Início » Mais palco do que público

Mais palco do que público

Apesar do investimento de mais de 80 milhões de patacas, o novo recinto de espetáculos ao ar livre acolheu apenas 2 eventos, travado por incertezas meteorológicas, custos operacionais elevados e exigências logísticas sem rede de apoio, já que “quase todos os detalhes têm de ser coordenados por nós com os serviços governamentais, o que aumenta bastante os custos administrativos e a dificuldade de organização”, explica ao PLATAFORMA, Sunny Chio, fundador e CEO da Like Entertainment & Production Co.

Viviana Chan

O primeiro espaço de espetáculos ao ar livre de grande escala, com capacidade para 50.000 espectadores, está em funcionamento desde a sua inauguração no final de 2024, mas até agora apenas acolheu dois eventos com mais de 10.000 pessoas. Com um investimento superior a 80 milhões de patacas, o espaço representa um passo em frente na capacidade e escala local de realização de eventos. Os representantes da indústria, ouvidos pelo PLATAFORMA, assinalam que, embora o potencial do recinto seja amplamente reconhecido, os organizadores enfrentam elevados investimentos iniciais, fatores meteorológicos incontroláveis e custos de coordenação administrativa.

Embora o espaço represente um “avanço para Macau”, realizar efetivamente eventos implica enfrentar “enorme pressão financeira” e “riscos operacionais complexos”, disse ao PLATAFORMA, Sunny Chio, fundador e CEO da Like Entertainment & Production Co. Organizar um evento ao ar livre para 50.000 pessoas, requer um orçamento de dezenas de milhões, sendo que eventos com orçamentos tão elevados são raros no mercado. Como resultado, prevê que a frequência de eventos naquele espaço provavelmente continuará limitada.

A época dos tufões em Macau é principalmente no final do verão e outono. Se ocorrer mau tempo durante um evento, toda a atividade pode ter de ser cancelada ou adiada — e esse risco é inteiramente suportado pelo organizador
Sunny Chio, fundador e CEO, Like Entertainment & Production Co.

Assinalou também que, tendo sido concebido para ser um recinto ao ar livre, isso significa que está totalmente exposto às alterações do clima. “A época de tufões em Macau é principalmente no final do verão e no outono. Se ocorrer mau tempo durante um evento, toda a atividade pode ter de ser cancelada ou adiada — e esse risco é inteiramente suportado pelo organizador”, explica.

Se um evento for cancelado, os organizadores perdem não só os honorários dos artistas, a montagem do recinto e os custos com publicidade antecipada, como também têm de lidar com reembolsos de bilhetes e outras perdas administrativas. Sunny Chio deu um exemplo: “Se os detentores de bilhetes também tiverem reservado hotéis ou voos, o organizador pode ter de ajudar a coordenar compensações. Em contraste, os recintos interiores podem normalmente continuar com o espetáculo mesmo em caso de mau tempo”.

Para além dos desafios relacionados com o clima, Sunny Chio diz que o modo de funcionamento deste recinto difere dos resorts integrados, que incluem sistemas de apoio; como tal, os organizadores têm de gerir toda a logística – segurança, gestão de público, bilhética e transportes por conta própria. “No passado, quando realizávamos eventos em locais como o Venetian ou a Galaxy Arena, só tínhamos de coordenar com a unidade do evento e com a promoção. O recinto tratava da gestão de percursos e a montagem. Mas neste recinto ao ar livre, quase todos os detalhes têm de ser coordenados por nós com os serviços governamentais, o que aumenta bastante os custos administrativos e a dificuldade de organização”, explica.

No passado, muitos artistas ou organizadores queriam realizar concertos para mais de 20.000 pessoas em Macau, mas tiveram de desistir devido à falta de recintos adequados. Agora, há finalmente uma oportunidade para tornar isso realidade

Lawrence Che, fundador e CEO, Chessman Entertainment Production Co.

Por agora, parte da indústria está a adotar uma atitude de espera. A menos que o governo proporcione mais apoio político flexível, será difícil atrair mais pequenas e médias empresas para utilizar o espaço: “Temos estado à procura de artistas internacionais e festivais de música adequados para colaborar, mas tendo em conta os maiores riscos meteorológicos no verão, esperamos que os eventos só possam ser organizados depois de outubro”, afirma Chio. Como solução intermédia, sugere que o recinto possa ser aberto a festivais gastronómicos, eventos desportivos ou celebrações comunitárias para aumentar a sua utilização e eficiência de recursos.

Novo recinto ajuda mercado local

Com uma visão positiva sobre o recinto, Lawrence Che, fundador e CEO da Chessman Entertainment Production Co. acredita que a infraestrutura abre novas possibilidades para o mercado de entretenimento local: “No passado, muitos artistas ou organizadores queriam realizar concertos para mais de 20.000 pessoas em Macau, mas tinham de desistir devido à falta de recintos adequados. Agora, há finalmente uma oportunidade para tornar isso realidade”, diz ao PLATAFORMA.

Recordou os dois eventos realizados desde o final do ano passado, o primeiro a 28 de dezembro e o evento do Dia do Pai em junho, cada um atraindo mais de 10.000 espetadores. “Organizar eventos assim em tão pouco tempo não é fácil, mas prova que Macau tem capacidade para acolher grandes espetáculos ao ar livre e traz nova energia à cidade”, explica.

No entanto, Lawrence Che também assinalou que os riscos dos recintos ao ar livre não podem ser ignorados. “O evento no Dia do Pai enfrentou um sinal de tufão n.º 3. Se tivesse subido para o n.º 8, o evento teria de ser cancelado. Para espetáculos desta escala, as agendas dos artistas são muito limitadas, por isso reagendar é muito difícil”.

O mercado global ainda não está familiarizado com Macau. A cidade precisa de mais estrelas influentes e eventos emblemáticos para elevar continuamente o seu perfil

José Wong, subdiretor da Faculdade de Gestão de Hotelaria e Turismo da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau

Comparado com estádios profissionais ou recintos com coberturas retráteis, como o Kai Tak Sports Park de Hong Kong ou o Tokyo Dome, o recinto ao ar livre de Macau continua a ser transitório. “Embora não seja a opção ideal, conseguir construí-lo em oito meses com instalações básicas já é um grande avanço”, já que construir um recinto de grande dimensão totalmente equipado leva normalmente pelo menos cinco a dez anos.

Segundo o Instituto Cultural, a renda atual do recinto ronda as 500.000 patacas por dia. “Comparado com cidades vizinhas, o preço é bastante competitivo. Em relação aos preços dos bilhetes, embora este seja um recinto ao ar livre, os custos de palco, pessoal, segurança e estruturas temporárias são elevados, por isso os bilhetes não são necessariamente mais baratos do que os de recintos fechados”, explica Lawrence Che.

Relativamente à zona de espetáculos ao ar livre e aos restantes recintos existentes, o mesmo empresário acredita que as operadoras de Jogo e as empresas locais não são concorrentes, mas complementares: “Para artistas internacionais como Andy Lau e Jacky Cheung, é difícil virem a Macau sem o apoio das operadoras. Para fazer crescer o mercado de espetáculos, é necessária a cooperação de várias partes. Os recintos devem ser vistos como plataformas partilhadas, não como concorrência”.

A Chessman Entertainment Production Co. está atualmente em conversações com várias empresas de eventos internacionais e de língua chinesa, com planos para lançar projetos de grande escala já no primeiro trimestre de 2026.

Reputação internacional em construção

Para José Wong, Subdiretor da Faculdade de Gestão de Hotelaria e Turismo da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau, a zona de espetáculos ao ar livre é um teste à política de “Cidade das Artes Performativas”, mas o seu impacto real só poderá ser observado com o tempo e com a realização de mais eventos. “Muitos artistas internacionais querem realizar espetáculos ao ar livre de grande escala para mais fãs e para equilibrar custos e receitas. Mas escolherem Macau depende muitas vezes da reputação da cidade e das infraestruturas de apoio”.

Macau tem vantagens em termos de conveniência turística, capacidade hoteleira e uma fusão de culturas chinesa e ocidental, mas continua atrás de grandes cidades asiáticas como Tóquio, Osaka, Banguecoque e Hong Kong em termos de reconhecimento internacional. “O mercado global ainda não está familiarizado com Macau. A cidade precisa de mais estrelas influentes e eventos emblemáticos para elevar continuamente o seu perfil”, afirma Wong.

Embora apenas alguns eventos tenham sido realizados até agora, as primeiras observações mostram efeitos positivos. “Cada grande evento ajuda a dinamizar a restauração, os hotéis e o comércio nas redondezas, mas são necessários mais eventos antes de vermos alterações significativas nos dados”, explica o académico.

Os espetáculos ajudam a prolongar a estadia dos visitantes e a atrair mais turistas de um “novo tipo”, focados em experiências culturais. “Especialmente os visitantes de fora da Grande Baía costumam ficar uma noite ou duas a três noites para assistir a espetáculos — ao contrário do modelo tradicional de turismo centrado no Jogo”, diz Wong.

Assim, os serviços governamentais devem estudar o comportamento e as necessidades destes turistas culturais o mais cedo possível, incluindo as suas preferências de consumo, planeamento de percursos e como recebem informação. “Se os operadores turísticos conseguirem acompanhar esta tendência, isso poderá impulsionar uma transformação mais profunda e uma modernização da indústria do turismo de Macau”, explica.

O PLATAFORMA contactou o Instituto Cultural para obter informações sobre candidaturas para eventos ao ar livre na segunda metade deste ano, mas não obteve resposta até ao fecho da edição.

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!