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Mais investigação para prevenir o suicídio

Nos últimos 10 anos, a taxa média de suicídio em Macau ultrapassou a média global da Organização Mundial da Saúde. Cynthia Brochado, professora de psicologia na Universidade de São José, alerta para a escassez de estudos académicos sobre o suicídio a nível local, nomeadamente sobre tendências e fatores de risco — um vazio que exige resposta urgente

Carol Law

Na semana passada, os Serviços de Saúde divulgaram os dados de suicídio relativos ao primeiro trimestre de 2025: foram registadas 18 mortes por suicídio, com idades entre os 29 e os 72 anos. Trata-se de uma diminuição de 7 casos face ao trimestre anterior e de menos 4 face ao mesmo período de 2024. No entanto, uma sucessão de suicídios recentes tem vindo a gerar crescente preocupação pública. Entre 2015 e 2024, o número de mortes por suicídio aumentou de 61 para 91, enquanto as tentativas de suicídio passaram de 101 para 249, segundo dados da Secretaria para a Segurança. Esta semana, o deputado Ron Lam manifestou também preocupação com a saúde mental dos jovens, durante uma sessão da Assembleia Legislativa.

A investigação académica sobre o suicídio em Macau é “limitada, com poucos estudos que abordem as tendências ou fatores de risco locais”, afirma Cynthia Brochado ao PLATAFORMA, sublinhando a necessidade de uma análise mais aprofundada. A professora de psicologia na Universidade de São José defende que a investigação pode ajudar a identificar fatores de risco — como problemas de saúde mental ou dificuldades financeiras — e orientar intervenções específicas, como o aconselhamento nas escolas ou campanhas públicas de sensibilização.

Para garantir a sustentabilidade dos serviços de saúde mental, é necessário investir mais recursos ao nível primário, para beneficiar a maioria da população

Cynthia Leong Brochado, professora de Psicologia na Universidade de São José

Por outro lado, considera que o Inquérito sobre a Saúde de Macau, dos Serviços de Saúde, é uma ferramenta essencial para compreender o estado da saúde mental dos residentes e prevenir o suicídio. No entanto, sublinha que realizar o inquérito apenas de 10 em 10 anos “limita a sua utilidade para detetar tendências emergentes ou permitir intervenções atempadas” sobretudo quando os dados entre 2015 e 2024 mostram que os números de suicídio não diminuíram. Por isso, sugere que o inquérito seja realizado de cinco em cinco anos, de forma a permitir uma resposta mais ágil a desafios como a depressão ou a precariedade económica. Para maximizar o impacto, apela ao Governo que “promova o envolvimento da comunidade, combata o estigma e partilhe os resultados do inquérito”.

O secretário-geral da Caritas Macau afirma que “o suicídio não conhece barreiras etárias.” Para Paul Pun, pessoas em diferentes fases da vida enfrentam pressões distintas: adultos de meia-idade podem lidar simultaneamente com o stress do trabalho, problemas financeiros, dificuldades familiares ou parentais, sendo difícil identificar causas específicas para o suicídio. Já Cynthia Brochado destaca que as estatísticas sobre o suicídio em Macau devem ser analisadas com prudência e não reduzidas a números, “porque cada suicídio é uma tragédia que merece atenção séria.”

Criar apoio

A professora acrescenta que cada suicídio reflete fatores complexos e de longa duração — incluindo problemas de saúde mental, stress financeiro ou isolamento social — frequentemente agravados pela dificuldade em pedir ajuda. Sublinha também que “a expansão dos serviços de saúde mental, o apoio nos locais de trabalho e a intervenção comunitária podem ajudar a prevenir o suicídio e criar um ambiente mais solidário para quem precisa.”

Se eu disser que tenho tensão alta, aceitam, certo? Mas aceitam se eu disser que o meu humor oscila? Medimos rotineiramente a pressão arterial — alguma vez medimos as nossas emoções?

Paul Pun, Secretário-Geral da Caritas Macau

Paul Pun partilha igualmente a esperança de que a sociedade preste mais atenção ao bem-estar emocional, tanto individual como dos que estão à sua volta, e aceite que as oscilações emocionais são normais. “Se disser que tenho tensão alta, aceitam, certo? Mas aceitam se disser que o meu humor oscila? Medimos rotineiramente a pressão arterial — alguma vez medimos as nossas emoções?”. O responsável espera que exista um ambiente que permita libertar stress e emoções, para que quem enfrente dificuldades possa procurar ajuda: “Queremos que saibam que estamos a crescer com eles, que não estão sozinhos.”

Pun sugere que as instituições de ensino superior em Macau considerem o exemplo da Universidade Metropolitana de Hong Kong, onde o curso de primeiros socorros em saúde mental passou a ser obrigatório. Apontou também que todos têm um papel a desempenhar no cuidado com os outros: “Se um empregado de mesa participar num programa ‘Guardião da Vida’ – programa governamental de apoio à comunidade -, pode ajudar os clientes se notar sinais de sofrimento.”

Cynthia Brochado destaca ainda uma recomendação da Organização Mundial da Saúde, segundo a qual o sistema de cuidados de saúde mental sustentável deve assentar no autocuidado, apoio informal da comunidade e atenção primária. “Para garantir a sustentabilidade dos serviços de saúde mental, é necessário investir mais recursos ao nível primário, de modo a beneficiar a maioria da população.” Sublinha ainda que os números de suicídio não diminuíram entre 2015 e 2024, o que reforça a necessidade de medidas proactivas. Por último, defende a avaliação contínua e a otimização das estratégias existentes, a consolidação de abordagens eficazes e a priorização de intervenções com resultados comprovados.

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