O Aria by Chef D, um pequeno mas popular restaurante sul-africano próximo das Ruínas de São Paulo, está frequentemente esgotado aos fins de semana. Com uma procura tão forte, o fundador, Denver Govender, há muito pensa em expandir: “Estamos há algum tempo à procura de um novo espaço, mas ainda não encontrámos o local certo”, admitindo que a decisão do Governo de reabrir as candidaturas para esplanadas cria novas possibilidades: “Ao considerarmos expandir, esta nova política é uma verdadeira vantagem. Agora podemos procurar locais com espaço exterior e criar uma melhor atmosfera para refeições”.
Para Chan Chak Mo, presidente da União das Associações dos Proprietários de Estabelecimentos de Restauração e Bebidas de Macau, as cidades turísticas europeias estão cheias de esplanadas, permitindo que os visitantes relaxem junto a monumentos. Embora Macau tenha potencial, lamenta que não fossem emitidas novas licenças durante muitos anos.
“Em cidades como Milão ou Paris, vê-se gente a beber café ao ar livre em cada marco turístico”, disse Chan.
Ao considerarmos expandir, esta nova política é uma verdadeira vantagem. Agora podemos procurar locais com espaço exterior e criar uma melhor atmosfera para refeições
Denver Govender, fundador do Aria by Chef D
Para além das restrições de espaço, Govender admite que os custos das rendas continuam a ser um peso: “Embora as rendas tenham descido um pouco, muitos imóveis exigem uma taxa de trespasse — por vezes acima de 100 a 200 mil patacas. Além disso, os inquilinos têm de renovar totalmente o espaço, o que é uma grande despesa.” O empresário espera também que as “políticas do Governo ajudem realmente as PME e reduzam as pressões do custo. A licença para esplanada é apenas o primeiro passo, mas pelo menos dá-nos alguma esperança”.
Ambiente e vitalidade
A marca local Woop Woop, especializada em refeições ligeiras, café e sobremesas, tem três lojas em Macau: junto às Ruínas de São Paulo, na Vila da Taipa e no One Oasis, em Coloane. O proprietário, Ivan Pun, conta ao PLATAFORMA que a unidade da Taipa há muito desejava ter esplanada.
“O ambiente é relativamente calmo — perfeito para duas ou três mesas pequenas. No passado, devido às regras, não ousávamos colocar mesas e cadeiras no exterior com receio de multas. Mas muitos clientes levavam a comida e sentavam-se cá fora de qualquer maneira. Agora que podemos candidatar-nos legalmente, é uma mudança positiva”, explica.
Hoje é preciso atrair pessoas através das redes sociais e do marketing; ser uma ‘marca antiga’ já não chega para sobreviver
Ivan Pun, proprietário do Woop Woop
Pun acrescenta que a esplanada não é apenas mais lugares: “Não se trata só de acrescentar mesas, é toda a atmosfera que muda. Os edifícios antigos de Macau, combinados com esplanadas, dariam à cidade mais vitalidade. Estive recentemente em Paris e quase todos os restaurantes têm clientes sentados na rua. Isso é o espírito de uma cidade”.
Quanto aos custos, considera a taxa da licença razoável: “Por um espaço inferior a 30 m², a taxa anual é pouco acima de mil patacas. Com um pequeno aumento da renda, a melhoria no negócio compensa”.
Sobre o mercado da restauração em Macau, Pun admite que a localização já não basta: “No passado pensávamos que abrir perto das Ruínas de São Paulo garantia muitos clientes, mas isso mudou. Hoje é preciso atrair pessoas através das redes sociais e do marketing; ser uma ‘marca antiga’ já não chega para sobreviver”.
Mais medidas como solução
Chan Chak Mo enfatiza que reabrir o regime de licenciamento de esplanadas era algo há muito reivindicado pelo setor. Considera um avanço, mas apenas um ponto de partida: “Uma cidade turística precisa da atmosfera que as esplanadas criam. Se Macau quer ser um destino atrativo, não pode depender só dos casinos — precisa de maior diversidade de experiências”. Sublinhando ainda que as esplanadas podem dar vida aos bairros locais e corresponder às expectativas dos visitantes em termos de cultura de lazer.
Para Chan, não é possível garantir que a decisão do Governo de reabrir licenças para esplanadas, após 16 anos, esteja diretamente relacionada com o fecho dos casinos-satélite no final do ano, mas admite que “é certamente um dos fatores”.
De acordo com estatísticas oficiais, a despesa dos visitantes não relacionada com o Jogo atingiu 18,25 mil milhões de patacas no segundo trimestre de 2025, mais 4.6% face ao ano anterior. Contudo, a despesa per capita caiu 12.3%, para 1950 patacas. Chan não se mostra preocupado: “É uma questão estrutural. A despesa total está a crescer, mas os padrões de consumo mudaram”.
Uma cidade turística precisa da atmosfera que as esplanadas criam. Se Macau quer ser um destino atrativo, não pode depender só dos casinos — precisa de maior diversidade de experiências
Chan Chak Mo, presidente da União das Associações dos Proprietários de Estabelecimentos de Restauração e Bebidas de Macau
E conclui: “Abrir candidaturas para esplanadas não resolve, por si só, os problemas do setor. Para uma solução verdadeira, precisamos de vinte medidas adicionais — ajustar a estrutura das rendas, melhorar a distribuição dos fluxos de visitantes, incentivar o desenvolvimento dos bairros e muito mais. Uma só política não é suficiente para sustentar toda a indústria”.
A retoma de emissão de licenças está numa fase-piloto, de acordo com o IAM. Restaurantes e bares podem candidatar-se, mas devem cumprir regras como limites de horário e proibição de equipamentos sonoros. O PLATAFORMA questionou o departamento sobre o processo mas até ao fecho desta edição não obteve qualquer resposta.