Manuel João Vieira, músico e artista plástico formalizou a sua candidatura à presidência da República. Das declarações emitidas no momento retive a frase “Viva Portugal absurdo, luminoso e absolutamente necessário”. Em décadas de vida não me lembro de uma declaração política tão esclarecida, tão profundamente artística quão fundamental.
Sim, a arte deve ser interventiva porque como dizia o compositor e regente de orquestra Jordi Savall “quando a música é só estética, acaba-se em Auschwitz”. Louvo a coragem do Manuel João em ter dado este passo, absolutamente necessário nos tempos que correm, revejo-me nele. Sei que hoje raramente se passa além da superfície de um slogan, quase sempre fabricado para atingir emoções, e não há tempo nem sequer preparação mental para escutar propostas que espevitem o pensamento; a repetição de bordões cristaliza convicções, e a sensação geralmente impede a compreensão do conteúdo, assimilamos simplesmente a forma das palavras ou esbarramos nela. Isto resulta do desleixo do Estado com a educação. O Estado tem obrigação de promover a leitura de obras clássicas, formar cidadãos com pensamento crítico e, por exemplo, disponibilizar a exibição regular de uma peça de Shakespeare em cada teatro municipal do país, ainda que raros sejam os que eventualmente assistirão (uma das medidas que proporia se fosse candidato); tem de estar disponível, ponto. Mesmo que ninguém o leve a sério e lhe chamem louco, o Manuel João está à sua maneira a fazer o trabalho que caberia ao Estado (todos nós) fazer: expor o absurdo, questionar, criar, exercitar a inteligência, numa palavra, pensar. Soa utópico mas o pensar, juntamente com sentir genuíno amor, são as únicas soluções para os problemas da humanidade e reconectam-nos com a nossa essência, aquilo que se verifica naturalmente nas crianças. Tudo o resto são distracções, daí vivermos a tentar sobreviver num mundo virado de pernas para o ar, mergulhados numa imensa ilusão que nos foi projectada e por consequência projectamos. Grandes figuras do passado disseram o mesmo, por exemplo, Cristo, porém uma coisa é encher a boca com o seu nome, outra é praticar o que disse; conveniências…
A incompreensão acerca do “candidato Vieira” abrange não apenas alguns que conhecem a sua obra e intervenções ao longo dos anos, como os que a desconhecem. Uns esperam ouvir caralhadas, que ele “parta isto tudo”, assuma o papel, sei lá, de um dadaísta tardio, outros estão muito distantes do que está em causa, como li num artigo do site Observador, em que suspeitavam que ele tivesse levado um chapéu de marinheiro para uma entrevista (adereço que o acompanha há muito) para criticar a candidatura de Gouveia e Melo. Faz-me lembrar quando lancei o tema “Batman” onde brincava com as religiões evangélicas e toda a gente achava ser uma crítica directa à Igreja Universal do Reino de Deus… Ó meus amigos: questionar ou fazer humor não significa que se esteja a apontar a um alvo particular, e quando se aponta a um alvo particular não significa que se tenha algo particular contra ele, quase sempre é contra o que representa. Mas as pessoas não estão preparadas para se desfocarem, pensarem livremente; perdendo o chão ficam confusas e buscam orientar-se conforme a doutrina que seguem, o que os outros acham, ou as ferramentas de compreensão que possuem. O “candidato Vieira” é um heterónimo com um papel específico na sociedade, não comporta necessariamente a visão pessoal do cidadão Manuel João Vieira. Eis porque se auto-intitula “candidato Vieira”, e não Manuel João Vieira; eis porque o vinho canalizado, o Ferrari para cada português, o desistir se for eleito, e outras medidas absurdas só cabem numa personagem, e ele serve-se da personagem que entretanto ganhou legitimidade para disputar a corrida a Belém para se fazer ouvir, lançar o debate que julga necessário na sociedade, tal como outros usam a corrida a Belém para propagandearem os seus chavões e pautas políticas pessoais. Ou seja, ao contrário desses, o candidato Vieira está realmente ao serviço da coisa pública.
Existe hoje um movimento chamado “entretenimento de impacto social” que reflecte, debate e age sobre a criação de conteúdos que promovam mudanças sociais positivas, eduquem, consciencializem e mobilizem o público à volta de causas importantes; quer faça ou não parte deste movimento, o candidato Vieira incorpora-o. Nem falo de video-jogos que nos ensinam a matar, mas se assistirmos a 24 horas de programação televisiva entre informação, séries e filmes, ao fim do dia só em assassinatos terão morrido umas centenas, quiçá milhares de pessoas; acham que isso repetido há décadas não tem qualquer impacto nas nossas vidas? No mínimo banalizam o crime. Há um mês numa entrevista à SIC Notícias, o candidato Vieira apontou o óbvio, que a comunicação social contribuiu sobremaneira para divulgar o fenómeno André Ventura; a jornalista ofendeu-se… A verdade é que a maior parte dos jornalistas até o detesta mas as direcções editoriais dão-lhe púlpito, fornecem a plataforma de cultura para “o vírus da linguagem”, e o que o corporativismo dessa classe não refere (cuidado com o posto de trabalho) é que a liberdade de expressão está de facto condicionada por interesses económicos: o Ventura é polémico, logo dá audiências, audiências geram receita. Os jornalistas limpam a água do capote, limitam-se “a informar”, o público que lide com a informação. Acho que se constata não termos anti-corpos contra certos vírus, maturidade para lidarmos com determinado tipo de informação, sobretudo porque não temos conhecimento, lá está, não nos vacinámos lendo os clássicos; nem muitos jornalistas os leram, o que seria de esperar? No fundo somos todos instrumentos de propagação do vírus da ignorância; a restrição da leitura, consequentemente do pensamento crítico e riqueza de vocabulário acabaram por materializar a distopia Orwelliana.
Depois, deixemo-nos de tretas, a maior parte de nós prefere acreditar a pensar, privilegiamos lendas a factos; adoramos citar figuras míticas ou que já morreram e não estão cá para se defenderem, mas se tivéssemos de lidar presencialmente com as suas imperfeições seria um tremendo incómodo. Uma vez que para obter ganhos pessoais e políticos muitos descontextualizam o passado, usando personagens notáveis para legitimar narrativas e acções no presente, empregarei o mesmo truque. Assim, do que estudei, conheço das suas obras e trajectos de vida, afirmo convictamente que se Camões, Bocage, Florbela Espanca, Almada Negreiros ou Fernando Pessoa fossem vivos apoiariam o candidato Vieira. Admirando-os sentir-me-ia envergonhado se não manifestasse o meu apoio a esta candidatura.
“Viva Portugal absurdo, luminoso e absolutamente necessário”. Isto sim é um manifesto de patriotismo, de reconhecimento e assunção da nossa identidade; defendendo-a desta maneira não há nada que a estremeça, papões imigrantes ou lá o que quer que esteja em voga na agenda social e política.
*Músico