha que, em breve, haverá emissões em português?

 

B.W. – Não posso falar pela CCTV mas acho que um canal de língua portuguesa poderá vir a caminho. Angola lidera os países em termos de comércio com a China e países como Moçambique são igualmente cruciais pelas suas reservas naturais. Uma presença ali pode ter significado para a China.

L.A.S.

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