
Outrora um centro movimentado de artesãos e comerciantes, a Rua das Estalagens acolhe agora uma nova vaga de empreendedores que misturam tradição com novas ideias. A Sands China lançou uma publicação bilingue In Search of Its Roots – An Illustrated History of Rua das Estalagens, revelando as histórias desta rua e convidando os residentes e visitantes de Macau a redescobrir as suas lojas centenárias e atmosfera cultural. Todos os meses, o Plataforma e a Sands China destacam a comunidade, os negócios e os esforços de revitalização que propõem dar nova vida a uma das ruas mais antigas de Macau. Através de histórias cativantes, exploramos a sua transformação, honrando o seu passado enquanto moldamos o seu futuro. Cada reportagem será publicada em chinês, inglês e português na última sexta-feira de cada mês em formato impresso e digital.
Saiba mais sobre In Search of Its Roots – An Illustrated History of Rua das Estalagens
- Produtor: Sands China Ltd.
- Editora: Associação dos Artistas de Macau
- Autor: Siguo Chen
- Ilustradora: Shirley Lu
Loja de Fazendas Ngan Kong: O Último Reduto do Comércio Têxtil

Cheang Io Kong, proprietário da Loja de Fazendas Ngan Kong, dobra um dos tecidos expostos na sua loja. O comércio têxtil na Rua das Estalagens remonta a mais de 200 anos, atingindo o seu auge entre 1970 e 1990, quando a rua chegou a ter mais de 20 lojas de tecidos e 30 negócios relacionados. PLATAFORMA
“Não acredito que ainda há uma loja de tecidos como esta”. O espanto é comum a vários dos turistas que passam pela Loja de Fazendas Ngan Kong. O comércio têxtil na Rua das Estalagens remonta a mais de 200 anos, atingindo o seu auge entre 1970 e 1990, quando a rua chegou a ter mais de 20 lojas de tecidos e 30 negócios relacionados. “Agora somos a única que resta”, diz Cheong Wai Kun, mulher do proprietário, Cheang Io Kong.

A Loja de Fazendas Ngan Kong nasce em 1950, fruto do árduo trabalho do pai e tio de Cheang Io Kong. Para reunir o capital necessário para abrir a loja, carregavam cestos de tecido nos ombros por Macau fora, tentando fazer vendas em cada rua que passavam. Por vezes, chegavam a ir até Coloane. Ilustração no livro In Search of Its Roots – An Illustrated History of Rua das Estalagens
A Loja de Fazendas Ngan Kong nasce em 1950, fruto do árduo trabalho do pai e tio de Cheang Io Kong. Chegaram a carregar cestos de tecido nos ombros, tentando vender de rua em rua, indo tão longe quanto Coloane, só para amealhar o dinheiro suficiente para construir a loja e expandir.
Cheang lembra os bons tempos: “Quando abríamos de manhã, já havia clientes à espera”. A loja servia todos os estratos da sociedade local, desde famílias de pescadores, que procuravam algodão escuro lavável, até famílias de oficiais portugueses, que vinham para comprar brocados de seda de alta qualidade.
A Ngan Kong tinha de tudo. A sua popularidade era tal que, há uns anos, o então Chefe do Executivo, Chui Sai On, numa visita à Rua das Estalagens, fez questão de parar na Loja de Fazendas Ngan Kong, lembrando como ia com a mãe à loja para comprar tecidos quando era jovem.

A Loja de Fazendas Ngan Kong tem disponíveis os tecidos “da moda”, importados de Hong Kong para assegurar a máxima qualidade. Fazem lençóis, capas de edredão e decorações, como saias de palco e cortinas onduladas. PLATAFORMA
A partir de 1995, com o fim das quotas preferenciais têxteis na Europa e Estados Unidos, o Interior da China e outros países aumentaram a sua produção. A nova competição, aliada à abertura de lojas de marca de pronto a vestir, tornou a compra de tecidos cada vez menos apelativa.
Mesmo assim, nos anos que se seguiram, a Ngan Kong soube adaptar-se, passando a ser fornecedora de várias empresas de publicidade e organização de eventos. “Estas empresas precisavam de muitos materiais, e nós conseguíamos fornecer a maior parte deles. Fizemos muitas decorações para restaurantes, como capas de cadeiras e mesas. Até fizemos para eventos do Governo de Macau”, conta.
Porém, a explosão do comércio online trouxe desafios para os quais ainda hoje se procura a solução. “Muitas das empresas que nos procuravam passaram a encomendar do Continente”, lamenta. Pese a falta de qualidade e inconsistência dos produtos comprados online, a verdade é que os preços são extremamente baixos, apesar de Cheang afirmar que os seus preços são também acessíveis.
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Hoje, focam-se em ter disponíveis os tecidos “da moda”, importados de Hong Kong para assegurar a máxima qualidade. Fazem lençóis, capas de edredão e decorações, como saias de palco e cortinas onduladas. Continuam a receber estudantes e alguns turistas, mas estes últimos param maioritariamente para tirar fotografias.
Com a procura em declínio, o casal agarra-se ao seu nicho de mercado, mas espera que o programa de revitalização da Sands China traga nova energia e reavive o conceito que sempre imperou na Rua das Estalagens. “As pessoas devem chegar aqui e poder encontrar tudo o que precisam.”
Cheong Seng Vidros: Quatro Gerações a Cortar e Moldar Vidro

Lo Meng Fai (pai) e Law Weng Chi (filha), pousam à frente da Cheong Seng Vidros, a loja que abriu pelas mãos do seu bisavô, em 1949. PLATAFORMA
Outrora um centro movimentado de diversos negócios, a Cheong Seng Vidros é testemunha dos dias gloriosos do comércio de vidro na Rua das Estalagens. “Cortar vidro é como costurar tecido. É uma arte”, descreve Law Weng Chi, proprietária da loja que o seu bisavô abriu em 1949. “A rua já teve várias vidreiras, mas a nossa é a que resta”, diz, reconhecendo que é uma indústria “difícil” e com clientela muito específica.
O negócio familiar vai agora na sua quarta geração. “A loja foi herdada pelo meu pai, depois para mim, e depois para a minha filha”, aponta Lo Meng Fai, que agora passou o leme a Law.
A história da Cheong Seng começa em 1948, quando a vidreira onde Lo Man Sik trabalhava fechou. Através dos seus contactos e do capital que tinha conseguido juntar, arriscou e abriu a sua própria loja na Rua das Estalagens. O risco rapidamente se veio a confirmar frutífero. A Cheong Seng fez uma fortuna a transportar vidro para a recém-criada República Popular da China, nessa altura órfã de cadeias industriais e com grande necessidade de produtos essenciais.

Quando o Interior da China começou a taxar vidro importado, Lo Ka Chin, filho de Lo Man Sik, resolveu virar-se para o mercado local, apostando também em molduras. Para satisfazer a procura, criou a sua própria maquina de corte, utilizada pela família durante 50 anos. Ilustração no livro In Search of Its Roots – An Illustrated History of Rua das Estalagens
Anos mais tarde, o Interior da China começou a taxar vidro importado, pelo que o filho Lo Ka Chin, já à frente da loja, resolveu virar o foco para o mercado local, especializando-se em vários tipos de vidro plano, espelhos e molduras. Lo Ka Chin tinha duas vantagens sobre a competição. Primeiro, inventou a sua própria máquina de corte leve para molduras – que foi usada pela família por mais de cinco décadas. Segundo, desenvolveu um talento como calígrafo, escrevendo versos e inscrições no verso de espelhos – um dom apreciado por clientes que procuravam presentear peças de vidro a amigos.
Lo Ka Chin reformou-se nos anos 80, deixando o negócio ao seu filho, Lo Meng Fai. A década de 80 trazia novos desafios. Ao observar novas tecnologias e novas utilizações para o vidro – sobretudo em decoração e construção – Lo Meng Fai promoveu uma nova mutação do negócio, especializando-se na produção de vidro decorativo, como montras, vitrinas e expositores.
O aparecimento de vários hotéis em Macau acabou por comprovar o sucesso da estratégia. “Quando o desenvolvimento dos casinos começou, os hotéis precisavam de vidros decorativos. Um hotel estava a ser renovado e queriam renovar o apartamento-modelo no último andar. O elevador ainda não estava instalado, portanto o meu pai teve de carregar a peça de escadas. Ver o quanto ele trabalhava foi o que me fez querer continuar o negócio”, lembra Law.

Lo Meng Fai (pai) e Law Weng Chi (filha) mostram alguns dos produtos de vidro que podem ser obtidos na Cheong Seng. Law quis continuar o legado familiar depois de ver o pai carregar uma expositora de vidro de escadas até ao último andar de um hotel. “Ver o quanto ele trabalhava foi o que me fez querer continuar o negócio.” PLATAFORMA
“Os clientes de retalho costumavam comprar painéis individuais ou instalar pequenos acessórios. Esses pedidos estão a diminuir, pois os produtos vêm pré-feitos da China continental. Hoje, a maior parte do nosso negócio é trabalho de reparação. Mas, para manter as operações, aceitamos contratos maiores. Tratamos de tudo, desde danos em vidros de hotéis e casinos até substituições: fachadas exteriores, vidros decorativos interiores, bancadas, luminárias — qualquer necessidade relacionada com vidro”, detalha Lo Meng Fai.
Como muitos outros negócios tradicionais na Rua das Estalagens, a Cheong Seng Vidros carrega um espírito de comunidade, por demais evidente em 2017, quando Macau foi atingido pelo Tufão Hato. “Recebemos imensos pedidos para reparações. Muitos vidros partidos, especialmente na Areia Preta. O patrão na altura ainda era o meu pai. Havia tantas pessoas com as janelas partidas, sem vidros e casas em desordem, que o meu pai simplesmente trabalhava a noite toda e sem cobrar mais. Ao mesmo tempo, a Rua das Estalagens estava completamente inundada. Tivemos de nos salvar e salvar as pessoas. Fiquei muito orgulhosa; senti que realmente estávamos a ajudar as pessoas a passar por aquele momento tão trágico”, lembra Law.
Lo Meng Fai, agora com 70 anos, já não gere o dia a dia da vidreira, tendo confiado essa responsabilidade à filha Law Weng Chi, que acredita na continuidade, ainda para mais com a revitalização da rua. “Estamos muito felizes — é uma rua antiga que merece uma nova vida. A Rua de S. Paulo, a Rua de Cinco de Outubro e a Rua dos Ervanários formam um triângulo, e a Rua das Estalagens liga as três. A revitalização melhoraria significativamente o fluxo”, remata Law Weng Chi.
Na próxima edição, exploramos como os novos negócios estão a transformar a Rua das Estalagens e a projetar o futuro desta artéria histórica.

