O fenómeno começou a ganhar atenção na América Latina, com incidentes reportados na Argentina e no México, onde meios de comunicação e figuras da extrema-direita associaram therians a “degeneração moral” e aos chamados excessos das políticas de identidade. Na Argentina, por exemplo, a suposta presença de jovens que se identificam com animais em escolas desencadeou boatos que reforçaram narrativas anti-LGBTQI+ e discursos alarmistas sobre a decadência da sociedade.
Em Espanha, a situação repetiu-se: cidades como Madrid, Barcelona, Zaragoza e outras registaram concentrações de curiosos à procura de therians. Apesar da agitação mediática e das convocatórias nas redes sociais, o número de participantes reais foi mínimo. Em muitos casos, os jovens que apareceram tornaram-se alvo de gozo e insultos, sendo instrumentalizados para alimentar discursos de ódio online.
Especialistas em cibersegurança e sociologia digital alertam que o fenómeno revela a forma como algoritmos de redes sociais amplificam conteúdos chocantes, mesmo quando pouco ou nada refletem a realidade. “Os therians são um pretexto perfeito para grupos ultradireitistas e influenciadores alarmistas atacarem identidades de género e diversidade, transformando um fenómeno inócuo em ameaça moral”, explica Marcelino Madrigal, especialista em redes e cibersegurança.
O impacto do fenómeno ultrapassa fronteiras: vídeos falsos mostram supostos ataques de animais a humanos ou pessoas em quatro patas, enquanto boatos sobre apoios económicos fictícios vinculados à identificação como animal circulam de Espanha à América Latina. Estes conteúdos têm servido para desinformar, gerar pânico moral e reforçar estereótipos contra pessoas trans e a comunidade LGBTQI+.
Analistas sublinham que a identificação pessoa-animal no contexto therian é, na maioria dos casos, um hobby ou forma de expressão pessoal, sem relação com crises de identidade ou problemas psicológicos. O que torna o fenómeno viral é precisamente o seu caráter insólito e visualmente marcante, que as redes sociais exploram e amplificam.
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“Cada vez mais, vemos como a internet cria bolhas culturais que são depois manipuladas politicamente”, afirma Adrián Juste, investigador do laboratório de ideias Al Descubierto. “O que era uma subcultura marginal tornou-se num símbolo de um suposto colapso moral, utilizado para legitimar discursos de ódio e alarmismo.”
Enquanto a viralidade continua a impulsionar debates e memes, os therians permanecem, em termos reais, um grupo pequeno e discreto. O caso serve, no entanto, como alerta global sobre os perigos da desinformação, da manipulação digital e do uso político de fenómenos culturais inócuos.