Os agora ex-militares russos contaram que viram camaradas a serem mortos no local por se recusarem a regressar ao combate. Um deles afirmou ter visto um comandante executar quatro homens à queima-roupa, enquanto outro descreveu ter encontrado cerca de 20 corpos de soldados mortos pelos próprios companheiros, numa prática conhecida no jargão militar russo como “zeroar”, ou seja, eliminar os seus próprios homens.
Os relatos descrevem ainda um colapso da disciplina e da cadeia de comando, com punições extremas aplicadas a soldados que recusavam participar em ataques considerados suicidas, conhecidos entre as tropas como “tempestades de carne”, em que vagas sucessivas de homens são enviadas para a frente de combate para esgotar as forças ucranianas.
Um dos soldados contou que, após recusar ir para a linha da frente, foi torturado, espancado, privado de comida e humilhado, tendo depois tentado suicidar-se. Outros relataram choques elétricos, espancamentos e a utilização sistemática da violência como forma de intimidação.
Outro militar afirmou que o seu comandante, entretanto condecorado como “Herói da Rússia”, ordenou execuções de soldados da sua própria unidade. Famílias de militares mortos já terão denunciado alegados abusos cometidos por esse oficial, acusando-o de ser responsável por elevadas perdas humanas.
Os quatro homens encontram-se atualmente fora da Rússia e afirmam estar em fuga. Todos descrevem traumas psicológicos profundos causados pela guerra e pelas práticas internas do exército russo, dizendo que muitos soldados não apoiam o conflito nem a liderança militar.
O Governo russo afirmou, em resposta à BBC, que as suas forças armadas “atuam com a máxima contenção possível” e que todas as alegações de crimes são investigadas, acrescentando não ser possível verificar de forma independente os relatos apresentados.
De acordo com o Ministério da Defesa do Reino Unido, mais de 1,2 milhões de militares russos terão sido mortos ou feridos desde o início da invasão em grande escala da Ucrânia, a 24 de fevereiro de 2022.
Os testemunhos reforçam denúncias anteriores de abusos e perdas massivas nas forças russas, num contexto em que praticamente toda a oposição pública à guerra lançada pelo Presidente Vladimir Putin foi silenciada dentro da Rússia.