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Passadeiras no caminho da mobilidade

Apesar de Macau ter aumentado o número de passadeiras nos últimos cinco anos, os atropelamentos e as queixas de insegurança continuam a crescer. O urbanista Kaleb Lam Iek Chit alerta que “o problema reside em questões estruturais da gestão viária”. Uma revisão das políticas de mobilidade e penalizações mais eficazes para garantir prioridade aos peões são as soluções apontadas

Inês Lei

Macau tem vindo a registar vários acidentes de viação envolvendo peões em passadeiras. No final do mês passado, um homem foi atropelado por um carro particular enquanto atravessava uma passadeira perto do Lago Sai Van. Em maio deste ano, uma menina foi atingida por um camião numa passadeira no cruzamento entre a Praça de Monsaratt e a Travessa de Monsaratt, enquanto atravessava a rua com a família. Em julho, um veículo de sete lugares feriu um peão numa passadeira na Ilha Verde por não ter cedido passagem.

O problema reside em questões estruturais da gestão viária”, diz o urbanista Kaleb Lam Iek Chit, considerando que “atualmente, as estradas são geridas por múltiplos departamentos e falta uma diretriz conjunta aberta e transparente, o que levanta dúvidas sobre a comunicação entre as entidades”. Relativamente à disposição das passadeiras, sugere “seguir as normas de design acessível, criando orientações claras que definam quais as passadeiras a modificar, permitindo que o público forneça ‘feedback’ com base em critérios específicos”.

Para aumentar a segurança das passadeiras, o engenheiro de Mecânica e Eletrónica Addy Chan, sugere adotar práticas de Portugal e Espanha: “Tradicionalmente, os passeios são mais altos do que a superfície da estrada, mas o novo conceito consiste em elevar as passadeiras ao mesmo nível do passeio, obrigando os veículos a subir uma rampa, o que reduz a velocidade e dá prioridade aos peões. Este tipo de design diminui significativamente a probabilidade de veículos ferirem peões nas curvas, melhora a experiência a pé e é particularmente benéfico para utilizadores de cadeiras de rodas”, explica ao PLATAFORMA.

A Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego (DSAT), em resposta ao PLATAFORMA, explica que “o princípio é semelhante ao das lombas de redução de velocidade já usados em Macau” e diz que “se baseará em experiências internacionais, avaliando cuidadosamente a sua aplicabilidade consoante o volume de tráfego e a velocidade dos veículos em diferentes zonas da cidade”.

Os problemas das passadeiras, contudo, vão além do design viário e estendem-se ao planeamento urbano. Segundo estatísticas da DSAT, entre o segundo trimestre de 2020 e o segundo trimestre de 2025, o número de passadeiras na Península de Macau aumentou de 1.328 para 1.470, enquanto que na zona do Cotai, o crescimento foi ainda mais acentuado, passando de 708 para 929.

Acessibilidade reduzida

No entanto, a residente local Choi, moradora no bairro de San Kio, observa que, “embora os dados mostrem mais passadeiras, não me sinto mais segura a atravessar as ruas em Macau. Quando levo familiares idosos em cadeiras de rodas, as passadeiras no nosso bairro obrigam-nos sempre a fazer desvios, impedindo uma passagem direta e fluida. É muito demorado e inconveniente.” Como mãe de duas crianças, acrescenta: “Já vivi situações em que os carros travaram bruscamente nas passadeiras. Sempre que vejo notícias de atropelamentos em passadeiras, fico apreensiva e cada vez mais receosa de deixar os meus filhos voltarem sozinhos da escola”.

Para o designer local Ao, que há muito se dedica ao estudo do desenho de passadeiras em Macau, considera que “a política governamental favorece claramente a construção de passagens aéreas para alcançar a ‘separação entre peões e veículos’, baseada na crença de que as passadeiras prejudicam o fluxo do trânsito”. Em teoria, as passadeiras são a forma mais conveniente para os peões, e, a menos que as passagens aéreas consigam formar sistemas de ligação contínua, como acontece em certas zonas de Hong Kong, o “esforço físico e o tempo necessários para as utilizar são desproporcionados”.

Ou seja, essa situação leva muitos peões a atravessar fora das passagens, criando um ciclo vicioso: “Quanto mais passagens aéreas existem, menos os condutores desenvolvem o hábito de ceder passagem, o que aumenta o perigo para os peões que atravessam ao nível da estrada”, diz ao PLATAFORMA.

Ao dá exemplos concretos, como “a remoção, sem aviso, de uma passadeira na Avenida do Ouvidor Arriaga, perto da Rua de Francisco António, há dois anos”, e explica que “quem vai da Avenida de Horta e Costa para o Hospital Kiang Wu, seja pela Rua de Francisco Xavier Pereira ou pela Rua do Coronel Mesquita, precisa agora de atravessar a estrada várias vezes, o que é extremamente inconveniente para peões, pais com carrinhos de bebé e utilizadores de cadeiras de rodas.”

Refere ainda o cruzamento entre a Avenida do Ouvidor Arriaga e a Rua do Padre João, onde “as autoridades recuaram a passadeira cerca de dez metros da interseção, alegando que isso facilitaria a saída dos veículos. Essa alteração obriga os peões a fazer um percurso em forma de ‘U’, com uma curva de 90 graus para o passeio da Rua do Padre João. A largura do passeio reduziu-se abruptamente de 1,7 metros para apenas 90 centímetros, abaixo dos 1,2 metros mínimos exigidos nas ‘Diretrizes Arquitetónicas de Acessibilidade Universal’. Este tipo de desenho, que prioriza o espaço dos veículos, empurra os peões e utilizadores de cadeiras de rodas para uma zona estreita e insegura.” Apontando diversos casos semelhantes, criticou estas alterações como “arbitrárias e injustificadas”.

“Mentalidade da sorte

Sobre a localização das passadeiras, a DSAT explica que “especialmente nos bairros antigos com espaço limitado, deve ser encontrado um equilíbrio entre conveniência, acessibilidade, segurança e eficiência do tráfego.” Para troços com passeios estreitos, “o departamento irá colaborar com outras entidades para avaliar a viabilidade de os alargar, procurando otimizar o ambiente pedonal”. Mais indica que, no processo de planeamento, “emite pareceres técnicos sobre novos projetos e recolhe opiniões públicas através de canais como o Comité Consultivo dos Transportes e associações comunitárias”.

O designer local Ao, aponta ainda para as “multas reduzidas atualmente em vigor.” De acordo com o Artigo 104 da Lei do Trânsito Rodoviário, os condutores que não cedem passagem aos peões em passadeiras sinalizadas enfrentam “multas entre 600 e 2.500 patacas.”

Addy Chan defende que “as penalizações são um instrumento essencial. No passado, infrações como não parar nas passadeiras ou não abrandar eram muitas vezes resolvidas apenas com avisos verbais, sem punição efetiva. É necessário um mecanismo claro”. “A China continental tem feito progressos nos últimos anos com a fiscalização eletrónica automática, em que as multas são emitidas com base em imagens de câmeras. Só assim se pode erradicar a chamada ‘mentalidade da sorte’. O maior problema atual não é a falta de consciência de segurança, mas sim essa crença de que nada de mau acontecerá”.

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