Moscovo e Pequim defenderam veementemente as suas posições e referiram diretamente a mais recente e perigosa ameaça do Presidente norte-americano, Donald Trump, de dizimar a civilização do Irão, como confirmação de que o projeto de resolução teria dado a Washington e a Telavive “carta branca para uma agressão contínua”, como afirmou o embaixador russo junto da ONU, Vasily Nebenzya.
Moscovo indicou que a resolução “abundava em desequilíbrios, elementos imprecisos e confrontacionais”. Nebenzya afirmou que o texto proposto pelo Bahrein no Conselho de Segurança da ONU constitui uma “abordagem fundamentalmente errónea e perigosa” face à real situação na região.
A resolução apresentava as ações iranianas como a única fonte de tensões regionais. Os ataques ilegais dos Estados Unidos e de Israel “não foram mencionados de forma alguma”, disse o representante diplomático russo.
Nebenzya e o seu homólogo da China na ONU, Fu Cong, afirmaram que a versão mais recente da resolução, mesmo alterada, não conseguiu captar as causas profundas e o quadro completo do conflito, ao mostrar que os Estados Unidos e o seu aliado mais próximo, Israel, iniciaram a guerra que agora se agrava.
Leia também: Casa Branca nega planos de uso de armas nucleares contra o Irão
“Essa linguagem é altamente suscetível a interpretações erróneas ou mesmo a abusos”, disse Fu Cong na sua declaração. E acrescentou: “O projeto de resolução, caso tivesse sido aprovado, enviaria uma mensagem errada e teria consequências graves, muito graves”.
O representante chinês afirmou que a guerra provavelmente irá intensificar-se, com os Estados Unidos agora “a ameaçar abertamente a própria sobrevivência de uma civilização”.
Pequim expressou esperança de que a paz e a estabilidade sejam restauradas e reafirmou o compromisso da China em abordar a situação de forma adequada, combatendo as suas causas profundas.
“Esta guerra nunca deveria ter acontecido”, acrescentou, culpando os Estados Unidos e Israel como instigadores e instando-os a interromper o que descreveu como ações militares ilegais.
Leia também: Guarda Revolucionária do Irão ameaça cortar petróleo e gás “durante anos” se EUA atacarem
Salientou ainda que a posição da China é objetiva e equilibrada e exortou o Irão a cessar os seus ataques. A Federação Russa e a China fizeram saber que apresentarão em breve uma resolução alternativa.
A Rússia e a China vetaram hoje no Conselho de Segurança da ONU uma resolução que exigia a reabertura do Estreito de Ormuz, bloqueado pelo Irão, e encorajava os Estados a coordenarem esforços para assegurar a segurança nesta rota.
O projeto de resolução, proposto pelo Bahrein e bem diferente da versão inicialmente apresentada aos representantes diplomáticos, obteve 11 votos a favor, duas abstenções – Colômbia e Paquistão – e o veto de dois membros permanentes do Conselho de Segurança: Rússia e China.
A resolução rejeitada indicava que todos os navios gozariam do direito de passagem em trânsito pelo Estreito de Ormuz, e que essa passagem não poderia ser impedida, em conformidade com o direito internacional, incluindo o disposto na Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar.
Encorajava fortemente os Estados interessados na utilização de rotas marítimas comerciais no Estreito de Ormuz “a coordenarem esforços, de natureza defensiva, proporcionais às circunstâncias, para contribuir para assegurar a segurança da navegação no Estreito de Ormuz, inclusive através da escolta de navios mercantes e comerciais, e para dissuadir tentativas de fechar, obstruir ou interferir de qualquer outra forma na navegação internacional” pelo estreito.
A versão inicial do texto, mas que acabou alterada a pedido de vários países durante o processo de negociação, defendia um mandato claro para libertar o Estreito de Ormuz pela força.
O projeto de resolução foi proposto pelo Bahrein em estreita coordenação com os membros do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) – composto por Bahrein, Kuwait, Omã, Qatar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos – bem como com a Jordânia.
O ministro dos Negócios Estrangeiros do Bahrein, país que elaborou a minuta, criticou duramente o órgão mais poderoso da ONU por não tomar medidas e permitir que a comunidade internacional seja “mantida refém da chantagem económica” do Irão.
Os Estados Unidos e Israel têm em curso desde 28 de fevereiro uma ofensiva militar de grande envergadura contra o Irão. Teerão respondeu com ataques contra interesses norte-americanos e israelitas nos países do Golfo Pérsico, além de bloquear o Estreito de Ormuz, o que fez disparar os preços do petróleo.