– Como vê o ambiente de negócios e de empreendedorismo em Macau?
James Si Tou – Como alguém que está a tentar construir uma comunidade, posso dizer que é muito difícil e complicado mudar alguma coisa. Somos poucos, mas acho que Macau é definitivamente um ótimo lugar para começar uma empresa, e sempre disse isso. Se quiser começar qualquer coisa, um projeto ou uma marca, em muitos locais do mundo é extremamente difícil. Em Hong Kong, por exemplo, o custo de vida é muito elevado, e os impostos são altos. Em Macau, começar um projeto é bastante fácil. A comunidade é muito próxima, e é possível conhecer diretamente e contactar alguém com os recursos que precisamos. A burocracia é rápida e as operadoras de jogo também estão a tentar ajudar. O Governo também tem alguns subsídios para se começar. Claro que isso é apenas um primeiro passo, porque ter um projeto sustentável a longo prazo é outra coisa. Muitas pessoas iniciam uma empresa sem pensar nos passos seguintes; não conseguem construir uma empresa sustentável, ou com margem de expansão. As empresas crescem e depois caem. Uma startup deve começar pequena e crescer rapidamente, mas isto é difícil em Macau.
Quanto ao ambiente, basta ver tudo o que aconteceu nos últimos anos. Depois da pandemia, muitas empresas fecharam, não apenas pelo ambiente de negócios atual, mas devido aos custos, porque muitas vezes a mentalidade e modelo de negócio não são apropriados. Um empreendedor nunca deve depender de ajuda externa, incluindo do Governo. O Governo só deve ajudar a criar um bom ambiente de negócios, mas não deve fornecer subsídios ou dinheiro diretamente, porque não são os clientes diretos. O dinheiro deve vir dos clientes.
Em Macau também é muito difícil arranjar uma equipa. Alguém ambicioso e que queira construir uma empresa tem muitas dificuldades em encontrar alguém nas universidades ou no mercado, porque o salário oferecido é metade do que uma concessionária ou o Governo oferece. É por isso que o número de pessoas com essa ambição é reduzido. O mercado é pequeno e há muita concorrência, sendo que quase todas as PME ou startups são prestadoras de serviços. Os que sobrevivem tornam-se mais fortes, porque Macau é um lugar com muita procura. Há muito turismo, e não vemos outro lugar no mundo com empresas tão grandes numa cidade tão pequena. As seis concessionárias geram muito dinheiro e compram de tudo, desde toalhas a serviços de limpeza.
– Quer isto dizer que se alguém quiser começar uma empresa em Macau, deve olhar imediatamente para as necessidades das concessionárias e do turismo?
J.S.T. – Pessoalmente, não gostaria de procurar apenas projetos e contratos com as seis concessionárias ou Governo, porque as suas estratégias e estruturas são muito complexas. Não é fácil substituirem um fornecedor com quem têm relação há muito tempo. Não é por se tratar de um monopólio, mas por uma questão de confiança. Para uma grande companhia, mudar de fornecedor implica um possível custo e risco elevado. Se eu quiser mudar algo, posso fazê-lo amanhã, mas para as concessionárias ou grande empresas, uma pequena mudança tem um impacto muito grande. É como mudar o rumo de um grande navio. É muito difícil para uma startup focar-se apenas nestes clientes.
“Alguém ambicioso e que queira construir uma empresa tem muitas dificuldades em encontrar alguém
nas universidades ou no mercado”

– Considerando o tamanho de Macau, uma startup que precise de pessoas qualificadas tem imperativamente de procurar alguém de fora?
J.S.T. – Acredito que essa é a tendência. Um empresário deve sempre procurar mão de obra globalmente. Se tiveres sempre o mesmo grupo de pessoas, a criatividade não será muito elevada. Um profissional da Malásia poderá saber falar chinês, cantonês ou até inglês de maneira fluente. Em Macau, se calhar começamos a aprender inglês com 7 ou 9 anos, mas na Malásia têm um sistema educacional mais forte, com uma abordagem internacional. Têm também um custo mais baixo e uma mentalidade diferente, por isso, porque não contratar à distância? Não nos podemos limitar a Macau, hoje é possível contratar alguém em qualquer lugar. Mesmo assim, Macau também tem uma boa mistura de culturas e conhecimento. Na minha opinião, o ‘design’ feito em Macau é ótimo. O nosso ‘design’ não é como o de Hong Kong, Taiwan, ou do interior da China. Podemos combinar culturas e criar algo de diferente no mundo.
– O Governo de Macau tem promovido muito Hengqin como uma alavanca que pode ajudar Macau em termos de inovação e desenvolvimento. Vê alguma vantagem prática para empreendedores locais?
J.S.T. – Existem muitas coisas boas em Hengqin. Em primeiro lugar, os profissionais do interior da China podem trabalhar lá, o que tem ajudado especialmente empresas de tecnologia. Mas é preciso tempo para fazer crescer algo. Quem pode dizer como estará daqui a dez ou 20 anos? Ninguém sabe, nem mesmo o Governo. Eu acredito que Hengqin é definitivamente uma necessidade para Macau, porque a cidade é muito pequena. Se quisermos mais pessoas talentosas, se quisermos que esta cidade seja mesmo uma plataforma empresarial especial, precisamos de mais espaço e mais pessoas. A população está a envelhecer e nos últimos 10 anos se calhar ganhámos apenas mais 80 mil pessoas. É verdade que se eu perguntar a algum residente, vai dizer Hengqin não é muito conveniente e a conveniência é importante para os empresários. Mas entre ter e não ter a opção de Hengqin, eu prefiro ter. Talvez não seja tão útil agora, mas talvez seja muito mais daqui a dez anos. A nível microeconómico, se alguém quiser criar um produto com necessidade de serviço pessoal, se calhar deve começar em Macau, mas negócios de apoio ao cliente ou apoio informático podem estar localizados em Hengqin.
– Como tem o Macau Startup Club desenvolvido o ambiente de empreendedorismo local?
J.S.T. – A maioria das associações em Macau são muito tradicionais e o Macau Startup Club não. As pessoas e os eventos que organizamos ajudam realmente a criar um ambiente que permita as pessoas a tornarem-se mais empreendedoras. É composto por pessoal muito ativo, com uma mentalidade semelhante. Trazemos eventos internacionais relacionados com empreendedorismo, como o Startup Weekend, Fuckup Night e o TEDx para Macau. Antes ninguém fazia este tipo de eventos, porque dificilmente geram lucro. O primeiro passo na minha presidência será reagrupar todos os membros principais, o segundo criar eventos de maior escala, e o terceiro conseguir ajudar a criação de uma startup e arranjar quem invista.
“Se quisermos que esta cidade seja mesmo uma plataforma empresarial especial, precisamos de mais espaço e mais pessoas”

Nós queremos realmente investir numa startup. Se pudermos ajudar uma empresa a partir do zero até ao ajustamento do produto ao mercado, ‘marketing’, e expansão, seria a melhor maneira de impulsionar a comunidade empresarial.
Estamos a tentar ajudar as empresas de maneira orgânica e saudável, com uma visão e perspetiva global. A perspetiva global é muito importante, e diferencia as startups das outras empresas. As empresas têm o seu próprio modelo de negócio, mas as startups não têm um modelo de negócio. As startups precisam de ajustar o seu produto ao mercado e de espaço para realmente crescer rapidamente. Nos primeiros três anos o importante é construir a marca e o produto, sem se preocupar com a sustentabilidade. Depois do ajuste do produto ao mercado, é necessário investimento para uma startup crescer rapidamente, mas em Macau ninguém tem esta abordagem.
Aqui as pessoas só querem começar, ganhar dinheiro e depois desistir, o que não é uma abordagem saudável. Por isso tento estudar opções para atrair mais investimento para Macau e criar mais histórias de sucesso. Se conseguirmos isso, podemos mudar o ambiente e atrair outros empreendedores. É como uma bola de neve. Estamos a tentar desenvolver um exemplo que inspire outros a fazer algo e a tomar riscos. Como sabe, a maioria dos jovens gosta de seguir tendências. Se conseguirmos uma história de sucesso, teremos mais jovens a iniciar as suas próprias empresas.
Gostava de usar esta oportunidade como presidente do Macau Startup Club para realmente influenciar um pouco, e mostrar que em Macau há muito espaço para as startups e empresas crescerem, e para que mais empresas internacionais entrem em Macau. Esta é uma das razões pelas quais o Macau Startup Club não trabalha só com startups locais, mas também de outros países e regiões que queiram expandir os seus negócios para Macau.