Entre vários Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) tem ganho tração a ideia de virar a página dos empréstimos soberanos de Pequim e experimentar parcerias com empresas privadas chinesas — especialmente nas áreas das infraestruturas, energia e tecnologias digitais.
Nos últimos anos, alguns governos africanos lusófonos mais expostos ao endividamento externo começaram a preferir capital privado chinês em vez de contrair novos empréstimos estatais. Para Francisco Leandro, professor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Macau, a tendência é real, mas deve ser lida com prudência. “A crescente preferência de alguns PALOP, particularmente aqueles com níveis elevados de endividamento junto à China (…), reflete uma mudança estratégica na abordagem ao financiamento do desenvolvimento” , explica ao PLATAFORMA.
O académico lembra que, “historicamente, o modelo chinês de cooperação com África tem sido fortemente centrado em acordos intergovernamentais e financiamento estatal, muitas vezes através de bancos públicos”. Contudo, hoje há outro caminho: “A China tem demonstrado maior abertura à diversificação dos seus instrumentos de cooperação, incluindo o incentivo à internacionalização de empresas privadas chinesas e à promoção de investimentos diretos estrangeiros em setores estratégicos como infraestrutura, energia e telecomunicações”.
Ainda assim, “a transição para parcerias privadas não ocorrerá de forma abrupta, mas sim como parte de um processo gradual de adaptação às novas exigências dos países parceiros e às dinâmicas do sistema financeiro internacional.” O foco — antecipa — deverá recair em domínios onde o setor privado chinês já conta com massa crítica: “construção civil, logística, energia renovável e tecnologias digitais”.
Maximizar a cooperação

Mas como atravessar um ambiente internacional marcado por sanções, tarifas e rivalidades tecnológicas sem perder de vista as prioridades domésticas? Para Francisco José Leandro, a resposta combina “negociar com transparência e objetividade” e investir no que não depende de terceiros: capital humano, integração regional e capacidade institucional. “Ao posicionarem se como interlocutores estratégicos e não como dependentes, os PALOP podem maximizar os benefícios da cooperação internacional, mesmo em contextos de polarização geopolítica”.
Danilo Henriques, secretário geral adjunto do Secretariado Permanente do Fórum de Macau, lembra que essas prioridades já estão mapeadas. “O Plano de Acção para a Cooperação Económica e Comercial (2024-2027) sublinha a pertinência da temática da construção de infraestruturas para impulsionar o desenvolvimento económico e social dos países participantes do Fórum”, afirma, destacando os eixos de transportes, informação e telecomunicações e energia elétrica e hidráulica, e a aposta em “modelos integrados de investimento, construção e operação” que reforcem a participação de empresas dos países membros.
Quanto ao ruído geopolítico, Henriques relativiza, defendendo que não é sensato um país interromper ou condicionar a sua cooperação com outro, simplesmente porque um terceiro “decide lançar unilateralmente imposições tarifárias sobre outros”. Não obstante, diz não ter “sinais evidentes” de que a atual guerra tarifária de Trump tenha dificultado as relações comerciais de Pequim.
“A instabilidade económica global, os conflitos geopolíticos e as tensões crescentes entre a China e os Estados Unidos têm, de facto, implicações relevantes para os trabalhos do Fórum (…) e, mais especificamente, para as relações entre a China e os PALOP” , contraria Leandro. Neste contexto, a estratégia recomendada é de pragmatismo e diversificação: “Em vez de alinhar-se rigidamente com um dos blocos, os países podem adotar uma política externa baseada na diversificação de parcerias, na defesa dos seus interesses soberanos e no fortalecimento das suas capacidades internas”.
Para o académico, a pressão externa pode ser convertida em alavanca para soluções a três. “Essas tensões podem ser vistas não apenas como desafios, mas também como oportunidades para reforçar a cooperação multilateral e trilateral, designadamente com a União Europeia.” Assim, a UE pode “atuar como parceira complementar em projetos que envolvam simultaneamente países africanos e a China, contribuindo com financiamento, normas de boa governação e expertise técnica”. O resultado desejável é “fortalecer a posição dos PALOP, permitindo-lhes negociar com maior margem de manobra e garantir que os projetos de desenvolvimento estejam alinhados com princípios de transparência, inclusão e sustentabilidade”.
Macau como “anfitrião”
Para William Vogt, especialista na China moderna e assuntos lusófonos, Macau pode ser fundamental para a estruturação deste novo modelo de cooperação, por ter “ um vínculo intrínseco” com ambas as partes “que parece difícil de reproduzir” noutras relações bilaterais. “Macau já desempenhou esse papel como um mecanismo anfitrião para importantes fóruns de política económica que aproximam a China e os PLP, como o Fórum”.
A leitura de Vogt oferece duas pistas: por um lado, a especificidade do capital simbólico e institucional que Macau acumulou na relação com o espaço lusófono; por outro, a oportunidade de converter essa singularidade em projetos com impacto real, sobretudo em setores onde a tecnologia e a regulação andam de mãos dadas.
Vogt identifica as tecnologias relacionadas com a segurança como “muito atrativas para muitos regimes africanos lusófonos”, baseando-se nas suas histórias pós coloniais. Para lá da segurança física e digital, há um dossiê com impacto transversal: “Uma agricultura fiável é outra área chave onde o investimento tecnológico beneficia os estados africanos lusófonos”.
Leandro vai mais longe e dá exemplos concretos. Para Angola, que “beneficiou de grandes investimentos chineses em obras públicas e petróleo”, o desafio passa por “diversificar as suas parcerias no setor de infraestruturas e energia” e reduzir vulnerabilidades associadas à dívida e à dependência de um único parceiro. Em Moçambique, as oportunidades estão no gás natural, agricultura e infraestruturas rurais, numa lógica de complementaridade com Japão, Índia ou a própria União Europeia. Cabo Verde, por sua vez, pode “posicionar-se como um ‘hub’ de conectividade entre África, Europa e Ásia”, explorando parcerias tecnológicas e logísticas, sem comprometer a autonomia.