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Quem controla o quê no Iémen? Um guia para compreender um conflito com mais de uma década

Mais de dez anos após o início da guerra civil, o Iémen continua dividido entre várias autoridades políticas e militares. A ausência de um poder central efetivo tornou o conflito numa disputa que envolve atores locais, potências regionais e interesses internacionais

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Desde 2014, quando o movimento Houthi (“Apoiantes de Deus”) tomou a capital, Saná, o Iémen deixou de ter uma autoridade efetiva sobre todo o território nacional.

A intervenção militar de uma coligação liderada pela Arábia Saudita, iniciada em março de 2015 para restaurar o governo reconhecido internacionalmente, transformou uma crise política numa guerra regional cujas linhas da frente permanecem relativamente estáveis desde a trégua negociada em 2022, apesar de episódios regulares de violência.

Os Houthis são atualmente a força dominante no norte e noroeste do país. Controlam Saná, a maior parte das zonas montanhosas mais povoadas e o importante porto de Hodeidah, no Mar Vermelho, uma infraestrutura vital para a entrada de bens e ajuda humanitária. Embora ocupem cerca de um terço do território iemenita, estima-se que as áreas sob o seu controlo concentrem entre 70% e 80% da população do país.

O movimento surgiu na década de 1990 entre a comunidade zaidita, um ramo do islão xiita predominante no norte do Iémen. Inicialmente organizado como um movimento religioso e político, transformou-se numa força militar após vários confrontos com o governo central. O grupo é apoiado pelo Irão, que lhe fornece assistência política, treino e tecnologia militar, embora especialistas considerem que mantém uma autonomia significativa nas decisões internas.

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No restante território atua o governo reconhecido pelas Nações Unidas, atualmente liderado pelo Conselho Presidencial de Liderança (Presidential Leadership Council, PLC), criado em 2022 para substituir o antigo presidente Abd Rabbu Mansour Hadi. A sede política encontra-se em Áden, mas o governo exerce um controlo desigual sobre as províncias do sul e do leste, dependendo do apoio militar e financeiro da Arábia Saudita e de diferentes forças locais.

A fragmentação do campo anti-Houthi é uma das principais características do conflito. Além das forças diretamente ligadas ao governo, existem grupos tribais, unidades militares regionais e milícias com agendas próprias.

Durante vários anos, um dos atores mais influentes foi o Conselho de Transição do Sul (STC, na sigla em inglês), apoiado pelos Emirados Árabes Unidos, que defende a restauração de um Estado independente no sul do Iémen, dissolvido em 1990 após a unificação do país.

A coexistência entre o governo reconhecido internacionalmente e o STC foi frequentemente marcada por tensões. Embora ambos se opusessem aos Houthis, divergiam quanto ao futuro político do país. Os confrontos entre forças aliadas demonstraram que a guerra iemenita não pode ser reduzida a um confronto entre governo e rebeldes, envolvendo também disputas internas pelo controlo territorial e pelos recursos naturais.

Um mapa das áreas aproximadas de influência e operação no Iémen, em fevereiro de 2026. O amarelo claro representa o Governo da República do Iémen, reconhecido internacionalmente, e as forças aliadas; o amarelo escuro, a área de controlo ou influência dos Houthis. As faixas vermelhas representam a antiga área de operação do Conselho de Transição do Sul, enquanto as faixas escuras representam a presença relatada da Al-Qaeda na Península Arábica. (Mapa: Congresso dos EUA)

A Arábia Saudita continua a ser o principal apoiante do governo iemenita, procurando impedir que um movimento alinhado com Teerão consolide poder junto da sua fronteira sul. Os Emirados Árabes Unidos, embora tenham reduzido a presença militar direta, mantiveram durante anos influência através de forças locais no sul. O Irão, por seu lado, considera os Houthis parte do chamado “Eixo da Resistência”, embora rejeite exercer controlo direto sobre o movimento.

O conflito adquiriu uma dimensão internacional ainda maior após 2023, quando os Houthis começaram a atacar navios comerciais no Mar Vermelho e a lançar mísseis e drones contra Israel, alegando agir em solidariedade com os palestinianos durante a guerra em Gaza. Os ataques afetaram uma das principais rotas marítimas do comércio mundial e provocaram operações militares lideradas pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido contra posições Houthi.

Apesar da redução da intensidade dos combates em comparação com os anos mais violentos da guerra, o Iémen continua a enfrentar uma das maiores crises humanitárias do mundo. Milhões de pessoas dependem de ajuda internacional, enquanto a divisão administrativa dificulta o funcionamento das instituições públicas, da economia e dos serviços básicos.

A dificuldade em compreender quem controla o país resulta precisamente desta sobreposição de poderes. Os Houthis administram grande parte do norte, incluindo os principais centros populacionais, enquanto o governo reconhecido internacionalmente mantém presença em várias províncias do sul e do leste. Grupos tribais e forças locais exercem igualmente influência em áreas específicas.

A este cenário junta-se a presença de organizações extremistas, como a Al-Qaeda na Península Arábica, que continuam ativas em zonas limitadas, aproveitando o vazio de poder criado por mais de uma década de conflito.

Mais de uma década após o início da guerra, o mapa político do Iémen permanece marcado por fronteiras de facto e por alianças instáveis. Enquanto não surgir um acordo político capaz de integrar os principais atores nacionais e reduzir a influência das potências regionais, o país continuará dividido entre várias autoridades, nenhuma delas capaz de exercer um controlo efetivo sobre todo o território.

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