Hoje conhecida como “Las Vegas da Ásia”, pelos imponentes casinos que redesenharam a sua paisagem urbana, cultural e gastronómica, a verdade é que em Macau há mais para se ver, conhecer… e comer. De forma a enaltecer a gastronomia macaense, surge o projeto “Receitas Caseiras Macaenses pelo Mundo”, para dar a conhecer uma das primeiras cozinhas de fusão do mundo, e que liga Portugal à China
A Região Administrativa Especial de Macau esteve mais de 400 anos sob administração portuguesa. Essa influência, aliada à proximidade geográfica com a China, resultou numa convergência singular e única entre as comunidades – a cultura macaense.
Na área da gastronomia, o expoente máximo desse intercâmbio cultural traduz-se naquela que é descrita por muitos como a primeira cozinha de fusão do mundo e a única gastronomia sino-lusófona.
No século XVI, altura em que os navegadores portugueses desembarcam pela primeira vez em Macau, a Região era apenas uma vila piscatória situada no sul da China, separada de Hong Kong pelo estuário do Rio das Pérolas. Apenas em 1557, já sob administração portuguesa, passou a florescer como um importante ponto de comércio entre o ocidente e o oriente.
Nesse contexto, como palco privilegiado de cruzamento entre culturas.
O Patuá, língua baseada no português e mistura de vocabulário malaio, indonésio e cantonês, foi outra criação deste ambiente intercultural e multifacetado.
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Estes dois distintos traços identitários – gastronomia macaense e Patuá – passaram inclusive a figurar na Lista Nacional de Itens Representativos do Património Cultural Intangível da China. Embora a sua integração tardia, tendo o processo sido concluído apenas em 2021, a importância deste passo é enorme. “Ganhou estatuto oficial”, comenta Miguel de Senna Fernandes, presidente da direção da Associação dos Macaenses, que batalha para preservar os traços culturais que nasceram em Macau como resultado do intercâmbio cultural entre Portugal e China.
Agora “há uma maior atenção institucional para uma gastronomia do que já existia há séculos”, defende. Contudo, pese esse reconhecimento, a gastronomia macaense continua a ter dificuldades em “sair de casa”, comenta Senna Fernandes.
Mesmo em Macau, a sua presença nos restaurantes, não é a ideal, o que complica a sua afirmação num ambiente altamente competitivo. A galopante internacionalização que a cidade conheceu nas últimas duas décadas, com o desenvolvimento da indústria do jogo, trouxe à cidade novas artes culinárias, que acabaram por retirar o espaço de afirmação à cozinha macaense.
“As autoridades, nomeadamente a Direcção dos Serviços do Turismo, arregaçaram as mangas e estão a fazer um trabalho notável. Diria até hercúleo”, elogia Senna Fernandes. Contudo, “eles próprios sabem que ainda não chega”. Apesar de tudo, “o trabalho está iniciado”, reconhece o líder associativo.
Gastronomia Macaense: De casa para os ecrãs
Tendo em conta a importância da internacionalização da cozinha macaense, o PLATAFORMA lança o projeto “Receitas Caseiras Macaenses pelo Mundo”, que conta com o apoio e o conhecimento que nos foi passado por macaenses espalhados por várias geografias. Publicaremos vídeos e artigos de jornal com estórias e receitas dos protagonistas que connosco colaboram neste projeto. O objetivo central é trazer de casa para os ecrãs uma culinária que merece espaço na montra internacional.
Numa primeira abordagem, entre abril e junho, três pratos macaenses serão partilhados pelo jornal, com as receitas a chegarem do Canadá, África do Sul e Macau.
Nuno Ferraria, coordenador do projeto, elogia a excecional resposta da comunidade: “Temos recebido receitas e vídeos de todo o mundo. Desde Canadá, Brasil, África do Sul, Havai e, claro está, Portugal. É de louvar a forma como a comunidade se tem juntado à iniciativa”.
Por outro lado, “a comunidade macaense expatriada mantém a ligação com as suas raízes, e apesar das dificuldades que têm em encontrar os ingredientes para confecionar os pratos típicos macaenses, tentam preservar e passar às gerações seguintes o amor pela comida de Macau”, continua.
“Para os portugueses, a gastronomia macaense representa os sabores tradicionais do nosso país, com um toque chinês. Celebra a história da cooperação Portugal-
-China e liga 11 mil quilómetros de distância, e graças a esta e outras iniciativas que temos planeadas, irá crescer”, conclui Nuno Ferraria.
Rede de Sabores
Este projeto só é possível com o apoio da Direcção dos Serviços do Turismo, que aposta e compreende a relevância da afirmação da identidade macaense, nomeadamente através da sua tradição culinária – um dos eixos centrais da sua cultura.
Mas é também justo e importante agradecer o apoio que nos tem sido dado pela Associação dos Macaenses, o Instituto Português no Oriente e o Instituto de Formação Turística de Macau.
Acompanhe aqui a divulgação dos vídeos e artigos relacionados com “Receitas Caseiras Macaenses pelo Mundo”:
29 DE ABRIL
Receita de Amargoso com Picado de Carne de Porco
Teresa Lopes (Canadá)
13 DE MAIO
Receita de Caril de Peixe com Maçã
Marina de Senna Fernandes (Macau)
3 DE JUNHO
Receita de Galinha Africana
Alexandre Torrão (África do Sul)