O desemprego em Macau continua a aumentar e apesar das mais de quatro mil vagas que o Governo disponibilizou, há poucas oportunidades para os jovens licenciados. E as dificuldades que a indústria do jogo e as pequenas e médias empresas têm enfrentado podem agravar a questão
A população empregada em Macau com ensino superior cresceu 1,9 por cento entre 2019 e 2021, segundo a Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC). Atualmente, representam 40,2 por cento da população empregada, contudo, cerca de 4.500 pessoas inseridas neste grupo estavam desempregadas no fim do ano passado – mais 2.200 do que em 2019.
Além disso, quem mais sofreu com a crise laboral foram os jovens licenciados (até aos 34 anos), sendo que a população licenciada com mais de 35 anos de idade teve uma ligeira subida na taxa de emprego. Analisando os dados oficiais referentes à população com ensino terciário, cerca de 69 mil jovens estão empregados – menos cinco mil relativamente a 2019 -, ao passo que o resto da população registou um aumento de quase 9 mil.
Algo que não ajuda é a mudança estrutural na indústria do jogo, como referiu no mês passado Lei Chan U, deputado da Federação das Associações dos Operários de Macau (FAOM): “A indústria do jogo está a entrar numa nova ronda de ajustamentos e a situação do emprego tornar-se-à ainda mais crítica no futuro. Neste contexto, é mais difícil do que nunca para os recém-formados encontrarem emprego”
Ainda assim, lembrou que o Governo introduziu uma série de medidas nos últimos anos para fomentar o emprego jovem. No entanto, a entrar no terceiro ano de pandemia, sugeriu que “as medidas existentes podem já não ser eficazes”.
Outras questões que colocou ao Executivo prenderam-se com as medidas de apoio para encorajar os empregadores a admitirem recém-licenciados e se as autoridades já realizaram algum inquérito sobre a situação do emprego dos recém-formados em 2020 e 2021.
Encarar a realidade
A Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais (DSAL) anunciou este mês que tem aproximadamente cinco mil vagas disponíveis para residentes, distribuídas por 70 setores de atividades. Após uma análise detalhada do PLATAFORMA, entende-se que estes postos de trabalho adequam-se a pessoal com menos qualificações ou, para aqueles que exigem ensino superior, são cargos que necessitam de alguma experiência no mercado de trabalho.
Entre 2020 e o primeiro trimestre de 2022, a DSAL informou que apoiou na contratação de 8.255 trabalhadores, sendo que poucos postos encaixam no perfil de um recém-licenciado. A maioria destes encontram-se no setor da construção civil (38 por cento), nomeadamente trabalhos de cofragem, carpintaria e de servente; no setor de hotelaria e restauração (24 por cento), a grande maioria foi contratada para desempenhar funções de empregados de mesa e bar, rececionista de hotel e ajudante de cozinha. Os Serviços ajudaram também a empregar residentes como seguranças, porteiros, empregados de limpeza, empregados de loja, caixas e operadores de mercadoria (23 por cento), sendo que os restantes foram emparelhados com sucesso “em diferentes postos de trabalho de outros setores de atividade”.
“Para os jovens sem grandes competências ou experiência é muito difícil arranjar emprego. Seria bom se tivéssemos diferentes tipos de programas de estágio e que os ajudássemos a entrar no mercado de trabalho. Dar-lhes uma oportunidade e depois seria da sua responsabilidade lutar pelo futuro”, afirma ao PLATAFORMA a diretora do Centro de Estudos de Macau, Agnes Lam.
Para a ex-deputada, a tendência é normal, sobretudo com a crise provocada pela pandemia. “O dinheiro é limitado e todos querem gastar o menos possível nos melhores”.
Sobre a relutância de alguns jovens em entrar no mercado laboral por falta de opções adequadas à sua vocação profissional, Agnes Lam defende que o mais importante é entrar. “Em qualquer altura, se não gostarem do trabalho, podem desistir. Mas precisam de obter experiência profissional”, atesta.
Uma opinião que é partilhada por um especialista em ciências sociais, que preferiu manter o anonimato, referindo ao nosso jornal que o ambiente próspero e rico a que os jovens ficaram habituados desapareceu e que é necessário encarar a realidade. “Nos últimos dez anos, esta geração mais jovem cresceu num ambiente próspero e rico. Ir à procura de profissões diferentes daquela que foi idealizada é algo difícil para os jovens aceitarem. O Executivo deve incentivar esta parte da população a enfrentar a realidade”, defende. “No entanto, acredito que a Área da Grande Baía pode ajudar esta geração. Isto é algo que podemos aprender com a História. Em 1997, quando Hong Kong passou para o domínio da China, muitos jovens foram para o Interior com o intuito de criar os seus próprios negócios e conseguiram ter algum sucesso”, relembra.
Porém, preocupa-lhe o atual contexto económico, que pode inclusive despoletar um desinvestimento no ensino superior. Havendo um corte na educação, o académico acredita que isso “fará com que os jovens paguem mais pelo ensino terciário”. Se tal acontecer, prevê que os jovens comecem a procurar outros locais para estudar, como em Taiwan ou até no estrangeiro e, por conseguinte, Macau perderá capacidade em reter jovens talentos.
Incentivos para ficar
A população recém-graduada no desemprego tem aumentado, mas atualmente o subsídio de desemprego não se aplica a quem não tem experiência profissional, que é o caso de muitos destes jovens. Agnes Lam propõe algo que já tinha sido mencionado na Assembleia Legislativa pelo ex-deputado Sulu Sou, mas que nunca chegou a avançar: “Penso que as autoridades podem ajudar as empresas a recrutar jovens, especialmente os licenciados, no âmbito de um estágio, e depois ajudá-los na questão salarial. Durante os primeiros seis meses de estágio o Governo poderia subsidiar, por exemplo. Depois desse primeiro semestre, e se a empresa estiver interessada na contratação do trabalhador, deixariam de receber o subsídio”, explica. “Pelo menos os jovens teriam essa oportunidade”, acrescenta.
A académica aponta para o caso dos jornais, enfatizando as dificuldades que o atual contexto económico cria. “O mercado publicitário não está bom e isso dificulta a contratação de trabalhadores. Mas se o Governo subsidiar a contratação de um estagiário por seis meses penso que seja algo positivo. Depois o jornal aposta nesse estagiário e contrata-o porque acrescenta valor à empresa. Após o primeiro semestre, as empresas seriam subsidiadas em 50 por cento do salário dos trabalhadores, depois 25 por cento e, por fim, 15 por cento. Isto ajuda tanto as empresas como os jovens”, aponta.
Quanto à aposta na diversificação económica, e se essa pode trazer algum conforto aos recém-graduados, a diretora do Centro de Estudos de Macau acredita que sim. “Há 20 anos que digo isso. Comecei a promover essa ideia em 2001. Se o Governo tivesse começado aí, poderíamos estar melhor agora”, lamenta.
Mas há quem acredite que essa não é a resposta, pelo menos nos próximos anos, e que a própria política “Um País, Dois Sistemas” está a ser ameaçada pela crise (ver caixa).
Cenário empresarial negativo reflete as preocupações do mercado laboral
Um relatório divulgado esta semana pela Associação Comercial Federal Geral das Pequenas e Médias Empresas de Macau mostrou que as pequenas e médias empresas locais têm uma perspetiva “muito negativa” sobre o futuro ambiente de negócios. Uma em cada dez empresas querem fechar o negócio, enquanto que mais de 70 por cento das mais de 500 inquiridas acreditam que ainda é necessário mais de um ano para retomar o nível pré-pandémico – se tudo correr bem. Um terço tem opinião favorável a Hengqin, mas muito poucas deram o primeiro passo. Além disso, a quase metade destas empresas preocupa a situação precária dos casinos-satélite, que pode ter impacto nas suas atividades.
David Chow, que fez questão de assinalar que comentava como membro do Comité Nacional da Conferência Consultiva Política Popular Chinesa e não como fundador da Macau Legend Development – empresa que gere casinos e hóteis -, referiu na conferência de imprensa que a prioridade do Governo nesta altura deveria assentar no desenvolvimento das indústrias antigas da cidade (jogo). “É a única maneira de sobreviver nos próximos cinco anos”, afirmou.
“Os números, o timing e o marketing causam muitos problemas que não compreendem. Não são homens de negócios, mas têm de compreender. A economia de Macau cai; o princípio ‘Um País, Dois Sistemas’ também cai”, concluiu.
A CEO da Macau Legend e vice-presidente da Associação que encomendou o estudo, Melinda Chan, também comentou que os negócios junto aos casinos-satélite dependem destes para sobreviverem. Com o declínio destes casinos, acredita que a economia local e o emprego dos residentes tenham um impacto de longo prazo.